Exposição Indústrial do Porto 1861

1861 Porto Industrial Exhibition

CIDADE / CITY: Porto – Oporto
LOCAL / PLACE: Palácio da Bolsa
ORGANIZAÇÃO / ORGANIZATION BY: Associação Industrial Portuense

Jorge Fernandes Alves – As Exposições Industriais no Porto Oitocentista.
In O mundo ibero-americano nas Grandes Exposições, edição de Mourão, J.A., Matos, A. M. C. de, Guedes, M., p. 165-176. Republicado in O Tripeiro, 7.ª série, ano XVIII, n.º 3, 1999, p.69.97.

1861
A exposição de 1861 (de 25 de Agosto a 16 de Setembro), que se realizou no Palácio da Bolsa (então ainda em construção), representava só por si uma reconciliação entres os grupos de interesses económicos: para além da sua abertura à produção agrícola, a exposição representava a entrada festiva da indústria no Palácio da Associação Comercial (que uma década antes criara entraves à constituição da Associação Industrial Portuense, cuja criação via como uma fractura, porque, face ao Código Comercial vigente, se considerava única e legítima representante de todas as actividades económicas).

Ribeiro de Sá, um industrialista atento a esta “bizarra hospedagem”, não se esqueceu de sublinhar a particularidade de, por esse facto, a exposição exprimir “bem a ideia de comunidade de interesses que ligam o trabalho e o capital nas manifestações em que aparece unido, quer estas pertençam à indústria comercial, fabril ou agrícola”3, saudando o fim dos antagonismos entre os protagonistas dos vários ramos de actividades. E a participação de uma missão espanhola expressamente convidada pela AIP, através de uma sua Filial na Catalunha, dava o toque internacional, neste caso precioso em altura de polémicas iberistas, mostrando a parte sensata de Espanha, a que respeitava a História e procurava estreitar pacificamente relações económicas.

Por tudo isso, a exposição era, apesar das reservas de alguns, uma festa popular, um hino ao trabalho, às máquinas, à ilustração da missão da indústria, a qual se traduziria em “produzir muito e barato” e “provar a perfeição dos métodos de trabalho em todos os artefactos (…) depois que a generalização do maquinismo facilitou os meios de aperfeiçoar a fabricação de todos os objectos”4.

Para além disso, a exposição inseria-se num movimento mais amplo, o das exposições já realizadas anteriormente em vários locais: era o caso nacional da exposição de Lisboa, realizada em 1849, que terá tido algum efeito na opinião pública numa altura de grandes dissensões políticas, ajudando a impor as movimentações sobre os melhoramentos materiais que confluem no fontismo; ou a de Londres, em 1851, que congregara diferentes nações com histórias anteriores de antagonismo mas que não se escusaram ao “abraço fraternal que as ligou na exposição”, procurando substituir as imagens de guerra da primeira metade do século na expressão “da linguagem universal da conveniência pública, que é percebida por todas as nações, na permutação constante dos produtos da inteligência e do trabalho”5.

O Porto industrial convocava, agora, este papel pacifista das exposições, chamando para o Norte este tipo de iniciativas e fazendo de uma exposição local uma exposição nacional, na medida em que ali se apresentavam produtos das principais fábricas nacionais, numa incontestável supremacia face às anteriores mostras nacionais, incluindo as representações mandadas a Londres e Paris, porque se faziam sentir os impactes das melhorias políticas nacionais e das descobertas técnicas em geral. E sucessão das exposições criava a expectativa e a obrigação de se apresentarem sempre os progressos entretanto obtidos, constituindo só por si um instrumento pacífico de emulação, numa crença optimista própria dos períodos de expansão económica como era aquela em que se vivia.

Claro que, ao nível da realização concreta, havia muito ainda a melhorar. Afirmava a imprensa que para se poder estudar uma exposição industrial eram indispensáveis dois instrumentos básicos: “as classes em que se dividem os produtos expostos e o catálogo desses mesmos produtos”. Ora o catálogo não foi realizado em tempo útil (O Comércio do Porto publicou-o aos poucos durante o tempo da exposição), mas afinal esse já tinha sido um handicap das exposições de Londres e Paris e explicava-se sobretudo pela falta de habituação dos industriais a este tipo de realizações, sonegando ou tardando com as informações respectivas à organização. Em todo o caso, a exposição de 1861 revelou uma importante mobilização industrial, com um total de 952 expositores, apresentando algumas das principais unidades empresariais do País, que aproveitaram para dar uma ideia do aperfeiçoamento tecnológico das suas capacidades industriais, como aconteceu particularmente com algumas fundições do Porto (as de Massarelos, Bicalho, Bolhão) 6. E teve a visita e o incentivo do popular monarca D. Pedro que a visitou por três vezes, no âmbito de uma visita real mais alargada ao Norte 7.

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