José Lemos - Relatório da viagem à França e à Bélgica,

precedido de breves considerações sobre a indústria e comércio de conservas de peixe (Janeiro de 1939)

TÍTULO/TITLE: Relatório da viagem à França e à Bélgica,

SUB TÍTULO/SUBTITLE: precedido de breves considerações sobre a indústria e comércio de conservas de peixe

AUTOR/AUTHOR: José Alberto Lemos Marțins Santareno

DATA EDIÇÃO/ISSUE DATE: Janeiro de 1939

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OWNER OF COLLECTION: Assembleia da República, Arquivo Histórico Parlamentar Expediente e Gestão Documental – Cota: nº original: 243 e 344 – caixa 70, nº 1

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O documento “Relatório da viagem à França e à Bélgica”, precedido de breves considerações sobre a indústria e comércio de conservas de peixe, foi escrito em Janeiro de 1939 por José Lemos, e é uma importante fonte histórica documental utilizada em investigações sobre a economia do período do Estado Novo em Portugal.

O relatório aborda as dinâmicas de exportação e as transformações nos mercados consumidores europeus (como a França e a Bélgica) na iminência da Segunda Guerra Mundial.

José Alberto Lemos Marțins Santareno foi director dos serviços comerciais do IPCP

Esta peça documental surge referenciada na historiografia contemporânea (como na tese de doutoramento do historiador Francisco Henriques sobre a Organização Nacional das conservas de peixe).

José Lemos, director dos serviços comerciais do IPCP, ofereceu um relato desassombrado sobre as vendas no exterior depois de uma viagem de estudo à França e Bélgica. Em Paris, dizia, «os agentes confessam francamente o fracasso que aguardará todo aquele que procure trabalhar com os preços mínimos do IPCP»183. Na Bélgica, alertava que os agentes estavam a substituir as conservas portuguesas pelas conservas de outros países que as vendiam por preços mais baratos. Note-se que Lemos, numa demorada introdução ao seu relatório, demonstrava um entendimento profundo dos mercados conserveiros, o desenvolvimento da concorrência internacional e as vantagens comparativas de cada país. Não tinha dúvidas em afirmar que a concorrência era a única determinante do preço no mercado internacional e «a hora presente caracteriza-se, pois, pelo predomínio do preço sobre a qualidade»184. Propunha, sem se compatibilizar com a organização, que a única forma de dispor de um melhor preço seria a criação de marcas fortes que, pela regularidade e boa qualidade, ganhassem a confiança do consumidor.

in Indústria, Comércio Externo e Intervenção Pública. As Conservas de Peixe no Estado Novo (1927-1972)

ÍNDICE

APRECIAÇÃO GERAL ………………………… pag. 1

COMUNICAÇÕES DA MINHA MISSÃO …………………………  Pag. 60

CONCLUSÕES …………………………  Pag. 115

INTRODUÇÃO

O relatório que apresento a V.Excias. é devido em consequencia da viagem que realisei pela França e Belgica.

O I.P.C.P. em face do decrescimento das exportações para aqueles 2 países entendeu que devia mandar alguem observar o que se passava e a escolha recaiu em mim.

Fiz a viagem e consumi todo o tempo que ela durou no estudo das causas provocadoras da diminuição dos nossos negocios naqueles dois mercados.

Apresento agora êste relatório que se compõe de 3 partes distintas:—

A primeira de apreciação geral onde se referem as condições em que presentemente se encontram a indústria e o comercio das nossas conservas de peixe, mormente das sardinhas, e em que se preconisa a adopção imediata de certas medidas como as mais aconselhadas para uma melhoria de situação.

A segunda é preenchida pelo estudo do que hoje se passa em França e Belgica.

A terceira compreende as conclusões.

Evidentemente que êste meu relatorio jamais deverá ser esperado como trazendo nele a solução impar e insubstituivel do problema, pois que à complexidade que êste encerra, há que acrescentar a insuficiencia dos meus recursos.

Não se excederá a espectativa, nem, portanto se exagerará o valor do autor, aguardando apenas da sua leitura algumas indicações para remediar o mal, e escusado será frizar que elas se formulam como resultado do estudo feito e sob o grande desejo de se aliviar a crise, que, por fortemente desenhada, constitui motivo de profunda preocupação em todos os que se encontram relacionados com a vida da nossa indústria e comercio de conservas de peixe.

E postas as coisas nêste pé, que é o verdadeiro, êste relatorio não tem outro valor além da demonstração da boa vontade que me anima em bem servir o I.P.C.P.

O I.P.C.P. determinando a realização duma viagem de estudo aos mercados francês e belga num momento em que o nosso negocio com êles apresentava vincados sinais de enfraquecimento, demonstrou por forma pratica e precisa que seguia atento a marcha das nossas conservas de peixe, e a assegurar a melhor defesa dos interesses que tem sob a sua superior direcção como organismo criado pelo Estado para uma tanto quanto possivel perfeita coordenação da produção e consumo dêste importante ramo da nossa actividade economica.

Numa hora em que se suscitam dúvidas sobre o actual funcionamento e rendimento dos organismos corporativos, havendo quem lhes atribua um caro funcionamento em comparação com o seu fraco rendimento, entendo ser do meu dever afirmar que o I.P.C.P., em todas as oportunidades, tem-se revelado como o defensor intransigente da indústria e comercio das conservas de peixe e tem desenvolvido uma acção de grande relevo para o seu melhoramento, impondo medidas de fiscalização e estabelecendo principios para a recompor do desequilibrio em que se encontrava por virtude do criminoso aviltamento da qualidade dos seus produtos e pela anarquia em que eram praticadas as vendas num constante declinio de preços.

Efectivamente no antigo regime de liberdade, tanto industrial como comercial, na maioria dos casos, não havia a mais ligeira consciencia nem na fabricação, nem tão pouco nas transacções.

Era uma desorganização completa que bem se pode compreender desde que se tenha presente que, em grande parte, fabricava-se como calhava para se vender como fosse possivel.

Hoje não é assim. Cuida-se da fabricação, e, graças à fiscalização exercida pelo I.P.C.P., elevou-se a qualidade do produto a um nível que tornou possivel a aceitação geral da nossa conserva e terminou com a politica anteriormente seguida pelos compradores de, na base de reclamações sobre a qualidade, abandonarem os lotes à chegada para só os levantarem após a aceitação de grandes reduções nos preços.

Auxilia-se o industrial fornecendo-se-lhe dinheiro pelo depósito das conservas em Armazens Gerais, desta forma libertando-o da necessidade em que muitas vezes se via de ter que vender a mercadoria a qualquer preço para a realização de fundos.

Procurou-se terminar com a anarquia das vendas efectuadas a qualquer preço pelo estabelecimento dos preços mínimos e muito embora o sistema tenha que ser abandonado e em sua substituição haja que recorrer-se a outros meios mais eficazes que, aliás, neste relatorio se indicam, no entanto eles revelam uma tentativa de quem procura pôr ordem onde só desordem existia.

Tudo isto representa trabalho e muito esforço, e, por isso, há que não esquecê-lo para que não se caia em injustiça para com a Instituição.

APRECIAÇÃO GERAL

Muito se tem falado e escrito sobre o problema das conservas de peixe, e, por isso, muitos teem sido os alvitres para a resolução da crise que assoberba êste outróra tão auspicioso ramo da nossa indústria.

Quere-me parecer, porém, que a questão nem sempre tem sido encarada no seu verdadeiro aspecto, isto porque, na maioria das vezes, as opiniões formuladas são o produto de entusiasmos nascidos de interesses feridos ou do receio de virem a ser prejudicados.

Cada qual põe o problema a seu modo.

Ora em assunto de tamanha magnitude para a economia do país, como é o das conservas de peixe, deve-se orientar o estudo no sentido do interesse geral de preferência ao particular.

Convem ter presente que as soluções que contribuam para uma melhor produção, tanto sob o ponto de vista da qualidade como do preço, reflectir-se-hão beneficamente não só na indústria como ainda em todos os que a ela se encontram ligados.

E tratando-se da indústria das conservas de peixe, cujos produtos se destinam, na sua quasi totalidade, a serem vendidos além fronteiras, a intervenção do Estado na sua regulamentação encontra justificação plena.

Por conseguinte o problema reveste a importância duma questão de interesse nacional e é sob êste ponto de vista que tem de ser encarado.

O Estado na realidade tem capital interesse, tanto moral como material, em que os produtos destinados à exportação conservem nos mercados compradores as necessárias condições de qualidade e apresentação e que a sua intervenção na competição mundial se opere por forma a não serem considerados como elementos perturbadores do curso normal das operações. Vai nisto grande parte do prestígio do Estado na projecção de que o seu nome é alvo em todo o mundo com o aparecimento dos seus produtos, além do contributo que uma semelhante política apresenta para firmar em condições estaveis o caudal de ouro a que sempre corresponde uma inteligente e desenvolvida exportação.

Ora a indústria e o comercio das conservas de peixe viviam vida desordenada: — qualidade precária e irregular, preços de venda variando consoante o capricho do comprador permanentemente dirigido no sentido de colher o maior proveito das necessidades e apuros do vendedor.

Uma tal situação era insustentavel e o Estado, sob quebra da sua propria dignidade, não podia consentir na sua continuação.

Estando então por isso a necessidade de intervir e fê-lo com a publicação dos decretos 21.621 e 21.622 de 27 de Agosto de 1932, o primeiro regulando a produção e o comercio das sardinhas em conserva e o segundo criando o Consorcio Português de Conservas de Sardinha.

Depois, em Setembro de 1933, com o aparecimento dos diplomas fundamentais do corporativismo, teve que se ajustar o Consorcio aos princípios estabelecidos naquela legislação, e então foi o mesmo, por virtude do decreto-lei n.º 24.947 de 10 de Janeiro de 1935, transformado na União dos Industriais e Exportadores de Conservas de Peixe.

Por fim, e em consequencia da necessidade duma mais perfeita adaptação da indústria e comercio das conservas de peixe à organica corporativa, foi aquela União substituida pelo Instituto Português de Conservas de Peixe, regido pelo decreto-lei n.º 26.777 de 10 de Julho de 1936, criando-se ao mesmo tempo os Grémios dos Industriais de Conservas de Peixe e o Grémio dos Exportadores de Conservas de Peixe, organismos que se encontram regulados, respectivamente pelos decretos-lei números 26.775 e 26.776.

Feita a referência à intervenção do Estado na indústria e comércio das conservas de peixe, e indicados os diplomas pelos quais se rege essa intervenção, verifiquemos agora o que tem sido a produção das sardinhas em conserva desde a criação do Consorcio até ao fim do ano 1938.

O quadro que figura na página seguinte dá-nos essa produção em caixas dos diversos formatos e nos diferentes centros produtores:

CENTROS

1933

1934

1935

1936

1937

1938

NORTE: Matosinhos

608.700

526.625

686.777

897.556

740.638

539.793

CENTRO: Peniche

23.410

144.049

144.725

77.667

61.795

79.308

Lisboa

77.469

76.715

74.663

40.996

49.507

75.942

SETÚBAL: Setúbal

613.677

1.006.033

1.078.045

731.688

578.400

396.565

BARLAVENTO: Lagos

20.096

47.211

76.480

92.716

82.779

76.904

Portimão

125.496

202.793

332.559

378.275

280.588

355.024

SOTAVENTO: Olhão

173.095

198.229

300.025

287.814

210.690

247.337

V.R. St.º Ant.º

9.658

24.857

46.533

8.783

5.567

21.012

TOTAL

1.479.531

2.126.504

2.760.486

2.215.493

2.059.964

1.770.285

 

RESUMO:

ANOS — CAIXAS

1933 ……………….. 1.479.531
1934 ……………….. 2.126.504
1935 ……………….. 2.760.486
1936 ……………….. 2.215.493
1937 ……………….. 2.059.964
1938 ……………….. 1.770.285

Comparando os totais e se os fizéssemos figurar por um gráfico veríamos uma curva ascendente até 1935 e daqui por diante descendente.

Na verdade, e em relação ao ano 1935, a produção diminuiu 19,7% em 1936, 26,1% em 1937 e 35,86% em 1938.

Em 1938 produziram-se menos 990.201 caixas de sardinhas em conserva do que em 1935!

Vejamos agora o que se passa, no mesmo período de anos, com as existencias, no país e no estrangeiro, de conservas de sardinha nos diversos formatos:

EXISTENCIAS DE CONSERVAS DE SARDINHA EM AZEITE OU MOLHOS,
EM CAIXAS, NOS DIVERSOS FORMATOS, NOS FINS DE CADA ANO,
DESDE 1933 A 1938

ANOS

NO PAÍS

NO ESTRANGEIRO

TOTAL

1933

795.170

***

795.170

1934

934.830

***

934.830

1935

1.452.530

198.362

1.650.892

1936

1.370.330

96.014

1.466.344

1937

1.391.600

60.359

1.451.959

1938

1.530.000

53.617

1.583.617

NOTA:
As existencias no fim de 1938 no estrangeiro encontram-se assim distribuidas:
ALEMANHA ………… 3.477
ALGERIA …………. 335
BELGICA …………. 3.667
EGIPTO ………….. 77
FRANÇA ………….. 145
HOLANDA …………. 34
IRLANDA …………. 14.657
INGLATERRA ………. 39.503
ITALIA ………….. 1.797
NORUEGA …………. 19
SUECIA ………….. 145
SUIÇA …………… 1.838
TUNISIA …………. 295
DIVERSOS ………… 828
53.617

Depois do ano de 1935, a PRODUÇÃO de conservas de sardinha tem diminuido conforme se verifica no mapa respectivo, mas nota-se, infelizmente, que a partir desse mesmo ano as existencias têm aumentado, conforme indica o mapa presente.

Se a produção no ano que findou (1938) fôsse igual à do ano de 1935, teríamos uma existencia de 2.583.818 (?) caixas.

MOVIMENTO DAS MERCADORIAS DO I.P.C.P. E RECEITA DE
“ARMAZENS GERAES” EM 31 DE DEZEMBRO DOS ANOS ABAIXO INDICADOS

Anos

Folha e Estanho

Azeite

Vinho — Quantidade em caixas

Vinho — Valor

Conserva — Quantidade em caixas

Conserva — Valor

Valor total das mercadorias

1933

***

***

***

***

77.523

3.874.491$67

3.870.491$67

1934

***

21.650$45

1.182

79.559$60

139.010

13.543.007$68

13.645.193$68

1935

***

***

5.948

186.230$55

292.870

29.889.158$14

30.075.428$69

1936

***

58.691$50

7.405

192.587$80

123.792

13.499.929$25

13.751.008$75

1937

1.050.898$35

***

4.741

122.483$00

450.732

41.531.574$00

42.703.755$35

1938

157.199$05

***

6.204

219.682$00

557.475

53.624.966$00

54.001.847$05

Noto que, no final do ano de 1938 — exactamente no ano em menos se produziu, depois de 1933 — se registou a maior existencia de conservas de peixe — em azeite ou molhos — em regime de “Armazens Geraes”:

557.475 CAIXAS!!!

Quero com isto chamar a atenção, que os números mencionados, seriam sensivelmente aumentados se a produção tivesse atingido a média dos ultimos 4 anos.

A existencia aumenta até 1935 que apresenta 1.650.892 caixas. Diminui depois em 1936 para 1.466.344 e em 1937 para 1.451.959 caixas para abruptamente subir em 1938 para 1.583.617 caixas.

Quero dizer: — precisamente no ano em que a produção foi mais pequena, a existencia aumentou em 137.658 caixas.

Prova evidente e confrangedora da diminuição do consumo das nossas sardinhas em conserva.

Na realidade e pelo mapa a seguir verifica-se que o nosso movimento de exportação de sardinha em azeite ou molhos, baixou desde 1937, acusando em 1938 uma baixa de 12.032.405 kilos em relação a 1936 e de 8.732.923 kilos em relação a 1937.

EXPORTAÇÃO DE CONSERVAS DE SARDINHA EM AZEITE
OU MOLHOS, DURANTE OS ANOS DE 1933 A 1938

ANOS — KILOS

1933 ………………………. 29.274.015
1934 ………………………. 34.401.538
1935 ………………………. 40.279.382
1936 ………………………. 42.629.551
1937 ………………………. 39.330.069
1938 ………………………. 30.597.146

O consumo diminuiu por virtude da crise mundial agravada ainda pela comparencia de novos competidores que, oferecendo similares da sardinha de boa apresentação e a preços baixos, por toda a parte foram bem acolhidos.

Efectivamente temos que enfrentar hoje no mercado mundial uma forte concorrencia e não podemos acompanha-la nas actuais condições de vida da nossa indústria.

É a França, Marrocos, Algeria e Espanha com as suas sardinhas, Belgica, Noruega, Estados Unidos, Japão e outros com peixes similares.

Estes países compartilham na luta pela colocação dos seus produtos e fazem-no sem respeito de sacrificios, antes procurando, pelo emprego duma acertada política deslocar os adversários para se instalarem no seu lugar.

A impossibilidade de concorrermos com os preços de venda da sardinha dos nossos competidores, mormente de Espanha e Marrocos, nossos mais directos rivais, filia-se em que êstes países teem a sua produção numa base custo de preço inferior à nossa.

Ora a produção pode resultar mais cara em consequência do emprego de velhos processos técnicos, pois é óbvio que uma maquinaria e utensilhagem antigas não produzem o mesmo rendimento duma outra que possua os aperfeiçoamentos da mecânica moderna.

Não é êste, porém, o caso da nossa indústria das conservas de peixe que trabalha com maquinismos tão modernos como os empregados pela competição estrangeira.

A razão é outra.

O facto que os nossos competidores protegem as suas indústrias com medidas dirigidas no sentido de promoverem o embaratecimento da produção e acompanham depois a colocação por forma a angariarem para os seus produtos o melhor tratamento, nós temos esquecido o assunto.

É altura de seguirmos por melhor caminho, pois enquanto a produção das nossas conservas de peixe não fôr auxiliada convenientemente, ficaremos em posição de inferioridade perante a competição com gaudio e aproveitamento desta.

É preciso atender ao facto da nossa indústria de conservas empregar matérias primas que são, quasi todas, de proveniência estrangeira, por conseguinte sujeitas ao ónus aduaneiro.

A própria indústria da pesca, intimamente ligada à das conservas por encontrar nesta o seu principal e mais fiel comprador, entrega, por igual modo, matérias primas estrangeiras, sofrendo, por isso, do mesmo inconveniente.

Na indústria de conservas de peixe desde a folha de Flandres, estanho, chumbo, ferro, até ao azeite tudo paga direitos.

Na da pesca desde as rêdes, alcatrão, fio, lona carvão até ao proprio peixe, pagam tambem direitos.

Livre deste encargo fica apenas a mão de obra.

A produção é sobrecarregada por todos êstes tributos de que os nossos competidores teem o cuidado de aliviar a sua, e daqui, independentemente doutras causas que a seu tempo serão referidas, resulta enorme vantagem a favor dos estranhos de que êles se servem com invejável mestria para nos levarem os fregueses.

Por toda a parte, na hora actual, domina a preocupação de defesa do dinheiro. Os réditos não são proporcionais às despesas, o que força cada um a restringir os gastos para poder equilibrar-se na vida. Uma semelhante preocupação faz-se sentir nas proprias despesas com a alimentação, e, por isso, afecta tambem, e em muito, o consumo das sardinhas em conserva.

É um engano supor que o principal consumidor da sardinha em conserva pertence à classe dos afortunados que pode pagar bem para ter a certeza duma boa qualidade. A maioria é constituida pelos trabalhadores rurais e das fabricas e ainda por todos aqueles que ganhando pouco são obrigados a procurar para seu sustento generos baratos e de bom poder alimenticio.

A hora presente caracteriza-se, pois, pelo predominio do preço sobre a qualidade.

É claro que ainda existe, e certamente existirá sempre, o consumidor da boa qualidade que procura a marca de reputação conhecida. Mas êste é em pequeno numero, e não pode, portanto, influir nas directrizes gerais duma indústria, que, a avaliar pela nossa, produz anualmente duas centenas de milhões de latas.

A média anual da nossa produção, calculada em relação aos últimos seis anos, excede dois milhões de caixas, sejam 200 milhões de latas.

A luta, pois, é pelo preço. Procura-se vender o mais barato possível para se assegurar o maior consumo.

Evidentemente que nesta luta ha um limite abaixo do qual não se pode ir sob pena de arruinar a indústria: — é o preço da produção.

Entre nós verifica-se a tendencia para os excessos e assim antes da criação do Consorcio vendia-se a qualquer preço sem o menor respeito pelo custo da produção. Resultado final: — o fabricante empobrecia pois era êle quem suportava todos os prejuizos.

O Consorcio, hoje Instituto Português de Conservas de Peixe, para corrigir semelhante abuso lesivo dos interesses da indústria e da economia nacional, estabeleceu os preços mínimos de venda e pô-los em vigor sujeitando os infractores ao pagamento de pesadas multas.

Pensou-se que êste regime de preços mínimos evitaria que as vendas se efectuassem arbitrariamente sem o menor respeito pelo custo da produção.

O preço mínimo, porém, é uma ilusão.

Na realidade ou a sua fixação é inferior às cotações correntes nos mercados compradores e a sua inutilidade é manifesta, ou excede aquelas cotações e então os seus efeitos são deleterios pelos expedientes e fraudes a que dá origem para tornar possíveis as vendas; — o que tudo ponderado apenas contribui para deprimir do organismo que o estabeleceu e que fecha os olhos à sua violação.

Fóra das fronteiras dum país é onde o comercio trava a maior luta e onde a victoria, portanto, sorri aquele que melhor preparado se apresente na contenda com preço, qualidade e condições.

Querer impor a venda dum produto a preço superior a outro de valor igual e que na mesma ocasião é oferecido à cotação corrente será pretender dominar um fenómeno da natureza pela simples humana. Pode o credor por da melhor escola e o seu discurso inflamado e empolgante que nem por isso o fenómeno deixará de produzir-se implacavelmente.

Ora os preços mínimos fazem-se lembrar a mesma coisa. Desde que êles ultrapassem os cursos praticados nos mercados, sejam quais forem os motivos que presidem ao seu estabelecimento e por melhor logica que se empregue na sua defesa, as transacções paralizarão por completo e só recomeçarão à sombra do emprego de processos que praticamente os tragam ao nível dos preços de concorrencia.

Portanto a função reguladora das vendas que com eles se procurava, perdeu-se inutilmente e aquelas continuarão a ser feitas em função da concorrencia que é ainda a única determinante do preço no mercado internacional.

Volto a repetir, por necessário que a insistencia, que com as sardinhas em conserva, como, aliás, com outros artigos, há ainda lugar para a venda da qualidade a preço caro, e isto porque, enquanto o mundo fôr mundo, existirão duas classes de compradores: a primeira, e do maior numero, que dispondo de limitados recursos terá que subordinar todas as suas compras ao mais barato preço; a segunda, dos mais favorecidos e em muito menor numero, que pode entregar-se ao luxo de comprar o que é melhor sem atender a preço.

Para esta segunda classe é que se destina a conserva de marca acreditada cuja colocação, portanto, está assegurada e não é prejudicada pela outra conserva barata.

Um facto pode invocar-se para prova desta afirmação. Em 1938, nos 10 primeiros meses, exportaram-se para Inglaterra 4.021.660 quilos de sardinhas em conserva, menos 212.530 quilos que em igual período de 1937. No entanto a venda duma certa e determinada marca muito acreditada naquele mercado aumentou 115.662 quilos nos 10 meses de 1938.

Quere dizer: — quando as nossas vendas decresceram, houve uma marca de qualidade e bem acreditada que aumentou as suas em 115.662 quilos, o que equivale na base ¼ club 30’s, a 5.785 caixas.

Exportação para Inglaterra nos 10 primeiros meses de

1937 ……………….. 4.234.190 quilos
1938 ……………….. 4.021.660 ”
Diferença pª menos … 212.530 ”

Exportação para Inglaterra de certa marca acreditada nos 10 primeiros meses de:

1937 ……………….. 1.773.156 quilos
1938 ……………….. 1.888.818 ”
Diferença pª mais … 115.662 ”

Significa isto que a venda das marcas acreditadas não é prejudicada pelo aparecimento da conserva de preços baratos, pois aquelas teem a sua clientela fiel que não se expõe a correr o risco de trocar um produto que já conhece e lhe merece confiança por um outro que não sabe o que é.

Por consequência só as grandes marcas podem resistir à concorrencia dos preços, mas, como são poucas, a sua venda é limitada e jamais poderá atingir a cifra que nós necessitamos de colocar para dar escoante à nossa produção e ainda esgotar os nossos stocks no país e no estrangeiro (média anual de produção 2 milhões de caixas, números redondos; existencias no país e no estrangeiro 1.583.617 caixas).

Daqui resulta que a nossa atenção tem que se fixar nas marcas de grande produção e em todas as outras que não disfrutam do preço privilegiado das marcas acreditadas. Ora como estas, duma maneira geral, só conseguem ser presentemente objecto de vendas quando transaccionadas a preços inferiores ao custo da produção, não podemos assistir impassíveis e indiferentes à ruina a que necessariamente chegará a nossa indústria se tal processo de venda persistir.

É a prática, grande mestra em ensinamentos, que corrobora inteiramente o que acabo de afirmar: O preço mínimo estabelecido para o formato ¼ club 30’s, actualmente em vigor, é o de sh.19/9 em óleo e sh.20/9 em azeite, mercadoria FOB, o que dá em francos, ao câmbio de 9 francos por 1 shilling, respectivamente 168,75 e 186,75.

O mesmo formato fabricação marroquina vende-se a frs. 168 e 185, respectivamente em óleo e azeite, mercadoria CIF.

A fabricação francesa continental vende-se a frs. 210 e 225, respectivamente em óleo e azeite, mercadoria posta sobre wagon. E a sardinha de Saint Jean de Luz vende-se com uma diferença para menos de 10 a 15 por cento dêstes preços, do que resulta, tomando-se apenas para base 10%, vender-se a Frs. 189 e 207, respectivamente em óleo e azeite, sobre wagon.

É preciso ter-se presente que os preços da conserva marroquina são CIF, ao passo que o nosso preço é FOB, e que a primeira paga menos Frs. 46 por caixa de direitos do que a nossa.

Portanto:

Diferença de FOB para CIF …….. Frs. 6,70
Diferença de direitos ………… Frs. 46
Frs. 52,70

Que ao cambio de 9$50 por franco ou Esc. 52$70, importância esta em que o nosso ¼ club 30’s tem de baixar para ficar a par do preço de venda do ¼ club 30’s marroquino.

Note-se todavia que depois de igualado o nosso preço com o que Marrocos pratica actualmente, não se pode ficar tranquilo e descansado com a obra realizada, porque quando Marrocos vende em França o seu ¼ club 30’s por Frs. 168, ganha Frs. 40, numero redondo por caixa, lucro êste que êle pode ir sacrificando na luta que a concorrencia lhe impuser.

O custo da produção marroquina, para o formato ¼ club 30’s, fica a Frs. 128,04 para mercadoria destinada à França e a Frs. 111,24 para os outros países.

Mas, voltando ao ponto de partida, como pode pensar-se em vender o nosso ¼ club 30’s, óleo, a Frs. 168,75 FOB, quando o importador facilmente compra o mesmo formato marroquino a Frs. 168 CIF, com a vantagem de pagar menos Frs. 40 de direitos em caixa?

Foi por isto que a nossa exportação para França caiu assustadoramente nos 10 primeiros meses de 1938, como os seguintes numeros mostram:—

Nos 10 primeiros meses de 1937 exportamos 7.461.701 Kilos
Nos 10 primeiros meses de 1938 exportamos 3.481.162 Kilos
menos 3.980.539 Kilos ou seja 53,26% menos.

Evidentemente que uma tal situação levou o nosso exportador a vender descaradamente abaixo do preço mínimo, de contrario nada faria. E então com esta pratica imediatamente o movimento recrudesceu e o numero de 3.481.162 quilos exportados para França subiu para 4.738.114, o que mostra que em dois meses (Novembro e Dezembro de 1938) de vendas efectuadas abaixo do preço mínimo, estas aumentaram em 1.256.952 quilos.

Quere dizer:— enquanto nos 10 primeiros meses de 1938, quando ainda se guardava um pouco de respeito pelo preço mínimo, a média de vendas foi de 348.116 quilos por mês, nos dois últimos meses, quando toda a gente abandonou o preço mínimo e passou a vender pelo que foi de 628.476 quilos.

E isto que se passou com a França igualmente se verificou em relação a muitos outros países consumidores das nossas conservas como se conclue dos seguintes numeros:—

EXPORTAÇÃO DE SARDINHA EM AZEITE OU MOLHOS PARA DIVERSOS PAÍSES EM QUILOS, DURANTE OS 10 PRIMEIROS MESES DE:

 

1937

1938

Dif. pª menos

ALEMANHA

8.297.912

8.294.581

….

FRANÇA

7.461.701

3.481.162

(53,26%)

INGLATERRA

4.234.190

4.021.660

5%

BELGICA

2.336.193

1.645.080

(29,60%)

U.S.A.

1.831.990

1.209.406

(35,73%)

ITALIA

1.121.339

547.765

(51,20%)

A MESMA EXPORTAÇÃO DURANTE OS 12 MESES DE:

 

1937

1938

Dif. pª menos

ALEMANHA

10.683.435

9.991.539

(6,52%)

FRANÇA

8.521.659

4.738.114

(44,39%)

INGLATERRA

5.053.415

4.535.670

(10,24%)

BELGICA

2.839.744

2.457.927

(14,94%)

U.S.A.

2.158.772

1.687.166

(21,82%)

ITALIA

1.303.281

816.211

(37,61%)

MÉDIA MENSAL DE VENDAS

 

Nos 10 primeiros meses de 1938

Nos dois últimos meses de 1938

ALEMANHA

829.456 quilos

848.414 quilos

FRANÇA

348.116 quilos

628.476 quilos

INGLATERRA

402.166 quilos

257.005 quilos

BELGICA

164.508 quilos

406.423 quilos

U.S.A.

120.940 quilos

238.882 quilos

ITALIA

56.776 quilos

134.223 quilos

Exuberantemente se conclue que não é possível pretender-se impor a venda da nossa conserva a um preço fixo superior ao praticado no mercado comprador. Se tal preço fôr acompanhado de severas medidas que ponham em enorme risco quem o violar, as vendas paralisarão. Se a sua fixação fôr feita sem o rigor daquelas medidas, a violação verificar-se-ha forçosamente, e então resta saber se um tal regime não conduz ainda a piores resultados que o da simples liberdade de preços.

Por consequência chega-se sempre ao mesmo resultado:— necessidade absoluta de se acabar com o preço mínimo actual, porque é uma inutilidade que levou a um ruinoso sistema de vendas como é aquele que hoje se pratica.

Para não se supor que as minhas palavras sofrem de exagero quando assim se pronunciam, repara-se na atitude que tomaram os importadores de Bordéus conseguindo que a Alfandega fizesse incidir a taxa de importação de 6/24 não sobre os valores da factura do vendedor português, que eram uma ficção, mas sim sobre os valores que lhe apresentaram e que traduziam a realidade das transacções.

Não se pode exigir confissão mais clara à violação do preço mínimo estabelecido como regra para se poder vender.

Consulte-se “Le Bulletin Douanier” de 11 de Outubro de 1938, de Bordéus, pag. 559, que estabelece os seguintes valores sobre os quais incidirá aquela taxa de importação de 6/24:—

Formatos

óleo

azeite

1/10 20’s

Frs. 84

99

1/8 25’s

Frs. 98

115

1/8 30’s

Frs. 113

133

1/4 35’s

Frs. 119

140

1/4 30

Frs. 140

155

1/4 40’s

Frs. 182

214

1/4 reduzido 15

Frs. 107

127

1/4 usual 22

Frs. 137

161

1/4 usual 24

Frs. 154

181

1/4 usual 30

Frs. 182

214

1/4 americano 50

Frs. 234

264

1/2 alfa 40

Frs. 378

445

4/4 80

Frs. 372

437

Não sendo de permitir um tal estado de coisas e não sendo tambem possível esperarmos impor a venda das nossas conservas a preços superiores aos da concorrencia, o estudo terá que ser conduzido no sentido do embaratecimento do preço da produção.

Ora o custo da produção, nos diversos centros, duma caixa de sardinha em conserva no formato ¼ club 30’s, é o constante do seguinte mapa:—

Mapa — CUSTO DE PRODUÇÃO

Base ¼ club 30’s, em óleo em lata ilustrada

CENTROS

VAZIO — Ilustração a 2 cores incluindo caixote

CHEIO

TOTAL

VALOR DO PEIXE — TONELADA

28 Kgs. (caixa ¼ club 30’s)

NORTE — Matosinhos

28$50

44$57

73$07

490$00

13$72

CENTRO — Lisboa / Peniche

32$00

44$50

76$50

466$00

13$05

SETÚBAL — Setúbal

32$00

62$70

94$70

1.090$00

30$52

BARLAVENTO — Lagos / Portimão

32$00

50$38

82$38

650$50

18$20

SOTAVENTO — Olhão / Vila R. Sto. Ant.º

30$00

48$75

78$75

599$00

16$57

Quando fabricação em azeite de oliveira, deve aumentar-se Esc. 10$50

Em todos os cálculos acima mencionados estão incluídos Esc. 6$00 para Gastos Gerais.

O cálculo do custo do “vazio” — não direi em todos os centros — admite redução, como se vê. Basta evocar as Empresas que têm as suas secções de “vazio” bem organizadas.

Precisa-se agora saber quais as verbas susceptíveis de serem reduzidas para encontrarmos um custo menor de produção, e, desde já, podemos fixar o nosso estudo nas duas seguintes:—

  1. a) encargos alfandegarios e fiscais
    b) peixe

Encargos alfandegarios e fiscais: — Os encargos alfandegarios que incidem directamente sobre a indústria das conservas de peixe são determinados pelas taxas que o mapa da pagina seguinte mostra.

Além daquelas taxas há ainda o imposto de 1,2% sobre o pescado, a contribuição industrial e a taxa de exportação cobrada pelo I.P.C.P.

Transportados êstes diferentes encargos para uma caixa de ¼ club 30’s, verifica-se que a fabricação é sobrecarregada com as seguintes verbas:—

VAZIO

Folha …………… $90
Solda ……………. $12
Tinta pª ilustração … $03  1$05
A transportar ……………. 1$05

Transporte ………… 1$05

CHEIO

Pescado, 1,2% s/20$00 valor médio para facilidade de cálculo …….. $240
Óleo ou azeite, 3 quilos a 1$20 …….. 3$60
Arame para chaves e arqueação …….. $10
Despacho, incluindo taxa I.P.C.P. …….. $600 10$10

ENCARGOS FISCAIS

Contribuição industrial …….. 1$60

14$15

Mapa — DIREITOS ALFANDEGARIOS

Pauta e adicional sobre a mesma

SOBRE

OURO — Kilo

OURO — Tonelada

ESCUDOS — Kilo

ESCUDOS — Tonelada

Azeite de oliveira, 1.ª grau e óleo de amendoim

$04 + 20%

 

1$173,6

 

Estanho em barras ou lingotes

$07 + 20%

 

2$05,4

 

Chumbo fundido em lingotes

$01,2 + 20%

 

$35,3

 

Arco de ferro

 

4$00 + 20%

 

117$56

Folha de Flandres

 

4$00 + 20%

 

117$56

Arame de ferro simples do n.º 1 até ao n.º 6

 

1$30 + 20%

 

38$15

Arame de ferro simples depois do n.º 6

 

2$00 + 20%

 

58$80

Carvão de pedra

 

$35 + 5%

 

8$98,6

Da comparticipação do Estado em aliviar o custo da produção, não é exagerado esperar-se uma apreciavel redução obtida nos direitos sobre a folha, solda, tinta, óleo ou azeite, arame e pescado.

Não pode esperar-se alivio nem da contribuição industrial, nem tão pouco da taxa cobrada pelo I.P.C.P. pela primeira constituir receita ordinaria de que o Estado não pode prescindir sob pena de abalar a sua estrutura orçamental e a segunda se aplicar por forma a que efectivamente reverte em auxilio da indústria.

Para perfeita compreensão veja-se o destino que tem esta taxa de $25 por quilo para a conserva de sardinha em azeite ou molho.

Para o I.P.C.P. 40% ……………….. $10
Para os Grémios Industriais 60% …….. $15 $25

A parte dos 40% para o I.P.C.P. destina-se a fazer face a todos os seus gastos incluindo a Propaganda.

A parte dos 60% para os Grémios Industriais tem o seguinte destino:—

45% para Fundo Corporativo — equivale a $06,75 por quilo
45% para Fundo Prev. Social — equivale a $06,75 por quilo
10% para Fundo de Exercício — equivale a $01,5 por quilo

$15

O Fundo Previdencia Social subdivide-se ainda:

85% ……………….. $05,7375
15% ……………….. $01,0125

$06,75

Os Grémios só podem dispor da importancia referente aos 85% mediante autorização do I.P.C.P.

Neste capítulo, pois, apenas o Estado pode contribuir para o indispensavel abaixamento do custo da produção sacrificando os direitos que pesam sobre as materias primas consumidas pela indústria. Marrocos e Espanha assim procedem como adiante se verá. Ora constituindo êstes dois países os nossos mais directos e perigosos rivais, devemos com redobrado afinco ver o que êles fazem para nos habilitar-mos a concorrer eficazmente com os seus processos. Tenhamos presente êste doloroso facto:— não soubemos aproveitar a ausencia das conservas espanholas durante o período da Guerra, e foi Marrocos quem veio substituir Espanha. Terminada a Guerra Espanha voltará com as suas sardinhas e com o seu aparecimento mais decairemos nós. Isto é uma verdade que se produzirá inexoravelmente se não reagirmos a tempo.

  1. b) Peixe

Como se viu a verba destinada ao peixe é a que mais varia de centro para centro e é aquela que mais pesada se torna.

Afigura-se-me que é ainda esta verba a que maior redução pode suportar, desde que as condições da indústria da pesca se modifiquem no sentido duma melhor adaptação às circunstancias e necessidades actuais.

O assunto da pesca da sardinha oferece aspectos duma grande delicadeza e seria necessário um alongamento grande na exposição para ser versado com certa profundidade.

Não está no meu propósito fazer isto. No entanto algumas considerações se impõem e não serei eu quem se furtará a elas, sabido como é que da indústria da pesca da sardinha depende por completo a indústria das conservas, visto aquela ser a fornecedora da materia prima que esta labora.

Não vou entrar na discussão, nem tão pouco apreciação, das causas que influem nas faltas que por vezes se sentem na pesca da sardinha. Tenho a sua explicação é por enquanto difícil de se fornecer com segurança por carencia dum estudo sério e consciencioso do problema. Seja por motivos de falta de alimentação, ou ainda da modificação do regime da temperatura das aguas; seja por razões de se tratar dum peixe essencialmente migratorio, ou ainda por motivos de intranquilidade e perseguição, o certo é que se verificam alterações grandes da abundancia da sardinha em certas zonas da nossa costa.

Ora entre as zonas que mais teem enfraquecido, figuram Setubal e Lisboa, como facilmente se conclue da consulta do mapa a seguir que nos mostra as quantidades, em quilos, de sardinha e similares pescados nas diferentes zonas desde 1932 a 1938:—

Mapa — REGISTO DE PESCA DE SARDINHA E SIMILARES EFECTUADA NOS DIVERSOS CENTROS CONSERVEIROS DE 1932 A 1938

Centros

1932 — Quantidade Kilos

1932 — Valor Esc.

1933 — Quantidade Kilos

1933 — Valor Esc.

1934 — Quantidade Kilos

1934 — Valor Esc.

1935 — Quantidade Kilos

1935 — Valor Esc.

MATOSINHOS

19.754.855

12.728.122$

Não consta

17.249.935$

48.522.940

19.446.445$

44.092.375

22.862.848$

PENICHE

12.806.875

8.767.763$

13.599.115

9.584.115$

17.953.110

9.696.980$

20.918.000

8.658.194$

LISBOA

11.179.492

5.725.177$

11.787.125

5.394.524$

11.007.876

4.476.228$

10.147.735

4.775.669$

SETUBAL

14.876.750

15.689.818$

15.901.120

15.879.890$

21.420.086

20.404.878$

12.495.060

16.963.268$

LAGOS

1.452.775

1.098.711$

865.245

641.970$

1.628.683

1.229.492$

2.659.054

1.820.903$

PORTIMÃO

9.114.890

6.779.408$

4.175.500

4.543.362$

5.564.290

6.264.577$

10.374.166

6.882.065$

OLHÃO

9.389.985

5.136.945$

5.042.915

2.339.550$

4.740.930

3.941.367$

7.103.426

4.511.409$

VILA REAL DE SANTO ANTONIO

1.377.460

628.714$

468.356

448.221$

1.145.911

1.252.597$

1.639.685

1.068.122$

Centros

1936 — Quantidade Kilos

1936 — Valor Esc.

1937 — Quantidade Kilos

1937 — Valor Esc.

1938 — Quantidade Kilos

1938 — Valor Esc.

MATOSINHOS

33.373.552

20.767.779$

34.006.473

23.148.109$

40.242.000

19.745.100$

PENICHE

12.501.115

6.816.255$

7.752.605

5.251.621$

10.958.600

5.689.800$

LISBOA

8.856.392

4.465.597$

8.105.536

3.697.480$

6.531.600

2.695.800$

SETUBAL

26.423.473

13.097.243$

9.410.353

11.017.134$

6.904.200

7.544.000$

LAGOS

1.790.761

1.106.251$

1.589.976

1.173.826$

1.674.500

1.063.500$

PORTIMÃO

11.486.628

7.993.215$

12.358.618

8.601.596$

13.565.800

9.117.600$

OLHÃO

5.456.174

3.446.445$

9.568.160

8.859.189$

8.782.500

4.703.200$

VILA REAL DE SANTO ANTONIO

690.158

502.608$

1.567.949

1.622.803$

1.835.200

1.191.400$

Números fornecidos pela Direcção de Pescarias — Ministério da Marinha —

VALOR DA TONELADA, EM ESCUDOS, POR ANO NOS DIVERSOS CENTROS PESCADORES:

Ano

Matosinhos

Peniche

Lisboa

Setúbal

Lagos

Portimão

Olhão

V.R.Sto.Ant.º

1932

644$00

685$00

535$00

1.054$00

756$00

745$00

550$00

458$00

1933

Não consta

705$00

457$00

970$00

742$00

1.088$00

769$00

963$00

1934

401$00

550$00

406$00

952$00

754$00

1.125$00

831$00

1.075$00

1935

518$00

415$00

470$00

1.357$00

503$00

658$00

607$00

651$00

1936

623$00

535$00

503$00

495$00

620$00

645$00

631$00

730$00

1937

680$00

678$00

456$00

1.170$00

768$00

720$00

925$00

1.035$00

1938

490$00

520$00

412$00

1.090$00

635$00

672$00

535$00

649$00

Convem notar, desde já, que em Matosinhos e Peniche a pesca é feita por meio de traineiras, e que nas outras zonas se empregam de preferencia os cercos, muito embora algumas usem tambem um pequeno numero de traineiras, que por insuficientes em quantidade ficam numerando plano de inferioridade na competição com os cercos.

Ainda em Peniche e Lagos se usam as armações fixas à Valenciana.

O mapa a seguir mostra-nos o numero e a qualidade das artes de pesca empregadas nas diferentes regiões piscatorias de 1932 a 1938:—

NÚMERO DE «CERCOS DE PESCA» E «TRAINEIRAS» EXISTENTES NOS DIVERSOS CENTROS CONSERVEIROS NOS ANOS DE 1932 A 1938

Centros

Cercos 1932

1933

1934

1935

1936

1937

1938

Traineiras 1932

1933

1934

1935

1936

1937

1938

MATOSINHOS

2

1

62

52

62

58

61

64

70

PENICHE

87

87

94

100

104

105

97

LISBOA

16

16

14

16

15

17

16

2

2

2

1

2

SETUBAL

14

16

20

16

19

13

7

5

12

9

9

8

9

10

LAGOS

1

3

PORTIMÃO

22

17

17

16

14

19

18

3

1

2

3

3

6

OLHÃO

11

11

11

12

11

11

9

1

1

VILA REAL STO. ANT.º

8

8

8

6

5

5

6

Ora dum primeiro exame logo se observa que onde a pesca tem sido mais abundante e regular é em Matosinhos e Peniche, e onde ela mais tem decaído é em Setubal e Lisboa.

Portanto a primeira conclusão que se tira é a de que as zonas mais ricas e mais regulares teem sido aquelas onde se pesca com traineiras.

Vê-se que Matosinhos, com as suas traineiras, pescou o ano passado cerca de 40.250 toneladas, ao passo que Setubal apenas apanhou 6.900 toneladas.

É certo que a maior parte de peixe está em Matosinhos não pode ser destinada à conserva, mas isto é devido ao pescador não saber ainda convenientemente o peixe. Começa porque o pescador trabalha, duma maneira geral, pesca contra o vento de modo que a rêde não fica a prumo mas sim em declive, o que dá em resultado a sardinha perder muito da sua escama no constante lutar contra as suas malhas na ancia de se libertar da prisão em que se vê.

Depois conserva o peixe enfrocado, quere dizer demasiadamente apertado na rêde até à hora de desemvasar. O peixe assim apertado continua a perder muito da sua escama e o resto vem a perdê-la com o desemvasar. Esta operação é feita com chalavares muito grandes que são metidos com o peixe enfrocado. O chalavar contendo uns dois milheiros de peixe é içado, voltado e despejado nos compartimentos do convez da traineira. Quando esta chega ao porto do destino, como a venda é feita com o peixe em cabezas, há necessidade de se encher de agua os compartimentos para o peixe levantar e ficar fôfo de maneira a poder ser tirado para aquelas cabezas. Empregam-se nesta operação guilhetas e com tudo isto a maior parte do peixe fica improprio para o fabrico.

De Lisboa para baixo, normalmente, pesca-se a favor do vento caindo as rêdes a prumo, diminuindo-se, portanto, o inconveniente do peixe se estragar de encontro a elas. Chegada a hora de desemvasar é o peixe tirado da agua já por meio duma sacada e desta tirado para os buques com uns chalavares pequenos que comportam 300 a 500 peixes. Na viagem para a lota há o cuidado de, por meio de bomba, esgotar-se o sangue e a agua do buque, de maneira que a sardinha chega à lota limpa e bonita. Logo que o peixe é vendido faz-se uma boa salmoura para o levantar e ficar fôfo no buque e só depois se procede à sua tiragem e condução para as fábricas dentro de cestos.

De Lisboa para o sul há, pois, maior cuidado com o peixe de modo a êste se apresentar nas melhores condições de aproveitamento pela indústria conserveira.

Do facto de Matosinhos e Peniche pescarem em grande quantidade, e, sobretudo, mais regularmente, poder-se-há, desde já, concluir pela preferencia da traineira em relação ao cerco.

Certo é que, muito embora sem a apresentação duma vantagem técnica decisiva, grande numero de pessoas de Setúbal se pronunciam a favor da pesca efectuada por cercos, e não deve esquecer-se que supor que tais partidarios são movidos pela ideia de que os cercos teem um raio de acção muito superior às traineiras, por conseguinte são aptos a pescarem maiores quantidades que estas.

Não vou entrar nesta discussão; porém, salvo o devido respeito, ocorre-me recordar que sendo precisamente naquela região onde a sardinha mais rara se apresenta, não deve servir de motivo para preferências o facto duma arte poder pescar muito num só lanço, antes me parece que deve optar-se pelo emprego dum instrumento de pesca mais economico e de mais rapido e simples manejo por forma a permitir a execução de varios lanços.

Ora nêste ponto, que considero digno de apreço, enquanto o cerco precisa em média de 2 horas para o lanço (manobra compreendida desde o lançamento da rêde ao mar até à sua recolha) a traineira pode efectuar 2 lanços no mesmo espaço de tempo.

Desde que a região não oferece grande quantidade de sardinha, aquela que aparece apresenta-se em pequenos grupos, às vezes tão reduzidos que não vale a pena ao cerco fazer o lanço, porque nenhum beneficio seria com a apanha de duas escassas dezenas de canastras.

O mesmo não acontece com a traineira, que, por isso, pronta lançará a rêde àquele pequeno grupo, e pouco tempo depois fica apta a fazer novo lanço.

Poderá argumentar-se que não deve servir para preferencia pela traineira a facilidade que esta tem de repetir os lanços e isto pelo risco que eles oferecem de trazerem à lota peixe irregular, como é todo aquele que é apanhado por diferentes vezes. O argumento é de colher quando o peixe chega à lota em conjunto como acontece com o das pequenas traineiras em que todo vem misturado no porão, e portanto o que está no fundo chega em pessimas condições para poder ser fabricado convenientemente.

No entanto êste prejuízo não se verifica nas traineiras grandes empregadas em Matosinhos que possuem varios compartimentos no convez destinados a receberem o peixe dos diferentes lanços, de modo que quando se procede à sua venda o comprador logo distingue o que é melhor e mais fresco e de harmonia determina o seu preço.

Acontece ainda que a traineira pode pescar com qualquer mar, ao passo que o cerco não, pois tem que evitar o fundo pedregoso assim como as rêdes sujeitas pelo perigo que lhe oferecem de perder rêde. A traineira vai pescar a todos os sitios onde o cerco vai e ainda a outros onde êste não pode ir. O custo do cerco é muito mais caro que o da traineira e a sua manutenção, tanto em material como em homens, muito mais dispendiosa.

O cerco regularmente apetrechado traz a bordo 40 cabos de rêde 30/12 e 3 de copejada 30/16, num total, portanto, de 43 cabos (43.000 metros) que a 12 braços cada cabo de entrainhamento permite fazer um cerco de 900 metros, numeros redondos.

A rêde tem de altura 40 braços, sejam 70 metros, numeros redondos. Para se trabalhar este material são precisos, normalmente, 80 homens da companha.

Portanto, como se vê desta simples enunciado, o cerco está naturalmente indicado a ser usado em regiões de pesca abundante, pois em tais casos preciso é empregar-se um meio de pesca que duma só manobra possa recolher uma grande quantidade de peixe.

A traineira traz apenas 25.000 metros de rêde, sendo 23.000 30/9 e 2.000 30/12 e 30/16 para copejada e represas, reforços que a copejada leva. Esta rêde é muito mais fina e por consequencia muito mais leve, de modo que 30 homens que tantos são os que compõem a companha das traineiras, são o bastante para trabalharem todo êste material.

O industrial de Setúbal, duma maneira geral, reclama maior numero de cercos, pois afirma que sendo a pesca rara deve-se empregar uma quantidade maior de artes de pesca para melhor se bater o mar.

Acrescentarei, seguindo o mesmo raciocinio, que ainda se serve melhor a pretensão adoptando a traineira, pois sendo de mais rapida mobilização e de mais simples manejo, mais habilitada está em procurar o peixe, terá que se tem de fazer tanto mais à porta quanto mais escasso ele se oferecer.

Dizem os práticos que longe da costa, a distancias inacessiveis aos cercos, se avistam grandes cardumes de sardinha.

Perde-se êste peixe por não possuirmos artes de pesca em condições de o apanharem. Desde que podessemos dispor duma frota de traineiras do tamanho das de Matosinhos, movidas a óleos pesados, sistema Diesel, com uma marcha horaria de 11 milhas, e cada traineira equipada com 3 buques, tambem providos de motor Diesel de igual andamento para o rapido transporte do peixe para terra, ficariamos habilitados a ir pescar onde hoje nos é impossivel faze-lo.

A traineira não deve ser empregada no transporte do peixe dentro dela. Para isso existem os buques que não devem ser postos de parte pois representam ainda o melhor meio para aquele transporte.

Por tudo isto afigura-se-me que o I.P.C.P. realizaria uma boa obra estudando o fornecimento aos industriais de Setúbal, e outros devidamente representados pelos seus Grémios, duma frota de traineiras novas obedecendo às condições que apontei e na quais recolhi de opiniões de autorizados práticos do mar.

Entregue a direcção desta frota aos respectivos Grémios dos industriais estou convencido que se daria um bom passo para o levantamento da indústria e julgo tambem que não seria temerario esperar-se desta nova orientação um abaixamento no custo do peixe até 20$00 a canastra o que, com o alivio dos direitos, praticamente proporcionaria a redução do preço da produção para um nivel que viria facilitar o consumo nos mercados externos da nossa conserva.

Reputo ainda digna de consideração a ideia de se empregar, tal como se faz lá fora, o wagon e caminho frigoríficos apropriados para o transporte do peixe em terra, pois com o seu uso realizar-se-ia uma melhor distribuição do pescado levando-o dos centros onde abunda para aqueles em que escasseia, daqui proporcionando-se uma mais equilibrada repartição da laboração evitando-se que ela se acumule e seja prejudicial por isso.

Da adopção das medidas que atrás se apresentam poder-se-hia esperar as seguintes reduções nos custos da produção dos diferentes centros, partindo-se do principio que seria possivel obter-se a sardinha na base de 500$00 a tonelada, sejam 14$00 por cada caixa 1/4 de club 50/—

Matosinhos

actual preço da produção ……………….. 73$07
redução dos direitos …….. 6$43
aumento no peixe ………… $28  6$15
Futuro custo da produção ……………… 66$92

Centro

Actual preço da produção ………… 76$50
redução nos direitos …………… 6$43
aumento no peixe ………………. $95  5$48
Futuro custo da produção ………. 71$02

Setúbal

Actual preço da produção ………… 94$70
redução nos direitos …………… 6$43
redução no peixe ………………. 16$52  22$95
Futuro custo da produção ………. 71$75

Barlavento

Actual preço da produção ………… 82$60
Redução nos direitos …………… 6$43
redução no peixe ………………. 4$82  10$95
Futuro custo da produção ………. 71$75

Sotavento

Actual preço da produção ………… 78$75
redução nos direitos …………… 6$43
redução no peixe ………………. 2$57  9$00
Futuro custo da produção ………. 69$75

texto sobre “marcas nacionais”

Verifica-se que o custo de produção ficaria, duma maneira geral, á roda de Esc. 71$75.

Ainda se verifica que o futuro custo da produção aumenta ligeiramente em relação a Matosinhos e Centro, visto estes terem tido um peixe mais barato do que o preço tomado para base de estudo.

Por fim convem não esquecer que no custo da produção a 71$75 se compreende a verba de Esc. 6$00 para gastos gerais.

Provado como fica que é imperioso acabar-se com o preço mínimo actual e que deve reduzir-se o custo da produção das nossas sardinhas em conserva a um nível, tanto quanto possível, aproximado do dos nossos competidores, por forma a que as vendas não sofram dificuldades nem interrupções antes se desenvolvam para um mais perfeito equilíbrio entre a produção e o consumo, ocorre perguntar se, conseguida esta melhoria, deve permitir-se o regime da liberdade de preços.

A uma resposta afirmativa poder-se-ha com razão objectar:

Mas em tal caso como exercer-se fiscalização nos cursos das vendas, sendo de recear, atenta a manifesta tendência para abusos, que, muito embora reduzido o custo da produção e atingida a sua equiparação com o dos nossos competidores, as transacções continuem a ser feitas com seu prejuizo?

É perfeitamente legitima a duvida, tanto mais quanto é certo que a forma como é, na maioria, trabalhada a colocação das nossas conservas, confiada a agentes cujo único interesse consiste em vender para ganharem a comissão, não é para estranhar que a pressão se exerça num permanente sentido de baixa, contra o qual o fabricante, salvo raras excepções, não tem sabido, ou podido, opor uma resistencia firme, antes o tem facilitado pela passividade com que a tudo se submete.

Sendo assim, como de todos é sabido que é, corre-se o risco, com a liberdade de preços, de se perder esterilmente todo o barateamento do custo da produção, que apenas, e em ultima analise, redundará em beneficio do comprador estrangeiro que passará a adquirir a nossa conserva mais barato ainda.

Como combater, pois, este perigo, sendo certo que o I.P.C.P., por determinação expressa e clara da lei, compete orientar e dirigir a vida das conservas de peixe no sentido de melhorar e defender as condições da sua produção e do seu comércio?

Estudemos com calma o problema:

Pelo que já se disse pode-se definir a venda das sardinhas portuguesas em conserva como obedecendo a duas correntes:

  1. a) marcas acreditadas de reconhecida qualidade
    b) todas as outras marcas de grande produção

Portanto concorrencia entre qualidades, a da primeira, e concorrencia no preço, a da segunda.

Quere dizer: – a venda da primeira, mercê dum trabalho bem feito e do rigor com que tem respeitado a sua boa qualidade, decorre num regime de preços que pouco é ferido pelas oscilações do mercado.

Produto bem conhecido pela sua marca, vale por ela, pois tem a sua clientela fiel que não vai abandoná-la pela contingencia de adquirir uma outra que não sabe o que é.

A sardinha em conserva é sempre uma incognita para o consumidor no momento em que a adquire, pois apresenta-se-lhe numa lata hermeticamente fechada, e, por isso, só pode conhecer o valor do conteúdo quando, em casa, procede à sua abertura. A unica indicação que lhe oferece uma certa garantia do que compra, reside na marca, por isso aquela que sempre lhe forneceu uma boa qualidade encontra de sua parte preferencia pela confiança que lhe merece.

Por consequencia a sardinha em conserva apenas pode dispor dum melhor preço de venda quando é oferecida numa marca que pela regularidade da sua boa qualidade goza da confiança do consumidor.

No entanto verifica-se que a sua venda é limitada, pois não é grande o numero daqueles que podem pagar bem para terem a certeza dum bom produto.

Além desta ha toda a outra sardinha em conserva de grande produção que é oferecida numa enorme profusão de marcas, e a qual não se apresenta regular na qualidade, tanto contendo bom produto como deficiente, pois se ressente de todas as vicissitudes duma fabricação que umas vezes é feita com o preceito devido, outras vezes sofre de demora e até precipitação, conforme se trabalha à vontade e com tempo ou se suportou trabalho excessivo por uma acumulação de peixe ou para se acudir a outro que se comprou com bastantes horas de morto.

Estas marcas precisamente por serem o resultado duma semelhante laboração, não podem conquistar a garantia dum melhor preço e a sua venda está sujeita a todas as flutuações dos mercados.

E porque elas constituem o grosso das vendas, são elas que pesam na nossa exportação, e, portanto, do seu melhor ou pior preço se ressentirá, em intima correlação, a economia da nossa industria conserveira, que mais não é que um sector da economia nacional.

Por consequencia porque elas são o maior numero é que a sua laboração e o seu comercio necessitam ser dirigidos superiormente para evitar que se tornem em elementos de desordem e perturbação nos mercados consumidores, já porque sejam de má qualidade, já porque se promova a sua colocação precipitadamente, já, finalmente, porque as condições do ofertante o forcem a submeter-se a todas as especulações do comprador.

Procurou-se corrigir este mal e adoptou-se, para isso, como já se viu, o sistema da fixação dum preço abaixo do qual não se podia vender.

O sistema falhou dando origem a que o vendedor lançasse mão de todos os expedientes e meios para embaratecer o preço até despertar o interesse do comprador que facilmente encontrava junto de competição mercadoria que o satisfazia.

Tendo falhado o sistema entrou-se numa luta de preços, quiçá mais perniciosa do que a que se verifica no regime de ampla liberdade, pois é obvio que o que se faz às ocultas e encobertamente provoca mais exageros do que aquilo que se pratica às claras e com o conhecimento de todos.

Sendo assim há que recorrer-se a outros processos mais eficazes e de mais dificil violação.

Ora afigura-se-me que temos na lei a indicação expressa do que ha a fazer-se.

Assim pelo Dec. 21.622 de 27 de Agosto de 1932 que instituiu o C.P.C.S., nos artigos 14, 15, 16 e 17, foi prevista a possibilidade de se criarem “marcas nacionais” e logo determinada, duma maneira geral, a forma como a sua fabricação seria distribuida pelos industriais, ficando aquelas “marcas nacionais” propriedade exclusiva do C.P.C.S. que poderia vende-las ou exporta-las.

Êste princípio foi respeitado pelo Dec. n.º 24.947 de 10 de Janeiro de 1935, criador da União dos Industriais e Exportadores de Conservas de Peixe.

Por fim veio o Dec. n.º 26.777 que, criando o I.P.C.P., em nenhuma das suas disposições se refere às “marcas nacionais”.

Apesar desta omissão entendo não dever concluir-se que o princípio da criação das “marcas nacionais” tenha sido condenado e repudiado pelo legislador.

Talvez o seu silencio se deva atribuir a nenhuma experiencia se ter feito com as marcas nacionais durante 4 anos, desde o Dec. 21.622 de 27 de Agosto de 1932 até ao Dec. n.º 26.777 de 10 de Julho de 1936.

Em boa consciencia considero lamentavel que assim tenha acontecido, pois penso que na criação duma “marca nacional” se encontraria o meio proprio para o levantamento da sardinha portuguesa em conserva, tanto sob o ponto de vista industrial como comercial.

Mas se o Dec. n.º 26.777 não se refere expressamente às “marcas nacionais”, nem por isso corta a possibilidade ao I.P.C.P. de as criar e pôr em execução se assim o entender conveniente, poisque no seu art.º 3.º, ao determinar os fins do I.P.C.P., estabelece que a este compete:

  1. e) estudar o melhoramento e defesa das condições da produção e comercio das conservas de peixe, propondo ao Governo as medidas legais que julgar convenientes;
  2. f) promover e organizar a expansão do comercio das conservas portuguesas de peixe nos mercados externos e fazer a respectiva propaganda;
  3. g) defender o bom nome e justo valor das conservas de peixe nos mercados consumidores, reprimindo quaisquer fraudes ou transgressões.

Ora este triplice objectivo, salvo o devido respeito e melhor opinião, consegue-se com uma “marca nacional” que, fabricada sob rigorosos preceitos duma boa qualidade e oferecida a preço que não a torne de impossivel venda, representará a forma pratica e de maior eficiencia para melhorar as condições da produção e comercio, para promover lá fóra a expansão das sardinhas portuguesas e defender o seu bom nome e justo valor.

Na realidade o aparecimento nos mercados consumidores duma marca nacional de grande produção, servirá de padrão do valor da sardinha portuguesa em conserva e desempenhará, como elemento de ordem, a função reguladora nas vendas, o que se conseguirá pela regularidade da sua boa qualidade e pela uniformidade do seu preço de venda.

A “marca nacional” deve, pois, ser criada e a sua fabricação deve rigorosamente obedecer aos seguintes princípios para que corresponda aos fins em vista:—

1.º) Emprego exclusivamente de boa sardinha gorda de verão.

2.º) Emprego exclusivamente dum bom e puro azeite de oliveira de acidez mínima.

3.º) Ilustração sobre fundo encarnado com um tampo de grande simplicidade e a tira contendo todos os dizeres de conformidade com as exigencias legais dos mercados consumidores.

4.º) Obrigatoriedade da sua fabricação em 5% da produção nacional repartida proporcionalmente á capacidade de fabrico atribuída a cada industrial.

5.º) O seu preço de venda Sh. 19/-, FOB, sujeito, no entanto, a descontos gradualmente estabelecidos conforme a quantidade de cada compra.

Examinemos êstes pontos.

1.º) Emprego exclusivamente de boa sardinha gorda de verão.

A marca nacional destina-se, essencialmente, a valorisar a sardinha portuguesa em conserva, por forma a ser-lhe atribuido, no futuro, o seu justo valor.

Ora isto só pode conseguir-se com o emprego de boa sardinha gorda, que se apresente na plenitude de todas as suas caracteristicas que a tornam um peixe de paladar e poder nutritivo inconfundiveis.

2.º) Emprego exclusivamente dum bom azeite puro e de acidez mínima.

É certo que não havendo azeite nacional em quantidade, a exigencia do emprego de azeite puro de acidez mínima pode afigurar-se gravosa para a economia do país, tanto mais quando se reclama que a sua importação seja feita sem o encargo de direitos.

Por êste lado parece que deveria aconselhar-se o emprego dum bom óleo de amendoim, que, sendo de fabricação nacional, viria animar aquela nossa indústria.

A verdade, porém, é que um bom azeite puro valorisa não só a qualidade da mercadoria, como ainda permite a sua entrada, sem dificuldade, em qualquer mercado mundial. Acresce ainda o facto verificado de correntemente numa grande parte da industria ligar-se à fabricação em óleo a ideia de se tratar duma qualidade corrente em cujo fabrico não é necessário observar-se um esmero rigoroso.

Por tudo isto se preconisa que a marca nacional empregue o azeite puro de oliveira de acidez mínima.

O que nunca deve consentir-se é o emprego de mistura de azeite e óleo pela dificuldade de se evitar a fraude na respectiva dosagem.

3.º) Ilustração sobre fundo encarnado com um tampo de grande simplicidade e a tira contendo todos os dizeres de conformidade com as exigencias legais dos mercados consumidores

Preconisa-se a ilustração sobre fundo encarnado por ser esta a cor de melhor aceitação mundial e aconselha-se a maior simplicidade na ilustração do tampo, pois deve procurar-se uma marca que se distinga e facilmente se fixe na memoria do consumidor.

Apenas a palavra “Portugal” encimada pelo escudo nacional poderia servir de motivo para um bonito tampo com a vantagem preciosa de facilmente ser fixado qualquer que seja a nacionalidade do consumidor e por mais diferente lingua que êle fale.

A tira deve conter todos os dizeres necessários para que a marca nacional não sofra dificuldade alguma na sua expansão.

4.º) Obrigatoriedade da sua fabricação em 5% da capacidade de fabrico atribuida a cada industrial

A fabricação da marca nacional deve, inicialmente, abranger 5% da capacidade de produção atribuida à industria e deverá ser imposta obrigatoriamente a todos os industriais de harmonia com a parte que a cada um pertença na referida capacidade.

Sendo, praticamente calculada em 5 milhões de caixas a capacidade actual da produção resulta que a fabricação da marca nacional será de 250 mil caixas por ano, o que já representa uma quantidade que influirá no comercio mundial e suficiente para fazer sentir os seus benéficos efeitos, desde que se observem as mais rigorosas medidas para a conservação da sua boa qualidade. E nisto o I.P.C.P. terá que ser inexoravel.

5.º) O seu preço de venda Sh.19/-, FOB, sujeito, no entanto, a descontos gradualmente estabelecidos conforme a quantidade de cada compra

O preço de venda da marca nacional (e a sua venda deve ser feita pelo I.P.C.P.) deve ser inicialmente fixado em Sh.19/-, posto a bordo (FOB).

Não sendo impossivel conseguir-se vendas a este preço para uma boa qualidade em puro azeite de oliveira como se preconisa para a marca nacional, sendo até de esperar que êle sirva, no fim de algum trabalho, bem executado desde que se reporte sempre a uma boa qualidade, êle permitirá pagar-se ao industrial um preço interessante.

Assim, e partindo-se do principio que se adoptam as medidas que reduzam o custo da produção ao limite que indiquei, e que o I.P.C.P. nenhum lucro tirará com a venda da marca nacional, pois a ideia lucrativa não existe porque com a marca nacional apenas se procura melhorar as condições de vida da industria conserveira e desenvolver o comercio dos seus produtos, e ainda porque o I.P.C.P. não é uma organização capitalista cuja actuação se desenvolva com um sentido de lucro, – a venda a Sh.19/- permitirá pagar ao industrial, por cada caixa ¼ de lb 30, Esc.90$00, como a seguir se demonstra:—

Preço de venda, posto a bordo…………… Sh.19/-

Despezas

pª pôr a bordo ………. Sh.1/4 ½
3 ½% comissão agente .. Sh.0/8  Sh. 2/½

Sh.16/11½

que ao cambio de 55$50 o shilling, dá Esc. 93$26.

Mas como o preço de Sh. 19/-, FOB, deve ser sujeito a descontos graduais conforme a quantidade de cada compra, os quais devem constar duma tabela por todos os compradores conhecida para lhes despertar o estimulo pelas grandes compras, e como no momento do recebimento da conserva fornecida pelo industrial o I.P.C.P. não sabe o desconto que terá de fazer, por não ter ainda vendido a mercadoria, segue-se que apenas paga ao industrial Esc. 90$00, ficando a fracção Esc. 3$26 para fazer face aos possiveis descontos, de modo que esta verba será levada a final a credito dum Fundo Especial, que, no fim do ano, será distribuido pelos industriais de harmonia com as quantidades pelos mesmos fornecidas.

Auxiliada de inicio a venda da marca nacional por medidas de protecção até ao ponto, se necessario fôr, de se instituirem premios de exportação, estou convencido que viria a atingir uma expansão que traria os melhores frutos à industria das nossas sardinhas.

Poderá acontecer que os grandes importadores recebam mal a marca nacional por inimiga dos seus interesses, melhor servidos com a desorganização das vendas, e por isso oponham resistencia ao trabalho dos agentes. Mas isto são questões de pormenor que não devem servir de desanimo para o lançamento de tão boa e salutar medida como é a de criação da marca nacional.

O I.P.C.P. possui força bastante para fazer vingar a marca nacional, pois onde necessário fosse, poderia criar delegações proprias para fazer a sua venda e propaganda, que levariam a sua acção até ao ponto de fazer a sua distribuição pelo interior do país comprador.

Com o aparecimento da marca nacional nos mercados consumidores deixar-se-hia livre a venda de todas as outras marcas, com o limite, porém, dos seus preços não ofenderem o custo da produção.

Aqui fica a ideia, aliás posta singelamente, sem outro sentimento que não seja o de contribuir para o ressurgimento e fortalecimento da nossa industria das conservas de peixe, e sejam quais forem as críticas que a minha tese origine, nenhuma pode prejudicar o desejo que ela encerra de procurar bem servir o I.P.C.P.

OS MERCADOS DA FRANÇA E BÉLGICA

FRANÇA

A França foi sempre uma animadora do nosso comercio de exportação pelas compras que nos faz das sardinhas em conserva, vinhos do Pôrto e da Madeira, e, finalmente, cortiça.

Por consequencia um estudo deste mercado justifica-se, e, no momento presente, pode considerar-se indispensável, em virtude das suas compras compensadoras, posto estar proximo concluir-se o pacto do contingentamento, o conhecido modus vivendi, e de desejar que a nossa actuação e esforços convirjam no sentido de remediar o mal por forma a trazermos novamente êste cliente à cifra de compras com que nos distinguiu.

O problema é particularmente interessante e apresenta aspectos delicados para os quais se requer um fino e reflectido observador.

Na realidade convem, logo de entrada, ter bem presente que a França é produtora dos artigos que lhe vendemos. Assim ela fabrica sardinhas em conserva, olivas, amendoas em todos os preparados, representa ainda hoje o maior região vinicola do mundo, tanto nas qualidades comuns, como nas licorosas, algumas delas de renome universal, e possui na Argelia vastissimos montados de sobreiros em pleno desenvolvimento, e que, a breve trecho, podem transformar-se em poderosos alimentadores das suas necessidades de cortiça.

Tudo isto dizer que a França pode vir a perder o interesse por aqueles nossos produtos, e isto pode acontecer na primeira oportunidade.

Pelo recente modus vivendi sempre deve este facto pôr-nos de sobreaviso, não se pode acontecer que, infelizmente, êle signifique o inicio da perda do tão estimado comprador.

É certo que a pesca da sua sardinha continental é dificilmente capaz e que da fabricação não ultrapassar determinado limite o que reclama uma apertada legislação sobre a protecção dos viveiros, justo recurso como licencioso, para evitar que a sua qualidade seja aviltada e o seu valor reduzido em consequencia duma pequena produção.

Mas tudo isto pode modificar-se e aquilo que hoje é limite do poder amanhã deixar de o ser para dar lugar a uma maior produção que venha diminuir ou acabar com a necessidade de se recorrer à importação, que, seja onde fôr, sempre representa uma saída de ouro, e, por consequente, um desfalque na reserva desse precioso metal, padrão aferidor das prosperidades financeiras dos estados.

Ora a França, desde ha tempo para cá, tem visto a sua moeda cair de valor, a ponto de ter hoje o franco com cerca de dois terços do poder de compra, pelo facto das crises não darem quasi repouso àqueles bolos já sem limite na semana de trabalho das 40 horas, e a célebre guerra dos “dois francos”, e, porque não, através igualmente da produção, e, quiçá, em desaparecimento na tesoura pública por um maior recurso à importação. Por isso voltou-se a impressionante atitude do actual ministro das Finanças francês, Mr. Paul Reynaud, quando foi forçado a falar à nação a tocante linguagem da verdade e da franqueza ao anunciar à Assembleia nacional da França as medidas que para poder levantar-se do marasmo e enfraquecimento a que está arrastada por regalias conquistadas e cedências do ócio o povo francês e está patrocinando.

Certo é que a única reacção susceptível de levantar um país enfraquecido na sua economia e nas suas finanças, consiste em pôr em ordem todos os sectores da produção, de modo que esta se exerça metodicamente e em ritmo acelerado.

O francês é tradicionalmente económico e dotado dum potencial de energias que dão à França a confiança necessária para sair das crises mais agudas com um entusiasmo e celeridade que a todos surpreende.

Efectivamente a história da França conta-nos mil derrotas, porém, é quando o mundo quasi já o dá por vencido e pensamos se acaba pelo seu futuro, é rendido pela mais forte impressão que lhe causa o florescimento em menos de nove meses, os movimentos do seu íntimo e profunda união que o ressurgimento das suas forças produtoras se apresenta num redobrado vigor por nenhum outro país jamais ultrapassado.

É na esplendida reserva das energias moral e material da sua massa populacional que a França encontra forças para estes movimentos que a têm imposto, através de séculos, como nação única e imortal.

Tendo a França o seu poder de compra, e não tendo especialmente subido proporcionalmente, o desnível produzido no custo da vida força os nacionais a restringirem as suas compras e a procurá-las com os artigos indispensáveis, e, dentro destes, com os de mais baixo preço.

Temos nisto o primeiro motivo para a diminuição do consumo das nossas conservas. Nas circunstâncias actuais a sardinha em conserva é um alimento caro e nas condições em que, duma maneira geral, se encontra o consumidor francês, procura o substituir por um outro mais barato.

Motivo transitório? Assim o deverá querer as nossas necessidades e oxalá que assim venha a acontecer.

No entanto não deixemos de ter presente no nosso espírito o perigo que para nós seria pela França, sua I.C.F. e seu considerável [ilegível] de pessoas interessadas, promovessem medidas que desenvolvessem as suas fabricações nacionais, tanto do continente, como de Marrocos e Argélia, e as auxiliasse com regalias que animassem o seu consumo.

Porém, além da baixa do franco, outro motivo existe que perturba o nosso movimento de vendas de sardinhas em conserva: — a concorrência.

Efectivamente em França, como, aliás, em toda a parte, a concorrência incomoda-nos, mas aqui, como talvez em nenhum outro mercado europeu, vimos encontrar um perigosíssimo concorrente que precisamos seguir atentamente para não virmos a perder definitivamente os seus benefícios e estima que até agora nos pertencem.

Refiro-me a Marrocos francês.

É certo que por enquanto a entrada em França das suas conservas é limitada ao contingente que lhe é atribuído. (53.000 quintais + 4.500 de suplementos) mas niguém pode afirmar que tal regimen não venha a modificar-se no sentido dum maior alargamento para a conserva marroqina, pois os factos são concordes em mostrar-nos que os estados, no momento actual, são obrigados a preferir proteger o consumo dos seus produtos para uma mais perfeita defeza dos seus interesses económicos e financeiros.

Constitui isto uma séria ameaça para a nossa indústria conserveira, tanto mais para temer, quanto é certo que, duma maneira geral, há equivalência na qualidade da conserva portuguesa e marroquina, já pelo emprego do mesmo peixe, — sardinha —, já pela utilização dos mesmos processos técnicos na produção.

Acresce ainda a circunstância da hábil forma como Marrocos regulamenta a sua indústria de conservas, protegendo-a com medidas de todo o ponto interessantes que a colocam ao abrigo de insucessos, que, porventura, a competição estrangeira procura provocar-lhe.

Porque assim é, julgo do meu dever fazer uma referência, embora muito sucinta, à forma como trabalha a indústria das conservas no Marrocos francês.

Começaremos desde já que só pesca de boa qualidade, nos meses de Setembro, Outubro e Novembro e por isso toda a pesca é ali aproveitada. Em Janeiro não se pesca, começando em março.

A pesca da base das conservas [ilegível] dos seus industriais. Uma fiscalização, o “Service Maritime du Contrôle et d’Exportation”, regista o numero de barcos, que, durante a safra, pescarão para cada industrial e este fica obrigado a avisar com antecedência o pescador, quando não deseja peixe. O industrial tem o direito de recusar o peixe quando a sua qualidade não fôr satisfactoria, e, neste caso, o pescador deita-lo-ha ao mar ou destina-lo-ha para guano. Os preços de venda do peixe são fixados antes do início da safra e variam segundo o peixe se destina a fabricação para França ou para outros países. Na ultima safra vigoraram os seguintes preços incluindo a ova de bacalhau para a pesca da sardinha:—

para França ………. Frs. 1.160 cada tonelada
para outros países …. Frs. 880 cada tonelada

Qualquer fábrica que queira fazer o próprio transporte do peixe das localidades abastecedoras para aquelas onde exerce a sua actividade recebe o peixe em perfeitas condições de tempo e acondicionamento, e assim a distribuição consegue-se um máximo regularidade na produção, pois se evitam os inconvenientes do mau serviço que dão resultado na falta de superlaboração pela excessiva acumulação de peixe.

A mão de obra é constituída por pessoal indígena e estrangeiro, sobretudo português, e os salários, por hora de trabalho, variam de 75 centimos a 1 franco para as mulheres indígenas e de 1,25 a 1,50 para os homens indígenas. Os estrangeiros ganham o dobro. As matérias primas importadas pela indústria conserveira (óleo, chaves, madeira, pregos, estanho, folha etc.) pagam de direitos 12,5%, que por completo são reembolsados com a exportação.

O preço da produção no formato ¼ club 30m., em óleo, lata ilustrada, 1.ª qualidade é o seguinte:—

 

Para França

Para outros países

Vazio, 2 cores c/caixote….

Frs. 48

Frs. 48

Mão de obra por 1 caixa…..

Frs. 13

Frs. 15

Despesas gerais (carvão, petróleo, impostos etc.)

Frs. 15

Frs. 14

Óleo, 8 kgs. a 5,50………

Frs. 44

Frs. 44

Peixe, 23 kilos………….

Frs. 26,64

Frs. 19,24

Custo 100 caixas……..

Frs. 146,64

Frs. 140,24

Como se vê a diferença apenas existe no preço do peixe que, como já disse, paga-se mais caro nas produções para França.

Impõe-se ainda um incluso de Frs. 2 para lata de 20 bonito, o que, praticamente, representa 8%.

Os preços de venda FOB para ¼ club 30m., em óleo, são os seguintes:—

1.ª qualidade (nosso bem corrente)
Mauritânia Frs. 120
França Frs. 117

Qualidade corrente (nosso 2.º escolha)
Mauritânia Frs. 108
França Frs. 108

Para os fabricos em azeite oliveira mais 25%.

A qualidade corrente (nossa 2.ª escolha), segundo decisão da “Commission de Discipline”, não pode ser exportada para Inglaterra, Bélgica, Suécia, Checoslovaquia e U.S.A.

Além do respeito dos preços de venda pela Comissão de Marcas não se admitem. Cada um vende como entende porém tendo em atenção o preço FOB. Marrocos, Holanda, para o sardinha, o formato ¼ club 30m. / [ilegível] o custo entre Frs. 165 a 170 no óleo e Frs. 145 a 147 no azeite. Custando a produção, respectivamente, Frs. 125 e 140 existe uma apreciável margem para lucro.

Finalmente as conservas marroquinas apenas pagam em França Frs. 14,173 de direitos por cada caixa ¼ club 30m. ao passo que o mesmo formato de origem portuguesa paga Frs. 60,710, como se vê pelo seguinte mapa:

Conservas portuguesas:—

Direitos — Frs. 120 por 100
Kilos p.b. …………………… Frs. 45,20
1% sobre estes direitos ……….. Frs. 0,452
Desembarque ………………….. Frs. 0,99
Taxa sanitária ……………….. Frs. 1,33
Por 1.000 quilos ……………… Frs. 0,023 Frs. 2,393
Por volume …………………… Frs. 0,33

Taxa de importação 0,5%
sobre o preço da mercadoria
CIF de Fr. 3.000, aumentado
dos referidos direitos ………… Frs. 14,80

Frs. 60,710

Para as conservas de Marrocos:

Taxa de importação 0,5%
sobre o preço da mercadoria
CIF, etc. …………………… Frs. 11,40

Desembarque, taxa sanitária
1.000 k.p.b. — por volume — …… Frs. 2,773

Frs. 14,173

.

Dêste diferencial, em caso de necessidade, encontrará Marrocos larga margem para bater à vontade a nossa conserva.

A seguir a Marrocos temos que considerar Argelia que com as suas conservas começa a defrontar-se com um concorrente sério, tanto mais para recear, quanto mais melhora a sua qualidade.

Repete-se o fenómeno que se verificou com Marrocos, pois, relativamente há pouco tempo ainda, ninguém na nossa indústria se mostrava apreensivo com a intervenção marroquina, e hoje passa-se o que se sabe. O mesmo acontece presentemente com a Argelia que poucos querem ver como um concorrente que virá infiltrar-se ao lado dos que mais dificilmente poderemos combater.

É certo que a sua conserva é de qualidade inferior à marroquina, mas não deve passar despercebido que ela vai melhorando sensivelmente, tal como se passou com a sardinha de Marrocos, no princípio de qualidade muito inferior e hoje já corrente e boa.

A venda para França da conserva argelina não é limitada nem em preço, nem em quantidade, não há preços fixos e a sua entrada em França é livre, sem estar sujeita a contingente.

O seu preço de venda é inferior ao de Marrocos, por isso o seu consumo é grande sobretudo nas repartições e instituições oficiais do estado francês, como, por exemplo, hospitais e quartéis, e dentro em pouco é de esperar que mais entrem no consumo do mercado pela melhoria da sua qualidade.

Reporta-se ao movimento crescente da sua exportação para França revelado nos seguintes números referentes aos primeiros 8 meses de cada um dos anos indicados:—

1935 …………… 4.059 quintais
1936 …………… 13.571 quintais
1937 …………… 28.708 quintais

No curto período de dois anos, de 1935 a 1937, viu triplicar a sua exportação para França enquanto a nossa. Por isso se justifica o forte movimento de protesto que a Argelia levantou em França quando o governo deste país projectava conceder um suplemento de contingente atribuído a Marrocos, movimento este que foi apoiado pelos fabricantes franceses.

Também este fornecedor virá, certamente, num futuro próximo a constituir um terrível obstáculo ao consumo em França das nossas sardinhas em conserva.

Consideremos agora a concorrência que nos faz a França com as conservas fabricadas no seu território continental.

As conservas francesas, excepto feitas de Saint Jean de Luz, são reputadas, com justiça, de qualidade excelente, e, até à baixa do franco, só por esse lado competiam com as nossas por os seus preços serem superiores aos portugueses.

Com a queda do franco, e desde que se respeitem os preços mínimos estabelecidos pelo I.P.C.P., a sua concorrência também se verifica em relação aos preços, pelo que se apresenta inferior aos nossos.

A produção francesa, segundo informes que colhi, alcançou a safra, aproximadamente em 1937. No ano findo, 1938, pode-se calcular que ela atingiu um mínimo de 600.000 caixas de tipo de 1/2 club 27m.

São suas qualidades superiores, e por volta a parte e os seus preços de venda são aproximadamente um franco, excepto as de Saint Jean de Luz cujos preços são mais baixos e mais variáveis.

O preço de venda para o público regula, para o formato ¼ club 27m., em óleo, entre Frs. 2,75 e Frs. 3,25. O mesmo formato em azeite vende-se entre Frs. 3,50 e Frs. 3,75.

As fabricações de Saint Jean de Luz vendem-se com uma diferença para menos de 10 a 15 por cento.

Os preços para os grossistas eram, em 15 de Novembro de 1938, sobre vagão, Frs. 210 em óleo e Frs. 230 em azeite em relação ao ¼ club 27, único formato a que me refiro por ser o que serve de base ao preço de todos os outros.

Por fim há que considerar Espanha. É certo que hoje não nos inquieta pois a guerra de que é alvo paralizou por completo a sua exportação para França.

Atendendo, porém, ao crescimento que as suas vendas apresentaram no mercado francês, e aos primeiros 8 meses de 1938, Espanha exportou para a França 10.882 quintais e em igual período do tempo do ano seguinte 36.720 quintais, portanto 60% mais, é lícito preocuparmo-nos com o que nos acontecerá, quando, terminada a Guerra, Espanha voltar ao mercado francês com as suas sardinhas. Esta preocupação é tão legítima quanto é por nós sabido que, nas circunstâncias actuais, as conservas portuguesas não podem competir com o preço das espanholas. Contribui para isto a protecção de que goza a indústria espanhola que se faz sentir desde o pequeno imposto cobrado sobre o pescado até à isenção de direitos das matérias primas importadas, graças a um perfeito regime de drawback.

Para melhor compreensão atente-se às seguintes diferenças de tratamento:—

Em Portugal pesca-se, principalmente, com cercos americanos que empregam 45 cabos de rede e 80 homens de tripulação. Espanha adopta as traineiras com 25 cabos de rede e cerca de 30 homens. Em Portugal paga-se cerca de 12% da pesca bruta entre impostos ao Estado e à Câmara Municipal. Espanha apenas paga 1% de imposto de pescado.

Em Portugal as matérias primas para a indústria das conservas, — folha de Flandres, estanho, chumbo, etc., etc., — pagam pesados direitos de importação. É certo que existe o regime de drawback para a folha de Flandres, mas o seu funcionamento é tão precário que deve considerar-se meramente teórico por constantemente complicado e deficiente.

Espanha alcança completa e fácil isenção de drawback para todas as matérias primas destinadas à sua indústria conserveira de peixe. Portugal importa, na sua maior parte, o azeite para a indústria das conservas, pelo qual paga 1$20 de direitos por cada quilo.

Espanha emprega o seu azeite, e, por isso, tem-no livre de qualquer imposto.

Em Portugal paga-se para a exportação da conserva 6$50, em média, por cada caixa ¼ club 30. Em Espanha a exportação é livre e os encargos de despacho mínimos.

Por fim Espanha procura conseguir junto dos países compradores o tratamento mais favorável para as suas conservas e neste sentido celebra tratados comerciais com todos aqueles países, principalmente no continente sul americano. Portugal, também neste capítulo, se encontra num plano de manifesta inferioridade.

O QUE OBSERVEI NO MERCADO FRANCÊS POR OCASIÃO DAS QUE FIZ COM IMPORTADORES, TRANSITÁRIOS E AGENTES

Iniciei as minhas visitas por Saint Jean de Luz e procurei poder assistir às suas fabricações de sardinhas.

Com esta ideia dirigi-me à fábrica “Entreprises Maritimes de la Côte Basque” que se encontrava em laboração.

Cedo, porém, fui desiludido, pois, conquanto me apresentasse como simples turista, foi-me negada a visita por ser absolutamente impossível consentir-se durante a laboração. Ordens rigorosas existem neste sentido, e, por isso, tive que me contentar com a apreciação da qualidade das sardinhas em conserva de Saint Jean de Luz, já que me foi defeso presenciar a sua fabricação.

Estas sardinhas em conserva constituem, sem dúvida, a mais baixa classe de qualidade francesa, não porque o peixe seja mau, pois, embora pequeno, é fresco e conduzido às fábricas em perfeitas condições de lhe evitar dano.

A pesca é efectuada na zona compreendida entre Saint Jean de Luz e Arcachon.

A quasi totalidade dos fabricos é feita com óleo de amendoim, apenas uma pequena fracção emprega o azeite de oliveira.

Os preços são os mais baixos das fabricações francesas em correspondência com a sua mais fraca qualidade. Diferença de uma diferença para menos de 10 a 15 por cento das fabricações Bretanhas.

No entanto todo este peixe não encontra consumo português.

Apenas vi em Biarritz por acaso as conservas nossas, além de escassas nos hotéis médios, e que, certamente, para aqui vêm por não ser possível obter naquele mercado. Como em Itália uma % de direitos actualmente continua excesso de saída do cambio, e, por consequência, absoluta impossibilidade de negócios para os Estados Unidos.

Em Biarritz e Baiona encontrei à venda algumas conservas portuguesas. No entanto o predomínio pertence às marcas francesas, sobretudo em Biarritz onde o seu consumo é grande. Destas as que mais se vendem são de Phillis & Cannaud e Amieux Frères a preços que regulam pelos da nossa conserva, pois a dos fabricantes franceses de menor reputação é vendida a preços inferiores aos nossos.

¼ club 27, e ¼ club 28, e 30m., em azeite, vendidos ao público entre Frs. 3,25 e 4,25 cada uma lata. Em óleo de amendoim, iguais formatos, vendem-se entre Frs. 2,90 e 3,25.

BORDEUS — Bordéus é o nosso principal comprador pois em 1937 para ali dirigimos 48.700 quintais dos 101 mil que o continente nos reservou.

Pois como, naquele ano, a França apenas nos comprou 85 mil quintais, conclue-se que Bordéus adquiriu mais de metade das nossas vendas para França. O restante foi para Nantes pois por intermédio de Rouen, Marselha e Havre.

Conhecedor do mercado de Bordéus orientei a minha acção por forma a evitar curiosidades e junto de Amigos fiz a minha aprendizagem e estudo de maneira a fornecer indicações e elementos necessários.

Todos os que em Bordéus trabalham no ramo de conservas, — Importadores, Agentes e Transitários, — conhecem as condições e regulamentos em que vive, actualmente, a nossa indústria.

Salvo o transitário cujas funções são limitadas ao armazenamento e distribuição da conserva, o importador e o agente o que procuram é tirar o máximo proveito da transacção. O primeiro comprando ao mais baixo preço possível, e o segundo até certo ponto servindo o objectivo do primeiro, pois o que lhe interessa é vender para ganhar a comissão, e, em vez de contrariar o importador, acabará por mais vender e permanecerá seu agente.

Em princípio qualquer pessoa jamais poderá encontrar-se com o importador. Ao agente compete convencê-lo, facilitar-lhe as vendas e procurar a sua colocação com que este se adiante a todos os compradores para utilizar a ocasião, num trato avaliado de necessidade de realizar dinheiro.

As diferenças é dizer de relatos e segredos cujo conteúdo poucas dias antes da minha chegada a Bordéus.

Um Agente de diversas empresas portuguesas, pertencente ao pequeno número dos que ainda se interessam pela nossa indústria e que, por isso, emprega o melhor dos seus esforços para segurar o preço das nossas conservas, entrou em negociações com uma casa importadora para o fornecimento de 3.000 caixas ¼ club 30m., sardinhas em óleo, marca de “remplissage”. Propôs-se fazer o fornecimento a sh. 17/- CIF Bordeaux.

O cliente oferece sh. 16/6.

Não chegando o câmbio empresa novo encontro para o dia seguinte. Em conversa disse o agente voltar à presença do importador e recebe deste a indicação de haver recebido o negócio uma outra proposta portuguesa ao preço de sh. 16/10 pela caixa CIF.

Entretanto [ilegível] sh. 16/6!!! Pouco depois se exporta [ilegível] Associação [ilegível] de 1931 em que no mês de Abril se vendia ¼ club 30m. a sh. 20/6 para os Estados do azeite repousado na base de sh. 15/6.

Ainda não se desceu a este preço, mas já hoje se praticam, como cursos normais e regulares, vendas a sh. 14/6 para ¼ club 30m., ilustrado, sardinhas em óleo, e sh. 15/6 para “remplissage”.

Em azeite faz-se, respectivamente, sh. 16/6 e 17/6 e sh. 17/6 a 18/6.

Marcas de “remplissage” começam a ser usadas e fornecidas pelos fabricantes franceses da Bretanha (Vendée e Douarnenez).

No mundo dos negócios a sentimentalidade não conta, nem outra coisa é de esperar num movimento que apenas é alimentado pelo interesse. Portanto não pode causar estranheza, nem tão pouco deve servir para censura, que o comprador, seja francês, alemão, ou de qualquer outra nacionalidade, não atenda, nem se comova, com o sacrifício e desorientação que realizam as vendas das nossas sardinhas em conserva a tão baixos preços. Isto é-lhe totalmente indiferente e não se deterá em baixar mais ainda se tal lhe fôr possível.

Porque o equilíbrio perfeito e único é conseguir-se tanto mais barato melhor.

Por outro lado os preços praticados pelas nossas competidoras estrangeiras, obrigam-nos, necessariamente, a cada vez não ficarmos inactivos.

É uma luta que, nas circunstâncias actuais, representa a ruína da nossa indústria, mas é uma luta inevitável sob pena de perdermos por completo a procura da nossa conserva.

Por conseguinte, neste pé a questão, não temos outro remédio que dedicarmos toda a atenção para o embaratecimento do custo da produção, auxiliando esta com todas as medidas que a possam beneficiar.

Isto constitui assunto que já foi devidamente desenvolvido, mas que, pela sua importância, nunca é demais tê-lo presente, e, por isso, a insistência nunca será excessiva.

A vitória das marcas de grande produção é conseguida pelo preço e esse jamais será vencido pela qualidade, não se duvide que hoje preside no espírito dos consumidores de peixe.

O nosso fabrico é bom, nenhuma dúvida há nisso. Se não é melhor, hoje, que o dos nossos competidores, nem por enquanto, poderá ser beneficiado o volume de transacções que assegure aos produtores, temos que colocar a nossa indústria em condições de poder acompanhá-los no preço, noutra maneira a ilusão de podermos viver virá surpreender-nos com a ruína geral.

Isto é tão fatal como os desígnios da providência.

Já no lugar próprio indiquei os preços CIF da conserva marroquina que são para ¼ club 27m. Frs. 158 e 180, respectivamente, em óleo e azeite, e para ¼ club 30m. Frs. 165 e 180, respectivamente também em óleo e azeite.

Considerando de maior leve estes preços podem dar a impressão de nos ser possível vender melhor do que estamos fazendo. Mas não é assim, como vai ver-se:—

Marrocos: Frs. 168 CIF, mais Frs. 14,17 para direitos, etc. …………… Frs. 182,17

Portugal: sh.14/6 CIF, igual a Frs. 150,50, mais Frs.21 para direitos …………………… Frs. 171,50

Existe, pois, uma diferença a favor de Marrocos de Frs. 9,53 por cada caixa, e isto vendendo-se o nosso ¼ club 30m. a sh.14/6, quantidade que é abaixo do preço mínimo estabelecido (sh.15/6).

Tenha-se também presente que actualmente as conservas francesas (fabricação continental) são vendidas ao grossista com uma diferença para menos de 10% dos nossos preços mínimos.

Portanto a conclusão é sempre a mesma: os actuais preços mínimos estabelecidos são uma inutilidade, pois ou conduzirão à inactividade quem persistir respeitá-los, ou constrangirão à sua violação quem quiser vender, num caso ou noutro, muito mal coloca o nome do I.P.C.P. expondo-o a críticas e censuras desprestigiadoras do seu prestígio.

No capítulo do regime de preços há em Bordéus opiniões para as duas correntes — uns perfilham a liberdade de preços como melhor caminho para mantermos as nossas vendas. O mercado regulará o preço que será feito em função da concorrência.

Outros preferem o actual regime de preços mínimos, porque embora da sua violação ainda se consigam melhores vantagens do que com a liberdade.

Outro facto se passa e que, pelo perigo que oferece, é digno de toda a atenção. Em Bordéus há Agentes de casas portuguesas, nas suas quase relações, trabalham também as conservas dos nossos competidores.

Ora o que mais lhes interessa é vender, pois o seu lucro aumenta em razão directa das transacções que efectuam, não a preferência ao produto que mais realizam se apresente, pouco se demorando no trabalho de outro mais difícil.

Por esta regra, aliás natural e bem compreensível, são ponto de parte a conserva portuguesa para venderem a dos nossos competidores.

Desta maneira a nossa conserva vai esquecendo e a da competição vai entrando nas casas daqueles que figuraram sempre como fiéis clientes das nossas sardinhas.

Isto é um mal que nos pode trazer as mais funestas consequências.

Vi em Bordéus, à venda em diversos estabelecimentos, sardinha francesa e bonita a 60 centimos cada uma.

PARIS

Mercado muito difícil, onde a concorrência mundial se debate numa luta incessante pela melhor colocação para os seus produtos.

O Importador de conservas compra sem entusiasmo, dando a impressão que o faz custosamente, apenas para não deixar de satisfazer os pedidos dos seus clientes.

Razão desta desinteresse, segundo ele afirma, está em que na época actual não ganha com as conservas. A pressão constante exercida hoje junto dele pelas fabricações da Bretanha, torna-no reservado quanto a compra de conserva portuguesa, tanto mais que aquelas são mais baratas que as nossas.

Em Paris falei também com Importadores, Agentes e Fabricantes e do que me foi dado ouvir concluí a mesma coisa de sempre:— França é um país produtor de conservas, e, além disso, um mercado fortemente procurado por todos os produtores estrangeiros. Nesta conformidade a luta de preços é grande, pois todos querem conquistar posições para os seus produtos.

Mais importante competição ainda pelas vendas actual é que estejam suficientemente apetrechados de modo a fornecerem qualidade aceitável a preço correspondente ao curso do mercado. Isto só se consegue à custa de preparação e, sobretudo, mediante uma cuidadosa organização da indústria, por forma a reduzi-la de medidas que a beneficiem quanto à qualidade e ao custo da produção.

Em Paris os agentes confessam francamente o processo que seguem: vai aquele que procure trabalhar com os preços mínimos do I.P.C.P. Apresentam ainda o circular de que hoje têm para vender sardinhas em conserva, que, devido aos seus preços, não constituindo um alimento de luxo e não de necessidade como outrora. É o resultado da queda do franco. Efectivamente uma lata ¼ club 30m. por 3 francos excede as possibilidades das bolsas do maior número dos franceses.

Já se disse que o povo francês é económico, e que, por isso, facilmente substitui qualquer artigo por outro desde que seja mais barato. Com 3 francos pode êle comprar 2 ovos e cozinhá-los com qualquer coisa de modo a ter uma refeição que a lata de sardinhas não preenche.

Ouvi de Agentes e Importadores a opinião de que a França devia resolver-se a tratamento especial à sardinha da qual fizéssemos uma posição sólida para a colocação das nossas sardinhas. Consideram este ponto de vista importantíssimo, pois reconhecem que sendo a França um país produtor de conservas com a sua produção em pleno desenvolvimento, sobretudo preocupada a qualidade, podia, na primeira oportunidade, ser dificultadas à entrada das conservas estrangeiras para assegurar o consumo das suas produções.

Considerando duas cartas de exportadores, de que se queixam em Portugal, procurei em Vincennes o Sr. Maurício Leodoin, importante industrial com fábricas na Bretanha.

De início reservado foi-se abrindo ao desenrolar da conversa e procurando sobre a França.

Conhece a estrutura e funcionamento do I.P.C.P., instituição oficializada pelo Governo, e não esconde a sua surpresa pelo consentimento que é dado no actual regime de diversidade de preços. Reconhece também a dificuldade com que hoje luta o consumo das sardinhas em conserva por virtude do seu preço de venda as tornar facilmente substituíveis por outros géneros alimentícios.

Salientou a importância papel desempenhado na concorrência pela conserva marroquina e admite que este centro produtor obterá um maior desenvolvimento do que o actual, embora que nenhuma dificuldade terá em preencher visto o custo da sua produção possibilitar uma maior amplitude nos preços de venda.

Reconhece a Argélia e a Espanha que com as suas produções podem, num futuro próximo, influir enormemente no mercado da França.

ROUEN

Aqui apenas falei com transitários por se tratar dum grande porto de mar. Quiz saber se a concorrência estrangeira fazia maiores distribuições do que Portugal. As informações colhidas levaram-me à conclusão de que o movimento de conserva portuguesa é insignificantemente em confronto do que acontece com a conserva marroquina.

Interessava-me conversar com um dos mais antigos transitários de Rouen que tem a sua sede no Havre, e de quem ouvi, uma vez mais quanto pela necessidade de examinarmos os obstáculos de venda para França.

Este transitário trabalha com as nossas conservas há mais de 20 anos e este facto dá-lhe à vontade para se pronunciar sobre o assunto. Há valorosa a impossibilidade de querermos impor a nossa conserva pela qualidade pois a competição fabrica de igual modo bem. A conquista tem que se fazer pelo preço visto os tempos presentes serem difíceis obrigando o consumidor a viver economicamente.

Todos procuram o produto mais barato e só os ricos, que sempre foram em menor número e hoje mais do que nunca, podem dar-se ao prazer de comprar artigo caro.

Considera Marrocos como o nosso mais perigoso adversário que pode prejudicar-nos cada vez mais, pois verifica pelos conhecimentos de embarque e pelas bordereaux de distribuição que é a sua conserva a que disfruta de maior movimento.

Anos atraz os vapores vindos de Portugal descarregavam no porto 2 e 3 mil caixas de conserva. Hoje assiste à chegada de vapores que nem uma caixa trazem da sardinha portuguesa.

Não pode compreender como o I.P.C.P. não baixa os seus preços de venda, e apesar da explicação que lhe forneci, mantém-se na sua e exibiu-me documentos comprovativos de que se fazem os mais diversos preços.

Já na minha viagem pela América Central e do Sul, algumas vezes se achei em situação embaraçosa, pois não figura as que vi colocado o I.P.C.P., em mera representação de qual se apresentava.

Também na Europa, por onde agora andei, com desgosto constatei que a acção do I.P.C.P. é, algumas vezes diminuída pelos factos que se apresentam.

Efectivamente aos olhos do observador estrangeiro que examina as coisas ou ocorrências e que as aprecia livre de quaisquer influências de sentimentalidade nacionalista, não pode ser compreendido que um organismo oficializado, como é o I.P.C.P., não sinta forças por forma a obrigar a que respeitem as suas decisões.

Por isso o que se passa com os preços mínimos é, além do mais, desprestigiante para o bom nome do Instituto.

Na realidade desde que o I.P.C.P. mantenha o preço mínimo e as vendas são efectuadas abaixo dele, o observador estrangeiro concluirá das duas uma:

Ou o I.P.C.P. desconhece o que se passa e a persistência em manter os preços mínimos actuais é a prova dessa ignorância;

Ou o I.P.C.P. não pode atacar de frente o problema das conservas de maneira a trazer o seu preço de venda ao nível dos da concorrência e por isso consente nas sucessivas violações às suas decisões.

O que tudo devidamente ponderado leva à conclusão da inadiavel e imperativa necessidade de encararmos o problema das conservas pelo seu verdadeiro prisma estuando definitivamente num caminho de soluções práticas e inteligentes.

Este nosso mandatário disse conhecedor da existência em lote de 1.000 caixas ¼ club 30%, sardinha de Marrocos sendo 700 caixas em óleo e 300 em azeite, respectivamente a Frs. 170 e Frs. 185 CIF Rouen.

Disse, finalmente, que uma maior venda de conserva marroquina apenas não é possível por virtude do limite fixado pelo contingente, mesmo se este fôr aumentado imediatamente será preenchido.

As nossas conservas terão que baixar os seus preços proporcionalmente aos de Marrocos doutra maneira jamais veremos desenvolver-se as vendas, e isto porque o consumidor
francês não pode pagar por uma lata de sardinhas 3 e 4 francos.

Um outro mandatário, com quem também falei, confirma a mesma coisa. A importação das conservas portuguesas sofreu diminuição devido ao seu elevado preço de venda em
comparação com o da concorrência.

Duma maneira geral o consumo de conserva caiu em consequência de se tratar presentemente dum alimento caro.

A seguir dizia:- A conserva portuguesa deverá ser vendida a sh.14/6 CIF na base de ¼ club 30%, em óleo, lata ilustrada.

Visitei os seus armazens e nêles encontrei lotes de conserva de muitos industriais nossos, que, desde ha muito, segundo me contaram, aguardam venda. De Marrocos nem uma só caixa havia.

LYON

Segundo de grande consumo ainda as conservas portuguesas encontrava facil e acolhedora recepção. Ainda hoje algumas das nossas marcas disfrutam de preferência; no entanto a situação é muito diferente.

Noutros tempos viam-se as nossas conservas em todas as lojas. Agora ainda se encontram mas na companhia de conservas de outros países, sobretudo marroquina, e esta vendendo-se muito mais que a nossa devido ao seu mais baixo preço.

O Importador lionês conserva o seu pequeno entusiasmo em trabalhar a conserva portuguesa que é hoje um produto caro impossível, portanto, de ser adquirido por gente pobre, que foi sempre o seu grande consumidor.

Por isso o Importador compra pouco e o lojista, por sua vez, limita ao mínimo os seus pedidos, pois uma caixa de conserva dura para muito tempo.

Um dos Agentes com quem aqui falei, pessoa que acredita algumas das nossas marcas em França e que trabalha com a nossa conserva ha 20 anos, deu-me francamente as
suas impressões.

Foi quem maior cifra de vendas realizou das nossas conservas. Em 1935 ainda não recordava os preços exactos, colocara 83 mil caixas de conserva nossa. Em 1937, até fins de Julho, com enorme dificuldade tinha vendido 2 mil caixas.

Afirma a necessidade de baixarmos os preços da nossa conserva proporcionalmente à de Marrocos, e porque a nossa é de melhor qualidade, julga possível vendermos com um
acréscimo de 15 a 20 Francos em relação aquela, na base ¼ club 30%.

Tem até agora posto de lado a venda da conserva marroquina pois sempre trabalhou a de origem portuguesa e tem a sua clientela habituada a ela. Se, porém, as coisas não se mo-
dificarem para melhor, ver-se-á forçado a trabalhar com a conserva de Marrocos, para não ficar inactivo, pois tem que ganhar a sua vida e não é com os actuais preços da nossa conserva que o conseguirá.

Fui na sua companhia a um dos maiores Importadores de Lyon, pessoa inteligente, conhecedora a fundo do negócio, o qual, durante a conversa havida, abordou por tal forma o problema da indústria das conservas, que tive a impressão de estar a falar com algum dos nossos mais habeis e experimentados industriais.

O seu conhecimento dos preços no nosso mercado porque regularmente são caros. Explicou-lhe a nossa norma deriva criada os preços elevados. Não ficou convencido e mais tarde trouxe o exemplo doutros países, produtores como nós, cujo preço da produção é inferior ao nosso, apesar de não possuirem uma tão abundante pesca como nós temos. Se a nossa produção fica cara em consequência dos encargos que pesam sobre a indústria, que esta seja aliviada, de contrário morrerá por falta absoluta de compradores. Entende que o nosso Governo deverá pôr o melhor da sua atenção e competencia na resolução dêste assunto para Portugal não acabar por completo com o seu mais fiel e grande mercado de exportação: a França.

Tem 12 a 15 mil caixas de conserva nossa que anualmente vende, dificilmente mas hoje uma quarta parte, e isto porque não trabalha conserva marroquina, pois quando o fizer, e será forçado a faze-lo, todos os seus clientes passarão a pedir-lhe desta.

Para evitar isto devemos, sem perda de mais tempo, baixar os nossos preços de modo a unidade da caixa de ¼ club 30%, com uma diferença para mais de 15 Francos da marroquina, pois nesta base a nossa conserva será preferida, — diz — insiste em não compreender a situação do I.P.C.P. não poder presidir à baixa dos preços, quando todos os dias chovem ofertas a preços muito inferiores aos estabelecidos.

ARGELIA

 

Ultimo mercado que visitei, e neste, como nos anteriores, verifiquei o pouco interesse pelas nossas conservas pela dificil venda de que são objecto em consequência dos seus elevados preços.

Escolhi para meu informador um português, sócio gerente duma empresa lusa tem por fim vender conservas e que representa avultado numero de casas portuguesas. Afirmou a impossibilidade de se fazer negócio interessante com as nossas conservas aos preços actuais, e compreende, por isso, a necessidade que houve de se fugir aos preços mínimos.

Entende que deve procurar-se a baixa dos nossos preços de venda para se unir ao trabalho que hoje se faz e que redunda em desprestígio do I.P.C.P.

Defende o critério do preço variar conforme a quantidade da compra; nada vê como justo que quem compra 50 caixas as receba ao mesmo preço de venda da unidade como aquele que compra 1.000 caixas.

Confessa que foi forçado a trabalhar com conserva de Marrocos de contrário não poderia sustentar a sua casa.

Até Novembro de 1938 vendeu 23 mil caixas de conserva marroquina, e, em 1937, 25 mil caixas.

Conserva portuguesa vendeu 8 mil caixas.

Em Marselha é onde melhor se faz sentir a concorrência da conserva de Argelia. O seu preço de venda é inferior ao de Marrocos 15 a 20 francos por caixa, e os seus gastos alfandegarios inferiores um franco por caixa à marroquina. Não admira, portanto, que Argelia veja desenvolver enormemente as suas vendas.

Por fim vi uma carta do sócio deste informante, dirigida dessa localidade que visitou, numa viagem de negócio que então fazia, comunicando que de Bordéus ofereciam sardinha portuguesa em óleo, no formato ¼ club 30%, lata ilustrada, a 230 Francos cada caixa, posta em casa do cliente.

Começo da desorientação das vendas da sardinha portuguesa, porventura, sem dúvida, de todas as nefastas consequencias de que já tivemos a experiencia, e contra a qual necessitamos coligir o melhor da nossa inteligencia, boa vontade e esforço para evitarmos a falencia geral de tão importante indústria.

BELGICA

A Bélgica, como quasi todos os países, defende-se contra os preços elevados da conserva portuguesa e para isso procura criar-lhe barreira mais barata que se apresente capaz de substituir a que o consumidor está habituado.

O maior perigo está em que não os Agentes de conservas Belgas, que, para ganhar a vida, vêem-se obrigados a procurar artigos fornecedores que lhes permitam vender mais barato. Quero isto dizer que são eles quem promove a substituição da nossa conserva pela da concorrencia estrangeira e isto porque os preços da nossa tornam-na invendavel.

Ficam-nos, por enquanto, as marcas acreditadas que se encontram bem introduzidas, gozando de regular consumo e que, por isso, prestam bom auxílio à nossa exportação para a Bélgica. No entanto na tremenda luta pelo preço ninguem pode prever até que ponto é nossa acredita-
da pode resistir. É certo que até agora ela não tem sido grandemente afectada, e pode-se mesmo verificar que nos 10 primeiros meses de 1938, a sua venda aumentou em Inglaterra, muito embora o volume de exportações para aquele país naquele período tenha diminuido.

É a Bélgica um grande consumidor de conserva, possivelmente dos melhores, poisque as quantidades que importa devem ser apreciadas em relação à sua pequena superfície territorial e à sua população de 8 milhões.

Além disso a Bélgica é para total de conservas de peixe e os seus aumentos são, realmente, na quasi totalidade exportados, muito porque não tem diminuido a sua importação de países concorrentes que se expressa com o seguinte movimento em quintais métricos:

Espécies

1935

1936

1937

Sardinha e atum

35.600

36.168

31.572

Pilchards

16.848

26.674

19.728

Outras conservas

40.230

34.567

55.325

Total

92.678

97.409

106.625

Na sardinha o maior numero pertence a Portugal; no atum ao Japão; em pilchards aos Estados Unidos seguido do Japão; noutras conservas ao Japão a grande distancia do seu mais directo rival, os Estados Unidos.

O Japão ocupa o primeiro lugar como fornecedor de atum devido aos seus baixos preços de venda. Por virtude desta concorrencia nada podemos fazer com o atum da nossa costa. Não seria interessante procurarmos competir com o nosso atum africano (Cabo Verde e Lourenço Marques) e tambem dos Açores e Madeira?

Em 1938 a importação para regular fornecidora da Bélgica de sardinha em azeite ou molhos, e isso em consequencia das boas cotações para nós favoráveis por virtude da desvalorização do franco.

Vejamos agora as nossas exportações para a Bélgica que atingem no ano de 1937 em 2.882.744 kilos e em 1938 em 2.417.977 kilos, portanto com uma queda de 464.817 kilos, ou seja cerca de 16%.

Para melhor comparação vejamos as exportações relativas aos primeiros 10 meses de cada um daqueles anos o que acusam o numero de 2.588.195 para 1937 e 1.646.080 para 1938, portanto uma diferença para menos de 942.115 kilos, ou seja cerca de 6%.

Conclui-se daqui que o facto das vendas deixarem de ser efectuadas aos preços mínimos estabelecidos pelo I.P.C.P. foi o bastante para em 2 meses (Novembro e Dezembro de 1938) se produzir vendas que diminuíram de 20 para 15 por cento a diferença para menos acusada em relação a 1937.

Por outras palavras: — se as vendas continuassem em Novembro e Dezembro de 1938 a serem praticadas na base dos preços mínimos fixados pelo I.P.C.P., certamente que a percentagem de 30% verificada em Outubro daquele ano se manteria, se não viesse mesmo a agravar-se.

Na Bélgica, como, aliás, em toda a parte, continua a concorrência a hoje entrar-nos o passo e às conservas a tentar devidamente não para não sermos por completo eliminados.

Devemos distinguir dois competidores pelo sério perigo que para nós fazem: Espanha e Marrocos.

Certo é que Espanha encontrou presentemente impossibilidade de vir com as suas sardinhas sobrecarregar belga em consequência da guerra que tem em sua casa. Mas o movimento que ela estava a fazer com a Bélgica, é muito natural que recomece e se intensifique tão depressa a Guerra termine pela necessidade que aquele país virá a ter de se recompor do estado de fraqueza em que sairá da contenda.

Ora em 1935 a exportação espanhola de sardinha e atum em azeite ou molhos atingiu 7.000 quintais. Em 1936 desceu para 5.403 quintais e em 1937 para 688 quintais, quedas estas provocadas pela guerra. Terminada esta é mais que óbvio que Espanha procure retomar o lugar que ocupava em 1935 e se esforce por melhorá-lo, do que pensar que ela vai ficar no marasmo, batida pelos outros.

Espanha sabe fabricar e os seus preços são inferiores aos nossos.

Marrocos francês tem desenvolvido, de ano para ano, as suas vendas no mercado belga e fàcilmente por forma de tal maneira acentuada que nenhuma dúvida pode deixar quanto aos seus propósitos de conquista.

Em 1935 a sua exportação de sardinhas e atum em azeite ou molhos foi de 50 quintais. Em 1936 subiu para 194 quintais e em 1937 para 410 quintais. Em 1938, ano em que visitei esse mercado, não pude, por demasiado cedo, colher com precisão a quantidade exportada por Marrocos, mas segundo o cálculo dum importante transitário de Anvers, jamais será inferior a 40.000 caixas.

Em 1939 o crescimento da exportação marroquina para a Bélgica continuará a verificar-se, a não ser que nós acordemos da inércia em que temos vivido e movê-lo de medidas com que venhamos a proteger a produção, coloquemos a nossa conserva em posição de enfrentar a marroquina.

Doutra maneira nada conseguiremos a menos que se produza o milagre dos competidores deixarem de ter peixe e não poderem, por isso, produzir, ou então do consumo se desenvolver por tal forma que a produção mundial se torne insuficiente para o satisfazer.

No primeiro caso ficaríamos sòzinhos em campo e vencer não requereria cuidados. No segundo por efeito da velha e jamais destruída lei da oferta e da procura, esta aumentaria e também não se exigiria muita competência para se vender melhor. Como, porém, um e outro pertencem ao domínio das hipóteses absurdas, o mais prudente será estudarmos o problema de modo a solucioná-lo inteligentemente.

O que devemos procurar com acêrto e sem perda de tempo, concluímo-lo facilmente desde que tenhamos presente que Marrocos vende ¼ club 30%, ilustrado, sardinha em azeite a 160 francos franceses e em óleo a 135 francos, preços êstes que baixaram, respectivamente, para 155 e 125 francos franceses desde que a encomenda atinja uma centena de caixas. Todos estes preços CIF Anvers com o desconto de 3%.

Na Bélgica os direitos de importação para sardinha e atum em conserva de azeite ou molhos são iguais para todos os países, pelo que Marrocos deverá consideravelmente os seus preços em relação aos que faz para França.

Parece-me oportuno indicar aqui os direitos sobre as conservas de sardinha em azeite ou molhos:

por kilo líquido: Frs. Belgas 0,545

acrescido duma taxa de 6% e outros encargos de menos importância.

O QUE OBSERVEI NO MERCADO BELGA COM CONSERVAS QUE VIVE COM A PORTUGUESA, MARROQUINA E OUTRAS

Ao procurar fazer um estudo comparativo de conservas de peixe e por toda a parte nos mercados e mercearias das casas vendedoras de géneros alimentícios, encontrei-me latas de diversas marcas e proveniências, entre elas portuguesas.

Também e sobretudo nos bons estabelecimentos de Bruxelas e Anvers vêem-se, profusamente expostas, embalagens francesas, e isto, certamente, em virtude da desvalorização do franco francês.

A conserva marroquina, aqui, como em França, é aquela que se vê servida, com mais frequência, nos restaurantes e hotéis. O formato que mais aparece nos tabuleiros de hors d’oeuvres é o ¼ club, fabricação marroquina em caracteres por tal forma salientes que chamam a atenção dos mais distraídos.

Os preços de venda ao público são duma grande variedade pertencendo os mais caros à nossa conserva e à francesa.

No formato ¼ club 30%, em óleo, encontram-se preços que vão de 1,75 a 2,50 francos belgas, e em azeite de 2,50 a 3,75 francos belgas. O mesmo formato, sardinhas sem espinha em azeite, é vendido a 5,95 francos belgas.

Relato agora um caso a que assisti e que merece ser citado. Nos arredores dos grandes armazéns “Bon Marché”, há uma pequena agência de venda onde tudo se encontra, desde as peças aos alimentos. Ali por acaso estando, um rapaz, vendeu-se sardinhas em conserva portuguesa num letreiro bem visível com os seguintes dizeres:

5 boîtes = 5 francs

Fui ver: latas de ¼ club 30% de sardinha portuguesa, algumas delas abertas para o cliente se certificar da qualidade. Confesso que fiquei impressionado com a sua óptima apresentação em duas sardinhas no espelho, bem cobertas de óleo claro e límpido. Um óleo corrente de aspecto.

Decidi-me a comprar e para isso meti-me na bicha. Chegada a minha vez, a troco de 5 francos, entregaram-me um cartucho com as três latas. Abri, provei e gostei, sendo perfeita a fabricação.

Ao retirar-me, e olhando uma vez mais a fila de compradores que passava pelo sinal para comprar o cartucho com as 3 latas, não pude evitar esta pergunta: — como se liquidam tão baratas, não se arruinaram os negócios!

5 latas 5 francos equivale, na nossa moeda, a uma lata por esc. 1$35.

Em Bruxelas tive ocasião de falar com um dos mais importantes Agentes de casas exportadoras de conservas. Conhecedor como poucos do mercado belga, e, infelizmente para nós, de toda a conserva da concorrência por se ter visto forçado a trabalhá-la.

Confessa o seu pesar por ver fugir toda a clientela para a conserva marroquina. Poderia em parte dificultar essa fuga, mas, segundo ele, não tem sido o preço de alguns dos seus clientes que conseguem dos seus representados preços reduzidos nos preços mínimos do I.P.C.P.

Pensa que se os preços mínimos se mantivessem na conserva portuguesa acabaria por perder completamente o mercado belga.

As fabricações de Marrocos ganham cada vez mais terreno, e, dentro em pouco, se a concorrência portuguesa não se fizer sentir, terão todo o mercado nas mãos.

Também a conserva francesa (continental) nos poderá prejudicar se a França baixar o franco.

E quando Espanha voltar ao mercado, dos trabalhos poderá [ilegível] não poderemos contar com duas estações e temos que iniciar, com muita coragem, vendas a preços, tanto quanto possível, aproximados dos da concorrência. Apenas em relação às nossas marcas acreditadas, e algumas são realmente, o seu preço de venda pode ser superior ao marroquino, em todo o caso um pouco mais baixo que o preço mínimo instituído pelo I.P.C.P.

Mostrou-me depois uma encomenda que colocou num fabricante de Casablanca de ¼ club 30%, ilustrado, sardinha em azeite, a 160 francos franceses CIF Anvers, e o mesmo formato em óleo a 135 francos franceses, CIF Anvers, 3% de desconto.

Afirmou-me ainda que no outro, fábrica em óleo, o preço de 135 francos franceses, CIF Anvers, 3% de desconto, para encomenda duma quantidade avultada.

O importador, segundo me diz, compra a sardinha mais ao preço que à qualidade, e se alguma ainda há que procura a qualidade para isso pagando um pouco mais, a maior número prefere o preço baixo.

Referindo-se ao atum português em azeite, ou mesmo em óleo, também não vê facilidade de venda em virtude do preço muito mais baixo do atum japonês que classifica de boa fabricação e de boa qualidade.

Outros importadores colhi em Bruxelas todos êstes idênticos à nossa respeito, e, por isso, não me alongo com a sua reprodução.

Não queremos ver as nossas vendas cada vez mais diminuídas até chegarmos à perda completa do mercado belga, teremos que arrepiar caminho novo, e êste, aqui como em França, deve consistir em colocarmos a indústria na posição de poder competir com Marrocos em qualidade, o que é fácil, e em preço, o que já é mais difícil.

A seguir a Bruxelas visitei Anvers e tratando-se dum porto onde desembarcam, pode dizer-se, toda a conserva destinada à Bélgica, tive a preocupação de ouvir um transitário bem colocado.

Visitei recomendado de Bruxelas a um dos transitários mais importantes de Anvers, possuidor dos mais completos conhecimentos do mercado belga, bem como, duma maneira geral, de todo o comércio, a tal ponto que alguma coisa com ele se aprende.

Estabelecido há cerca de 40 anos é distribuidor de mais de 200 casas, e apesar disso confessa a sua constante e próxima luta para não ser eliminado pelos seus novos colegas. Diz ser longa e interessante conversa pelos seus juízos, cuja conclusão, os seguintes pontos:—

1.º — Não compreende que a concorrência tenha os mesmos direitos hoje para isso que importador tenha sacrifícios como ele teve de fazer para não ver a sua casa desaparecer.

2.º — Reputa injusto que se estabeleça um preço igual para qualquer quantidade de conserva. Aceita poder concordar com semelhante sistema de vendas porque com ele criarem-se tantos importadores que a própria mercadoria importa em prejuízo do grande importador com a sua casa e rêde de clientes devidamente organizada.

Êste importador acabará por não fazer grandes compras, pois nenhuma vantagem tem em relação a qualquer outro que mande vir pequeníssimas quantidades e as recebe ao mesmo preço e condições que êle.

Não quero com isto significar que não se exporte directamente para o pequeno importador que tem trato directo à vista com o grande, mas deveria vender-se-lhe um pouco mais caro, para facilitar às grandes compras e conservar os melhores preços de custo, etc. que estas teem. O certo é que, não se vendo protegido está fazendo tudo há-de haver o pequeno importador a comprar.

3.º — Sobre a concorrência opina que devemos nivelar os nossos preços aos da conserva marroquina para não virmos a perder o mercado belga, que acabará por ser inteiramente conquistado por Marrocos.

Há pouco ainda Marrocos quasi nada fazia com a Bélgica e este ano (1938) deve registar-se uma entrada de umas 40 mil caixas.

Se não baixarmos os nossos preços não se admira que Marrocos venda, em 1939, 80 a 100 mil caixas.

4.º — Deve-se abandonar imediatamente o preço mínimo pois embora não seja respeitado por quasi todos, é um embaraço para o vendedor honesto que apenas poderá trabalhar com os mercados acreditados o que não basta para assegurar-lhe condições de vida nas circunstancias actuais.

A liberdade de preços não prejudica a venda das marcas acreditadas e a prova-lo está o facto das maiores quantidades que estão no transitário quando não havia ainda os preços estabelecidos.

5.º — A passagem pelo seu armazem de conservas portuguesas este ano (1938) tem diminuído muito em favor da conserva marroquina.

CONCLUSÃO

Do exposto conclue-se que a indústria e comércio das sardinhas portuguesas em conserva sofrem duma crise resultante da diminuição do seu consumo, coincidente, para uma maior acuidade do problema, com uma diminuição da produção.

É certo que a diminuição da produção poderá ser considerada de momento como provisional, pois se não se verificasse, maior seria a quantidade de conserva armazenada, e, consequentemente, maior o volume das dificuldades.

No entanto e desde que se trata duma actividade económica que projecta os seus produtos para além fronteiras, quer-me parecer que se a diminuição do consumo é preocupadora, não menos o é qualquer enfraquecimento da produção.

Efectivamente constituindo pensamento fundamental da política do Governo evitar tanto quanto possível a saída do nosso ouro para o estrangeiro, para o que, com esclarecido critério patriótico, tem promulgado as melhores medidas de defesa e desenvolvimento da produção dos artigos habitualmente adquiridos nos mercados externos (bacalhau, assucar, arroz, algodão, etc., etc.) quer-me parecer como indiscutível que idêntica política deve seguir-se quanto aos nossos produtos de exportação, pois quanto mais a desenvolvermos, maior entrada de ouro provocaremos em benefício do país.

Como, apesar de tudo, ainda necessitamos de recorrer à importação em relação a muitos artigos, salvo o devido respeito, afigura-se-me que a melhor política consistirá em desenvolver o consumo dos nossos produtos de exportação por forma a mantermos o nível da sua produção e até aumentá-lo se para isso houver possibilidade e conveniência.

Aqueles países a quem compramos, devem ser colocados, por virtude duma inteligente política económica, na situação de também comprarem os nossos produtos.

Portanto o problema das nossas conservas de peixe deve ser estudado no sentido não só de desenvolvermos o seu consumo, como ainda de trazermos a sua produção ao nível que possuía.

Verifica-se, pelo mapa respectivo, que o movimento das nossas exportações, nos anos de 1933 a 1938, acusa uma subida que atinge o mais alto ponto em 1936 com 44.669.551 quilos, para depois baixar até 30.597.146 quilos em 1938.

Neste ano, pois, e em relação a 1936, a nossa exportação caiu 32%.

Convém ainda notar que nem toda a conserva exportada pode considerar-se consumida, porque em 1938, como já vimos no mapa respectivo, existiam no estrangeiro 55.617 caixas aguardando venda.

A diminuição do consumo é devida à crise mundial que obriga a uma geral restrição das despesas à qual não escapam as nossas sardinhas em conserva que são batidas pela competição com as suas congéneres, mais baratas que as nossas, ou com os similares, muito mais baratos que tudo.

O emprego do preço mínimo, prendendo o vendedor à obrigação de não transaccionar abaixo dele, veio facilitar a victoria dos competidores, pois os agentes não podendo trabalhar na base dele, lançam mão das conservas doutras proveniências, que, por serem mais baratas, e, portanto, mais vendáveis lhes proporcionam a realização dum maior numero de operações com o correspondente aumento dos seus ganhos de comissão.

Isto é tão verdadeiro quanto é certo ter-se verificado uma animação grande nas nossas exportações logo que as vendas passaram a ser feitas sem respeito pelo preço mínimo.

A capacidade da produção da nossa indústria de conservas de peixe é de 5.407.003 caixas por ano, assim distribuídas:—

Matozinhos …………… (26 fábricas) 898.110

Centro
(Peniche ………. (8 ”) 432.070
(Lisboa ……….. (8 ”) 309.320 741.390

Setubal ……………… (48 ”) 1.826.004

A transportar ………… 3.465.504

Transporte …….. 3.465.504

Barlavento
(Lagos …….. (9 fábricas) 222.217
(Portimão ….. (17 ”) 549.795 772.012

Sotavento
(Olhão …….. (23 ”) 770.556
(Vila Real …. (8 ”) 398.951 1.169.487

5.407.003

A produção realizada durante os anos de 1933 a 1938, cujo também já se viu no mapa respectivo, subiu até 1935 que se apresenta com 2.760.636 caixas para baixar nos anos seguintes até atingir 1.770.235 caixas em 1938.

Neste ano, pois, apenas se produziu cerca de 33% da capacidade atribuída à indústria.

Donde se conclue que é fraco o rendimento da indústria em comparação com a capacidade produtora que lhe é atribuída.

Pois apesar de fraco ainda se constata a sua diminuição a partir de 1935 devido à carencia da matéria prima em condições de ser laborada.

Na realidade a pesca tem diminuído em 1937 e1938, como se vê dos seguintes numeros coligidos dos mapas dos registos da pesca e das artes que a exerceram:—

1932
(71 cercos …
(150 traineiras
79.897.091 quilos

1933
(68 cercos …
(152 traineiras
49.826.403 ”

1934
(72 cercos …
(155 traineiras
111.235.828 ”

1935
(69 cercos …
(165 traineiras
139.397.502 ”

1936
(64 cercos …
(168 traineiras
100.397.835 ”

1937
(65 cercos …
(171 traineiras
84.279.050 ”

1938
(57 cercos …
(179 traineiras
90.503.800 ”

O ano de 1933 não oferece confiança na quantidade que acusa por não contar a pesca efectuada em Matozinhos.

Vê-se que desde 1934 a pesca decai, e, muito embora 1938 em relação a 1937 tenha aumentado em 6.224.750 quilos, o certo é que este aumento não pode ser tomado em consideração por representar peixe que pela abundância em que foi apanhado, em certos dias, não poude ser aproveitado para conserva pelo seu mau estado.

Também se vê pelo respectivo mapa do registo da pesca que os centros que maiores quantidades teem apanhado e que maior regularidade apresentam, são Matozinhos e Peniche, justamente aqueles onde a pesca é feita nas piores condições de aproveitamento para a indústria por virtude do pescador ainda não tratar convenientemente o peixe.

Setubal que figura como das zonas onde a pesca é exercida com o maior cuidado no tratamento do peixe por forma a permitir o seu completo aproveitamento pela indústria, é precisamente aquela que menor quantidade tem apanhado.

Prova isto que é necessário munir a indústria da pesca com instrumentos que lhe permitem exercer a sua actividade por forma a fornecer à indústria conserveira peixe em perfeitas condições de aproveitamento, em maior quantidade e mais baixo preço.

Tendo em vista o alto papel que a indústria das conservas desempenha na política económica e social do país, empregando ao seu serviço duas dezenas de milhares de operários, não contando com o elevado número de mão de obra assegurado pela indústria da pesca, e contribuindo com a exportação dos seus produtos para o enriquecimento da Nação pela entrada do ouro que provoca, além da projecção do nome de Portugal em toda a parte onde eles chegam, justifica-se todo o movimento que se faça em prol do seu desenvolvimento e fortalecimento.

Ora tendo o Governo dado sobeja prova da inteligência e boa vontade com que procura servir a Nação acudindo a todos os seus problemas vitais, e tendo adoptado, para base da Constituição política, o sistema corporativo, como sendo aquele que melhores meios oferece para o revigoramento da economia do país, justo é esperar do I.P.C.P., como organismo regulador e coordenador dos interesses da produção e comércio das conservas de peixe, que corresponda pela sua acção ao alto espírito nacional que presidiu à sua criação. Na minha humilde opinião representará manifestação da iniludível vontade de se bem servir a indústria e o comércio de conservas de peixe, o plano que se estabeleça nas seguintes bases:—

1.º) Eliminação dos preços mínimos.

2.º) Fornecimento aos Grémios dos Industriais dos centros que assim o desejarem duma frota de traineiras modernas providas dos meios necessários para que melhor possam procurar a sardinha.

3.º) Abaratecimento do custo da produção.

4.º) Criação da marca nacional de boa qualidade e vendida pelo I.P.C.P. a um preço certo, apenas sujeito a descontos graduais consoante a quantidade de caixas encomendada.

5.º) Liberdade de comércio para todas as outras marcas, mas com a fixação dos preços de venda não excederem o custo da produção a estabelecer.

6.º) Criação no estrangeiro, onde mais necessário fôr, de delegações do I.P.C.P., que promovam a venda da marca nacional e concorram, pela sua acção, para a expansão das conservas portuguesas de peixe.

7.º) Fiscalização das nossas conservas e grande propaganda a favor da sua expansão.

Lisboa, Janeiro de 1939

[assinatura]

 

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