Environmental Challenge in the Canning Industry: The Portuguese Case in the Early Twentieth Century.

Desafio Ambiental na Indústria Conserveira: O Caso Português no Início do Século XX – Maria Eugénia Mata – 2010

Historical Social Research, Vol. 35 — 2010 — No. 4, 351-372 

Abstract: »Ökologische Herausforderung in der Konservenindustrie: Der Fall Portugal im frühen zwanzigsten Jahrhundert«. Fish-canning industries are closely-linked to, and have an impact on environmental conditions, bringing great challenges to optimality. While entrepreneurship perspectives focus on the survival and profitability of firms, social utility perspectives focus on collective welfare and long-term sustainability. This paper illustrates the theoretical puzzle of the fish-canning industry in examining the historical experience of Portuguese public policies from the point of view of industrial economics and collective welfare. 

Keywords: Portuguese canning, environmental challenges, fishing sustainability, regulation. 

Address all communications to: Maria Eugénia Mata, Associate Professor, Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Economia, Campus de Campolide, 1099-032 Lisbon, Portugal; e-mail: memata@fe.unl.pt. 

Tradução para Português da exclusiva responsabilidade do conservasdeportugal.com

Fisheries and the Ecosystem Equilibrium

Pescas e o Equilíbrio do Ecossistema

Fishing has been a well documented economic activity in Portugal since ancient times, as limited agricultural potential coupled with a long Atlantic sea coast offering ample fishing resources.1 Commercially valuable species have supported a labour-intensive fishing industry along this coast from Roman times until today. 2 The historical record of fisheries in Portugal and their role in the exports of fish-preserves continue on through medieval and modern times.3 Fish stocks offering valuable commercial opportunities remained comfortably abundant for many centuries, but the depletion of resources following industrialisation brought strong incentives to study efficient levels of harvesting in fisheries and critical thresholds among valuable species. According to the tools of environmental economics, there is a stable relationship between the growth of fish populations, the size of the fish populations and the scale of fishing and canning activities.1 

As fisheries and canning were labour-intensive sectors, seaports were nests of marine and industrial jobs that supported local commerce, exports, consumption, standards of life, and intensive urban growth phenomena. Major threats to fisheries were also major economic threats to local urban activities. At the same time, business prosperity and growth were perverse to ecosystem destruction, and were severe threats to marine-life. 

In Portugal, strong fluctuations occurred in the availability of alternative species for canning, the most important of which were sardines, tuna and mackerel. These species occupy niches in the food chain in such a way that an abundance of tuna means a scarcity of sardines and mackerel.2 If the stock of the prey species is more abundant, this implies a scarcity of the predator. Cycles for canning different species matched the needs of the canneries and provided a good answer to business and commerce opportunities, as well as to employment. 

Balancing the effects of booms were ecosystem difficulties arising from wastes, pollution, and sanitation problems. Depletion effects on the ecosystem also brought great difficulties for maintaining the scale of production. Conservation and protection of wildlife habitats became decisive features of production in vertical integration strategies of canning and fishing for long-term double-edge equilibrium. 

A pesca é uma atividade económica bem documentada em Portugal desde a Antiguidade, resultado da conjugação entre o limitado potencial agrícola do território e uma extensa costa atlântica, rica em recursos marinhos.¹ Espécies com valor comercial sustentaram uma indústria pesqueira intensiva em mão-de-obra ao longo desta costa, desde o período romano até aos dias de hoje.² O registo histórico das pescas em Portugal e o seu papel nas exportações de conservas de peixe prolongam-se pela Idade Média e pela Época Moderna.³ Durante muitos séculos, os recursos piscícolas com valor comercial mantiveram-se abundantemente disponíveis. No entanto, o esgotamento dos recursos com o avanço da industrialização gerou fortes incentivos para estudar níveis eficientes de exploração e limiares críticos de sustentabilidade das espécies. Segundo os instrumentos da economia ambiental, existe uma relação estável entre o crescimento das populações piscícolas, a sua dimensão e a escala das atividades de pesca e conservação.¹

Sendo sectores intensivos em trabalho, as pescas e a indústria conserveira tornaram os portos marítimos centros de emprego tanto no setor industrial como no marítimo, sustentando o comércio local, as exportações, o consumo, os padrões de vida e fenómenos de crescimento urbano acelerado. As grandes ameaças à atividade pesqueira representavam também ameaças económicas significativas para as atividades urbanas locais. Em simultâneo, a prosperidade e o crescimento empresarial podiam ter efeitos perversos, contribuindo para a destruição do ecossistema e colocando em risco a vida marinha.

Em Portugal, registaram-se fortes flutuações na disponibilidade de espécies alternativas para conservação, sendo as mais relevantes a sardinha, o atum e a cavala. Estas espécies ocupam nichos específicos na cadeia alimentar, de forma que a abundância de atum implica a escassez de sardinhas e cavalas.² Se o stock das espécies-presa for mais abundante, isso traduz-se, geralmente, na escassez do predador. Os ciclos de conservação de diferentes espécies ajustavam-se às necessidades da indústria conserveira e respondiam tanto às oportunidades de negócio e comércio como às exigências de emprego.

A par dos períodos de prosperidade, surgiam dificuldades ecológicas causadas por resíduos, poluição e problemas de saneamento. Os efeitos de esgotamento sobre o ecossistema tornaram-se grandes obstáculos à manutenção da escala de produção. A conservação e a proteção dos habitats marinhos tornaram-se aspetos decisivos para a sustentabilidade da produção, sobretudo em estratégias de integração vertical entre pesca e conservação, com vista a garantir um equilíbrio sustentável a longo prazo.

1 Parreira, 1938. 
2 There are abundant historical vestiges at Tróia, an archeological site south of Lisbon. According to excavations, this was one of the most important fish-salting and preserving centers of the Western Mediterranean in the first century. 3 On the virtues of fish in the human diet, see Jorge, 1938. 

1 Parreira, 1938.
2 Existem abundantes vestígios históricos em Tróia, um sítio arqueológico a sul de Lisboa. Segundo as escavações, este foi um dos mais importantes centros de salga e conservação de peixe do Mediterrâneo Ocidental no século I.
3 Sobre as virtudes do peixe na alimentação humana, ver Jorge, 1938.

Canning Industry: Scale and Depletion

Indústria Conserveira: Escala e Esgotamento

Traditional preserving technologies were based on drying and salting, two methods to support exports and specialisation. The exceptional climatic conditions and the abundance of commercially valuable species for fishmeal activities explain why so many generations embraced this sector using traditional technologies. Sterilisation methods became widespread only in the second half of the nineteenth century, benefiting from the Appert method.3 Evidence on the introduction of sterilisation technology in Portugal is available for sardine canning since 1855, achieved by boiling the cans at high temperatures after soldering them closed.4 The world exhibition of Paris in 1855 presented showcased brands of sardines canned in olive-oil, from Portugal.5 Plants belonging to Feliciano António da Rocha and Manuel José Neto introduced the method for canning sardines in oil in the city of Setúbal. A third brand, belonging to Gustavo Carlos Herlitz & Company was operating in 1861.6 

As preserving technologies improved and the average revenue per capita grew, the consumption of canned fish increased throughout Europe, the main international market for Portuguese produce. The continued abundance of fishing resources off the Portuguese shores must mean that the reduction in the stock due to out-migration, mortality and fishing was compensated by increases resulting from in-migration and growth of the fish populations.7 Fishing is predation and is sustainable if and only if the catch harmonizes with the specie’s growth rate, that is, the maximum sustainable yield for a specie’s population is “the largest catch that can be perpetually sustained”.11

Some problems occurred because of certain species’ erratic migration routes in the Atlantic. In the 1880s sardines were scarce on the French and Italian coasts and some canning entrepreneurs moved to Portugal. An industrial inquiry in 1880 revealed that only twelve factories for food industries existed in Portugal at the time, and among them only five were devoted to canning fish. Four were on the Southern coast (Parodi & Roldan, S. Francisco, belonging to Francisco Rodrigues Tenório, Santa Maria, and Sebastião Migoni) and one on the western coast (Santos, Cirne & Cª).12 In the space of a decade the number of factories devoted to food industries increased to 52, and among the 45 which were devoted to canning fish, 11 belonged to foreigners who came to Portugal: Victor Tortrais, Emile Roullet, Wenceslau Chancerelle, F. Delany, Joseph Pierre Chancerelle & Cª, Sebastian Stephan, Jalma & Seguena, Frederico Delary, J. Labrouche, Domenico Migone, and Angelo Parodie.13

Delocalisation to Portugal brought new opportunities to foreign firms, more jobs in the Portuguese seaports, and dramatic competition to Portuguese producers.14 Canning became the dominant industry along the coast, outstripping the importance of salt production, but shoals could disappear from the coast for unknown reasons. Fishermen’s wages were not paid on a piecemeal basis, so demand and supply could adjust their revenues in the fish auction market, but poor catches always meant social problems.15 If shoals changed their movement along the coast, fishing had to adjust, but the species’ movements were difficult to predict, in spite of practical knowledge on the colour of the sea water to discover their location. To offset these difficulties, oceanographic studies were undertaken by the end of the nineteenth century.16 Scientific observation discovered the species’ main routes and habits. Frequently public authorities charged the cost of this research to public institutions. Portuguese Royal Navy vessels devoted efforts to marine biology and oceanographic research, particularly from 1896 to 1906, and provided valuable information for the potential future development of fishing and canning industries.8 

As massive sums were invested in the fishmeal industry, the depletion of ocean resources continued: The massive extraction of sardines contributed to disappearance of tuna, as the 1st level of the food chain was destroyed.9 The danger of species extinction was already visible in the 1920s, as tuna moved away from the coast. 

As tecnologias tradicionais de conservação baseavam-se na secagem e na salga — dois métodos que sustentaram as exportações e a especialização. As condições climáticas excecionais e a abundância de espécies com valor comercial para a indústria conserveira explicam porque tantas gerações se dedicaram a este setor, utilizando métodos tradicionais. Os processos de esterilização só se generalizaram na segunda metade do século XIX, beneficiando do método de Appert.³ Há registos da introdução da tecnologia de esterilização em Portugal na conserva de sardinha desde 1855, realizada através da fervura das latas a altas temperaturas após serem soldadas.A Exposição Universal de Paris de 1855 apresentou marcas de sardinhas em azeite provenientes de Portugal.⁵ As fábricas de Feliciano António da Rocha e Manuel José Neto introduziram o método de conservação em azeite na cidade de Setúbal. Uma terceira marca, pertencente à Gustavo Carlos Herlitz & Companhia, estava em atividade em 1861.⁶

À medida que as tecnologias de conservação se aperfeiçoaram e o rendimento médio per capita aumentou, o consumo de peixe em conserva cresceu em toda a Europa, o principal mercado internacional para os produtos portugueses. A contínua abundância de recursos piscícolas na costa portuguesa parece indicar que a redução dos stocks devido à migração, mortalidade e pesca era compensada por acréscimos provenientes de migração e crescimento das populações de peixes.⁷ A pesca é uma forma de predação e só é sustentável se e apenas se as capturas estiverem em equilíbrio com a taxa de crescimento da espécie — ou seja, o rendimento máximo sustentável é “a maior captura que pode ser mantida indefinidamente”.¹¹

Alguns problemas surgiram devido às rotas migratórias erráticas de certas espécies no Atlântico. Na década de 1880, as sardinhas escasseavam nas costas francesa e italiana, o que levou alguns empresários conserveiros a deslocalizarem-se para Portugal. Um inquérito industrial de 1880 revelou que existiam apenas doze fábricas de produtos alimentares em Portugal na altura, das quais apenas cinco se dedicavam à conserva de peixe. Quatro situavam-se na costa sul (Parodi & Roldan, S. Francisco, de Francisco Rodrigues Tenório, Santa Maria, e Sebastião Migoni) e uma na costa ocidental (Santos, Cirne & Cª).¹² No espaço de uma década, o número de fábricas dedicadas à indústria alimentar aumentou para 52, das quais 45 se dedicavam à conserva de peixe, sendo que 11 pertenciam a estrangeiros que se estabeleceram em Portugal: Victor Tetrais, Emile Roullet, Wenceslau Chancerelle, F. Delany, Joseph Pierre Chancerelle & Cª, Sebastian Stephan, Jalma & Seguena, Frederico Delary, J. Labrouche, Domenico Migone e Angelo Parodi.¹³

A deslocalização para Portugal trouxe novas oportunidades às empresas estrangeiras, mais postos de trabalho nos portos portugueses e uma concorrência acentuada para os produtores nacionais.¹⁴ A indústria conserveira tornou-se dominante ao longo da costa, ultrapassando a importância da produção de sal, mas os cardumes podiam desaparecer da costa por razões desconhecidas. Os salários dos pescadores não eram pagos à peça, o que permitia algum ajustamento da oferta e da procura no mercado de leilão do peixe, mas as más capturas geravam inevitavelmente problemas sociais.¹⁵ Quando os cardumes alteravam os seus percursos costeiros, era necessário adaptar a pesca, embora fosse difícil prever os movimentos das espécies, mesmo com o conhecimento empírico sobre a cor da água do mar como indicador da sua localização. Para mitigar essas dificuldades, começaram a realizar-se estudos oceanográficos no final do século XIX.¹⁶ A observação científica permitiu identificar as principais rotas e hábitos das espécies. Frequentemente, as autoridades públicas atribuíram os custos desta investigação a instituições públicas. Os navios da Marinha Real Portuguesa dedicaram-se a investigações de biologia marinha e oceanografia, particularmente entre 1896 e 1906, fornecendo informação valiosa para o futuro desenvolvimento das indústrias de pesca e conserva.⁸

À medida que se investiam somas consideráveis na indústria conserveira, o esgotamento dos recursos marinhos continuava: a extração massiva de sardinhas contribuiu para o desaparecimento do atum, uma vez que se destruiu o primeiro nível da cadeia alimentar.⁹ O risco de extinção de espécies já era visível nos anos 1920, com o afastamento do atum da costa.

1 Tientenberg, 2007. 
2 Brandão, 1938. 
3 On the presence of germs and bacilli, see May (1938). 
4 On the safety of sterilisation methods, see Lepierre, 1938. 
5 Moura, et al, 1957, p. 57. Parreira, 1938.  

6 Mata, 2009. 
7 Schaefer, 1957. 11 Tietenberg, 2007, p. 219. 12 Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, 1880. 13 
Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, 1890; Archive of the Portuguese Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Sociedades Estrangeiras. 14 Mata, 2009. 15 Only in codfishing were wages paid on a piecemeal basis. 16 Difficulties in locating shoals still exist today, in spite of the modern technologies employed.  

International Competition, Cycles and Times of War

Concorrência Internacional, Ciclos e Tempos de Guerra

Factories required hygiene, and required much washing for beheading and cleaning the fish. Wastewater from canning was a challenge, beaches became dangerous places to swim or play, and canning seaports became toxic dumpsites. The floor of the plants needed to be cleaned and washed frequently because of the residues and smell. Plants needed abundant water supply, sinks and systems for draining waste water, even though they might be nothing more than light constructions along the beaches. Waste water was typically drained into the sea. Scaling the fish was avoided in order to preserve their fresh appearance and minimize the residues. The fishmeal industries’ impact on the environment was a managerial challenge in increasing costs because of the blood-water and stick-water resulting from the production process, as these proved to be among the worst pollutants.10 

The canning industry was soon driven by foreign firms located in Portuguese seaports. Of course, newcomers faced some entrance barriers resulting from the operation of the established producers. They had to struggle for market shares and learn about local conditions.11 Local producers could also react by adopting better technologies and marketing their brands to retain consumers’ loyalties and defend their market shares against the newcomers’ competition.12 However, the new entrants also had their own brands in their home markets or were established even in the global market of consumers.13 Technological improvements were introduced among the established firms through new investment, providing innovation and scale, and increasing barriers to new entrants.14 Moreover, business practices might also have reflected some deterrence effects, both in exhausting raw material and in lowering prices of the final product, in order to squeeze out competition.15 Following a strategy for growth and internationalisation under high-quality standards, profits and reinvestment meant expansion into geographically diverse locations for factories.25 Some firms managed to achieve vertical-integration to reinforce their positions.26 Ramirez family and Júdice Fialho were successful entrepreneurs who followed this strategy from 1892 to 1934, and obtained positions among the eight largest producers in the 1950s.27 Fishing by steamship was an important technological improvement that helped the Ramirez plants benefit from scale economies, a feature that increased deterrence effects.28 Fialho’s factories were vertically integrated with their own fleet of fishing vessels, which were built and serviced in the firm’s own shipyard. Ramirez today boasts its status as ‘the oldest cannery in the world’, as it is now one of the few fifth-generation business families in Portugal).16 

As fábricas exigiam condições de higiene rigorosas e lavagens frequentes para a decapitação e limpeza do peixe. As águas residuais resultantes do processo conserveiro tornaram-se um desafio ambiental: as praias transformaram-se em locais perigosos para nadar ou brincar, e os portos conserveiros converteram-se em depósitos tóxicos. Os pavimentos das unidades tinham de ser lavados regularmente, devido aos resíduos e ao odor intenso. As fábricas necessitavam de um abastecimento abundante de água, lavatórios e sistemas de escoamento de águas residuais, ainda que, por vezes, fossem apenas construções leves junto à praia. Estas águas eram geralmente descarregadas diretamente no mar. A escamação do peixe era evitada para preservar o seu aspeto fresco e minimizar resíduos. O impacto ambiental da indústria conserveira representava um desafio de gestão, com custos acrescidos, sobretudo devido à “água de sangue” e “água pegajosa” resultantes do processo industrial, dois dos poluentes mais nocivos conhecidos.¹⁰

A indústria conserveira foi rapidamente impulsionada por empresas estrangeiras instaladas nos portos portugueses. Naturalmente, os novos entrantes enfrentaram algumas barreiras de entrada impostas pelos produtores já estabelecidos. Tiveram de lutar por quotas de mercado e adaptar-se às condições locais.¹¹ Os produtores locais podiam reagir adotando melhores tecnologias e promovendo as suas marcas para manter a fidelidade dos consumidores e defender a sua posição face à concorrência.¹² No entanto, os novos entrantes também traziam as suas próprias marcas dos mercados de origem ou já se encontravam estabelecidos no mercado global.¹³ As melhorias tecnológicas introduzidas pelas empresas instaladas, através de novos investimentos, impulsionaram a inovação e a escala produtiva, elevando as barreiras de entrada.¹⁴ Além disso, algumas práticas empresariais refletiam comportamentos dissuasores, como o esgotamento das matérias-primas ou a descida dos preços dos produtos finais para expulsar a concorrência.¹⁵ Seguindo uma estratégia de crescimento e internacionalização com elevados padrões de qualidade, os lucros e os reinvestimentos permitiram a expansão para novas localizações geográficas.²⁵ Algumas empresas alcançaram integração vertical para reforçar a sua posição.²⁶ As famílias Ramirez e Júdice Fialho foram dois casos de sucesso que adotaram esta estratégia entre 1892 e 1934, posicionando-se entre os oito maiores produtores nos anos 1950.²⁷ A pesca com barcos a vapor foi uma inovação tecnológica significativa que permitiu às fábricas Ramirez beneficiar de economias de escala, reforçando os efeitos dissuasores.²⁸ As fábricas de Fialho estavam integradas verticalmente, com frota própria construída e mantida nos seus estaleiros. Atualmente, a Ramirez afirma o seu estatuto como “a mais antiga conserveira do mundo”, sendo uma das raras empresas familiares portuguesas na sua quinta geração.¹⁶

As it happened, deterrence effects against newcomers were blurred by foreign markets.30 The increased scale of production after the 1880s thanks to new units belonging to foreign competitors worried the established canners, although one must consider the competitiveness consequences on the locally established producers, who could raise entry barriers to the newcomer.31 The number of factories in Portugal increased during the war from 116 in 1912 to 188 in 1917.32 Increased consumption resulting from the military demand during the First World War brought new opportunities for all producers. Food scarcity on the battlefields and in civilian markets increased the international demand, and most of the cannery entrants were European firms.33 Increased production coupled with technological innovations linked to the use of steampower to boil and sterilize the cans increased social welfare in the European and Latin American countries, due to higher overall demand. However, for such a large number of plants and scale of production, the urban equipment could not assure hygiene. 

Como aconteceu, os efeitos dissuasores contra novos entrantes foram atenuados pelos mercados estrangeiros.³⁰ O aumento da escala de produção após a década de 1880, com a entrada de novas unidades pertencentes a concorrentes estrangeiros, causou preocupação entre os conserveiros já estabelecidos, embora se deva considerar as consequências competitivas para os produtores locais, que, por sua vez, podiam elevar barreiras à entrada dos recém-chegados.³¹ O número de fábricas em Portugal aumentou durante a guerra, passando de 116 em 1912 para 188 em 1917.³² O aumento do consumo resultante da procura militar durante a Primeira Guerra Mundial trouxe novas oportunidades para todos os produtores. A escassez alimentar nos campos de batalha e nos mercados civis fez crescer a procura internacional, e a maioria dos novos entrantes no setor conserveiro eram empresas europeias.³³ O aumento da produção, aliado às inovações tecnológicas associadas ao uso da energia a vapor para ferver e esterilizar as latas, contribuiu para o bem-estar social nos países europeus e latino-americanos, graças à maior procura global. No entanto, para um número tão elevado de unidades fabris e esta escala de produção, os equipamentos urbanos não conseguiam garantir condições de higiene.

8 D. Carlos, 1899. 
9 Sousa, 1938. 
10 Clarke, 2008: 67. 
11 Schmalensee, 1981. 
12 Ferguson, 1974. 
13 Cubin, 1981.  
14 Stigler, 1968. Dixit, 1980. 
15 Caves & Porter, 1977. 25 Soares (2005), p. 40. On the brand Cocagne see pp. 42 and 45. 26 Spence, 1977. 27 The other six large producers were Algarve Exportador &Cº, Ângelo Parodi Bartolomeo, Lopes da Cruz &Cº, Conservas Unitas, João Gargalo Herdeiros, and Francisco Alves & Filhos. Moura et al, 1957, p. 74. Fialho’s traditional brands were Marie Elisabeth, Falstaff and Désirées. Faria, 2001, p. 44-45. 28 Soares, 2005: 34, 35. Spence, 1980. 
16 Soares (2005), p. 27. 30 Stigler, 1968; Schmalensee, 1978. 31  Demsetz,1982. 32 
And employed 14,679 people. Moura; Dubraz; Dores; Gonçalves; Chaves; Oliveira (1957), pp. 57-58. The estimation at Soares (2005), pp. 42, 45 is too optimistic. 33 Dowell, 2006.  

 

8 D. Carlos, 1899.
9 Sousa, 1938.
10 Clarke, 2008: 67.
11 Schmalensee, 1981.
12 Ferguson, 1974.
13 Cubin, 1981.
14 Stigler, 1968. Dixit, 1980.
15 Caves & Porter, 1977. 25 Soares (2005), p. 40. Sobre a marca Cocagne ver pp. 42 e 45. 26 Spence, 1977. 27 Os outros seis grandes produtores eram Algarve Exportador & Cº, Ângelo Parodi Bartolomeo, Lopes da Cruz & Cº, Conservas Unitas, João Gargalo Herdeiros e Francisco Alves & Filhos. Moura et al., 1957, p. 74. As marcas tradicionais de Fialho eram Marie Elisabeth, Falstaff e Désirées. Faria, 2001, pp. 44-45. 28 Soares, 2005: 34, 35. Spence, 1980.
16 Soares (2005), p. 27. 30 Stigler, 1968; Schmalensee, 1978. 31 Demsetz, 1982. 32
E empregava 14.679 pessoas. Moura; Dubraz; Dores; Gonçalves; Chaves; Oliveira (1957), pp. 57-58. A estimativa em Soares (2005), pp. 42, 45 é demasiado optimista. 33 Dowell, 2006.

Hygiene and Health Problems. Environmental Effects

Higiene e Problemas de Saúde. Efeitos Ambientais

Running plants produced large quantities of harmful residual wastes that were tragic to ecosystems, both on land (near the urban core or residential shore zones in canning seaports) and in the sea, where fetid emissions were emptied directly into the bays. Although sanitation was a fashionable issue, there was a lack of piping for carrying sewage into septic tanks. In Portugal, fishmeal plants existed alongside the living quarters in the cities, and plants accumulated deposits of wastes on neighbouring lots.17 As the cans were made of tin-plate, the terrain around the fish-canning factories littered with very dangerous sharpedged metal waste. Such pollution coupled with the destruction of the ecosystem to threaten the sustainability of the fish-canning industry.18 Overfishing was also a problem. Discarding fish on the beach to rot or throwing them back into the sea also aggravated environmental problems and provoked poor public relations. 

Economic booms sometimes translate into ecological setbacks or even the extinction of some species.19 Not only were some species being seriously overfished, but pollution from fish cleaning and canning increased the amount of pressure that was being put on the catch because industrial residues made it ever more difficult to harvest the decreasing stock of fish, as species moved away from the increasingly polluted coastal waters. Moreover, there was the need to avoid contaminating the potable water supply.20 

For reasons that are perfectly clear, the fish-canning industries were very concentrated. As fresh fish were quickly perishable, proximity to beaches, seaports and auction markets for fisheries was critical for the provision of fresh raw-material, and avoiding transportation costs, (and refrigeration systems, later on). Concentration was (and still is) the rule for canning industries. The same occurs all over the world, and the higher is the concentration, the more impressive is the environmental challenge, with strong effects on health problems.21 The estimation of concentration coefficients for the location of canneries in Portugal reveals that they are similar to those in the UK and US (0.68 in 1940 and 0.63 in 1950, in Portugal, against 0.66 in Great Britain and 0.70 in the USA).22 However, for the districts of Setúbal on the western coast and Faro on the southern coast the coefficient attained very high levels (4.2 and 12.6, respectively, in 1954).23 The higher the concentration, the greater was the proliferation of dirt and noxious odours. 

Billowing factory smokestacks characterized the typical canning city of the nineteenth-century, and the unpleasant atmosphere represented a deterioration of living conditions, which also were unhealthy because of epidemics. Cholera and typhus killed 9,000 in Lisbon in the winter of 1855-56 and re-appeared in 1865. By the end of the century, smallpox was endemic in densely populated quarters, killing over 200 people annually in Oporto, and bubonic plague hit this city in 1899.24 Jobs attracted labour from agricultural regions to canning seaports, exacerbating the demographic explosion. Contagious diseases were responsible for 44.2% of the deaths in the country, and tuberculosis was especially common among industrial workers.25 The 1919 influenza epidemic alone killed 100,000 people in Portugal. In spite of citizens’ complaints, the medical authority for factory inspections was not enough to control unhealthy industries. Local metropolitan authorities were overwhelmed, as resources were insufficient to meet public expenditures. Central state controls might have been effective, but petitions failed to bring intervention. 

As a consequence, intense pollution arising from the canning industry dominated the cities’ skylines. The number of factories increased from 188 to 400 from 1917 to 1925, but this depleted fishing resources. Government regulation sought to ensure that fisheries supporting the canning industry would become ecologically sustainable in perpetuity. 

As fábricas em funcionamento produziam grandes quantidades de resíduos nocivos que se revelavam trágicos para os ecossistemas, tanto em terra (junto aos núcleos urbanos ou zonas residenciais costeiras das cidades conserveiras) como no mar, onde as descargas fétidas eram despejadas diretamente nas baías. Apesar de a questão sanitária estar na ordem do dia, havia uma ausência de canalizações para conduzir os esgotos para fossas sépticas. Em Portugal, as unidades de farinha de peixe situavam-se ao lado das zonas habitacionais nas cidades, acumulando resíduos em lotes vizinhos. Como as latas eram feitas de folha-de-flandres, o terreno em redor das conserveiras encontrava-se coberto de resíduos metálicos cortantes e perigosos. Esta poluição, aliada à destruição do ecossistema, punha em causa a sustentabilidade da indústria conserveira. A sobrepesca era também um problema. O descarte de peixe nas praias, deixado a apodrecer, ou lançado novamente ao mar agravava os problemas ambientais e gerava uma má imagem pública.

Os períodos de expansão económica traduziam-se, por vezes, em retrocessos ecológicos ou até na extinção de algumas espécies. Não só algumas espécies eram seriamente sobre-exploradas, como a poluição resultante da limpeza e conservação do peixe aumentava a pressão sobre as capturas, uma vez que os resíduos industriais dificultavam ainda mais a pesca, pois os cardumes afastavam-se das águas costeiras cada vez mais poluídas. Acrescia a necessidade de evitar a contaminação do abastecimento de água potável.

Por razões facilmente compreensíveis, a indústria conserveira era (e continua a ser) altamente concentrada. Como o peixe fresco se deteriora rapidamente, a proximidade a praias, portos e lotas era crítica para garantir o fornecimento imediato da matéria-prima e para evitar custos de transporte (e mais tarde, de refrigeração). A concentração era (e é) a norma nesta indústria. O mesmo acontece em todo o mundo, e quanto maior a concentração, mais impressionante o desafio ambiental, com fortes impactos na saúde pública. A estimativa dos coeficientes de concentração da localização das conserveiras em Portugal revela que estes eram semelhantes aos do Reino Unido e EUA (0,68 em 1940 e 0,63 em 1950, em Portugal, contra 0,66 na Grã-Bretanha e 0,70 nos EUA). Contudo, para os distritos de Setúbal, na costa ocidental, e Faro, na costa sul, os coeficientes atingiam níveis muito elevados (4,2 e 12,6, respetivamente, em 1954). Quanto maior a concentração, maior a proliferação de lixo e maus odores.

As chaminés fumegantes das fábricas eram a imagem típica das cidades conserveiras do século XIX, e a atmosfera desagradável representava uma deterioração das condições de vida, agravadas por epidemias. A cólera e o tifo mataram 9.000 pessoas em Lisboa no inverno de 1855-56 e voltaram a surgir em 1865. No final do século, a varíola era endémica nos bairros mais densamente povoados, matando mais de 200 pessoas por ano no Porto, e a peste bubónica atingiu a cidade em 1899. A oferta de trabalho atraía mão de obra das zonas agrícolas para os portos conserveiros, agravando a explosão demográfica. As doenças contagiosas eram responsáveis por 44,2% das mortes no país, e a tuberculose era especialmente comum entre os operários industriais. A epidemia de gripe de 1919, só por si, matou 100.000 pessoas em Portugal. Apesar das queixas dos cidadãos, a autoridade médica responsável pelas inspeções às fábricas era insuficiente para controlar as indústrias insalubres. As autoridades municipais metropolitanas estavam sobrecarregadas, pois os recursos não chegavam para as despesas públicas. O controlo central do Estado poderia ter sido eficaz, mas os requerimentos apresentados não conduziram a qualquer intervenção.

Como consequência, a intensa poluição provocada pela indústria conserveira dominava os horizontes urbanos. O número de fábricas aumentou de 188 para 400 entre 1917 e 1925, mas esse crescimento esgotou os recursos piscícolas. A regulamentação estatal procurava garantir que as pescas que sustentavam a indústria conserveira fossem ecologicamente sustentáveis a longo prazo.

17 Brandão, 1923. 
18 Archive of the Portuguese Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Sociedades Estrangeiras, Emile Louis Roullet. Stavins, 2007. 
19 Perman, R.; Ma, Yue; McGilvray, J., Natural Resources & Environmental Economics, New York, Longman, 1996. 
20 Lemos, 1991. 
21 Clarke, 2008. 
22 Moura et al, 1957, p. 61.  

17 Brandão, 1923.
18 Arquivo do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Sociedades Estrangeiras, Emile Louis Roullet. Stavins, 2007.
19 Perman, R.; Ma, Yue; McGilvray, J., Natural Resources & Environmental Economics, Nova Iorque, Longman, 1996.
20 Lemos, 1991.
21 Clarke, 2008.
22 Moura et al., 1957, p. 61.

Public Regulation

Regulação Pública

Maximizing the net benefits from the use of the biological resources is a good definition for economic efficiency allocation, considering the associated costs and benefits. From a static perspective, an efficient sustainable yield is a catch level that will produce the highest annual net profit, if maintained perpetually.26 Such a static-efficient sustainable yield allocation to canning has constant net benefits for constant catches, species’ populations, and effort levels. 

If fishing effort increases, a maximum sustainable yield will be attained for identical levels of net benefits, catches, and species’ populations.27 In a longrun perspective, fishing is motivated to increase until profit becomes zero. To maximize profit, a fisherman increased his fishing effort until marginal cost equalled price. As ocean fisheries were common-property with open-access, entry barriers did not exist, deterrence effects could not take place, leading to increased effort levels (Figure 1 presents thousand gross-registered tons of fishing boats). 

Maximizar os benefícios líquidos resultantes da utilização dos recursos biológicos é uma boa definição de eficiência económica na alocação, considerando os custos e benefícios associados. Numa perspetiva estática, um rendimento sustentável eficiente corresponde a um nível de captura que produza o maior lucro líquido anual, se mantido de forma perpétua.⁽²⁶⁾ Tal alocação estática de rendimento sustentável eficiente para a indústria conserveira proporciona benefícios líquidos constantes, com capturas, populações de espécies e níveis de esforço também constantes.

Se o esforço de pesca aumenta, atinge-se um rendimento máximo sustentável para níveis idênticos de benefícios líquidos, capturas e populações de espécies.⁽²⁷⁾ Numa perspetiva de longo prazo, a pesca tende a aumentar até que o lucro se torne nulo. Para maximizar o lucro, o pescador aumenta o seu esforço de pesca até que o custo marginal se iguale ao preço. Como as pescas oceânicas funcionavam como recursos de propriedade comum com acesso livre, não existiam barreiras à entrada, os efeitos de dissuasão não se faziam sentir, e os níveis de esforço aumentavam continuamente (a Figura 1 apresenta milhares de toneladas brutas registadas das embarcações de pesca).

Thanks to the technological improvements before the First World War, the marginal cost of fishing declined. The new equilibrium corresponding to the higher effort level must have been associated with increased catches, lower species’ populations and higher net benefits. 

Too much fishing effort with too many boats and too many fisheries was leading to overexploitation of resources and decreasing fish stocks damaging the future level of activity and profits of coming generations. 

Many things may be done to avoid unrestricted access to valuable species. The rationale for government intervention rests on the adverse economic consequences of depletion and overexploitation, as this implies lower income for fishermen, depression, and social crisis.28 

Graças aos avanços tecnológicos ocorridos antes da Primeira Guerra Mundial, o custo marginal da pesca diminuiu. O novo equilíbrio, correspondente a um nível mais elevado de esforço, terá sido acompanhado por um aumento das capturas, uma redução das populações de espécies e maiores benefícios líquidos.

Um esforço de pesca excessivo — com demasiadas embarcações e demasiadas pescarias — conduzia à sobreexploração dos recursos e à diminuição dos stocks piscícolas, comprometendo o nível de atividade e os lucros das gerações futuras.

Há várias medidas possíveis para evitar o acesso irrestrito às espécies valiosas. A justificação para a intervenção governamental assenta nas consequências económicas negativas da depleção e sobreexploração, pois estas implicam rendimentos mais baixos para os pescadores, depressão económica e crise social.⁽²⁸⁾

23 Moura, 1957, p. 62. 
24 Ferreira, 1990. 
25 Cascão, 1993. 
26 Tisdell, 1994: 240-242. 
27 Tientenberg, 2007: 217-240.
28 Morais, 1938.  

 

23 Moura, 1957, p. 62. 
24 Ferreira, 1990. 
25 Cascão, 1993. 
26 Tisdell, 1994: 240-242. 
27 Tientenberg, 2007: 217-240.
28 Morais, 1938. 

Alternative Regulations

Regulações Alternativas

Today it is common that a politicisation of the aquatic ecosystems addresses the regulation of coastal waters to avoid or limit the access of foreign fishing vessels to national waters, demanding public expenditure for naval surveillance and intervention. In Portugal, the adoption of Corporatism solutions sought to respond to several problems resulting from simple quota-systems for fishing or canning. 

Alternative systems could include a control mechanism based on raising taxes, or one based on individual quotas.38 Taxation might be seen as an approach to protect ecosystems, but it is inefficient, because of the perverse incentives to fish and work for more hours, to operate with more boats or enlarged plants or to adopt better equipment to increase fisheries and canning. If producers dislike taxation control-systems, they also eschew individual auctioned quotas. Producers who fail to reach their quota limits will sell them to others, who, having lower costs, soon discover that they may increase profits by enlarging their scale of production. It may be true that such a regulation system can improve technology, because those producers feel encouraged to adopt or introduce new cost-reducing equipment.39 In any event, producers will always trade (transferable) quotas until market equilibrium is reached, and all obtainable rent is realized by that generation of producers, unless the government decides to auction the quotas and appropriate the whole rent for the central state. Systems for controlling these practices are expensive and may encourage evasion and/or bribery. Bribes, corruption of deputies (or congressmen), and lobbying may have the same effect of defending the interest of producers, with externalities for the smaller ones. Moreover, the aim of government should be to help industry to reach and sustain an efficient level of catch and allocation to canning to sustain a perpetual industrial activity. 

The system adopted in Portugal in the 1930s did not solve all of the problems. Canning was a seasonal activity and this fact had consequences on the labour force, which was idle for much the year. Sardines, for example, have a better quality for canning during the five months around November. In 1935 the government forbade canning sardine from 1 January to 30 April in canneries located in the North of the country, 16 January to 15 May in canneries located in the centre, and 1 February to 30 May in canneries located in the south.40 This policy defines seasonal bans on fishing and processing, Vedas, as well as off-loading fish on weekends. The largest producers could take advantage of the down-time for repairing ships and nets, or improving production techniques, to make fishmeal an extremely profitable venture. 

Hoje em dia, é comum que a politização dos ecossistemas aquáticos trate da regulação das águas costeiras para evitar ou limitar o acesso de embarcações estrangeiras às águas nacionais, exigindo despesa pública com vigilância naval e intervenção. Em Portugal, a adoção de soluções corporativistas procurou responder a vários problemas decorrentes de sistemas simples de quotas para a pesca ou a indústria conserveira.

Sistemas alternativos poderiam incluir um mecanismo de controlo baseado no aumento da tributação ou outro baseado em quotas individuais. A tributação pode ser vista como uma abordagem para proteger os ecossistemas, mas é ineficiente, devido aos incentivos perversos para pescar e trabalhar mais horas, operar com mais embarcações ou fábricas ampliadas, ou adotar melhores equipamentos para aumentar as capturas e a produção conserveira. Se os produtores rejeitam sistemas de controlo baseados na tributação, também rejeitam as quotas individuais leiloadas. Os produtores que não atingem os seus limites de quota vendem-nos a outros que, tendo custos mais baixos, rapidamente percebem que podem aumentar os lucros ampliando a sua escala de produção. É possível que tal sistema regulatório melhore a tecnologia, pois esses produtores sentem-se incentivados a adotar ou introduzir novos equipamentos redutores de custos. Em todo o caso, os produtores tenderão sempre a negociar (quotas transferíveis) até que se atinja o equilíbrio de mercado, e toda a renda disponível seja apropriada por essa geração de produtores, a menos que o Estado decida leiloar as quotas e apropriar-se da totalidade da renda para o erário público. Os sistemas de controlo destas práticas são dispendiosos e podem encorajar a evasão e/ou suborno. Subornos, corrupção de deputados (ou parlamentares) e lobbying podem ter o mesmo efeito de defender os interesses dos produtores, com externalidades negativas para os mais pequenos. Além disso, o objetivo do governo deveria ser ajudar a indústria a atingir e manter um nível eficiente de captura e alocação à indústria conserveira, de modo a garantir uma atividade industrial perpétua.

O sistema adotado em Portugal nos anos 1930 não resolveu todos os problemas. A indústria conserveira era uma atividade sazonal e este facto tinha consequências sobre a força de trabalho, que ficava inativa durante grande parte do ano. As sardinhas, por exemplo, têm melhor qualidade para conserva durante os cinco meses em torno de novembro. Em 1935, o governo proibiu a conserva de sardinha de 1 de janeiro a 30 de abril nas conserveiras do Norte do país, de 16 de janeiro a 15 de maio nas conserveiras do Centro, e de 1 de fevereiro a 30 de maio nas conserveiras do Sul. Esta política definiu períodos de defeso para a pesca e o processamento, bem como a proibição do descarregamento de peixe aos fins de semana. Os maiores produtores podiam aproveitar o tempo de inatividade para reparar embarcações e redes ou melhorar técnicas de produção, tornando a produção de farinha de peixe numa atividade extremamente lucrativa.

38 Tientenberg, 2007: 230.
39 Stigler, 1968.  

38 Tientenberg, 2007: 230.
39 Stigler, 1968.  

To protect the species’ reproduction, regulation was enacted defining the minimum length of fish for canning (sardines no smaller than 12cm, for example, a two-year old fish). This control was already in place in the 1880s and continued throughout the twentieth century.4142 Government management of wharves and docks provided an opportunity for more surveillance over sanitary conditions of fish for canning, without onerous bureaucracy. 

Port captaincy licences to fish was also an alternative way to regulate the sector. However, there are many negative effects in such a system. As fishermen were paid according to the quantity of fish off-loaded, no wages were paid if they remained on land and no money was available for shops and markets in the communities.43 The policy of seasonal bans on canning mainly affected women, who were the dominant gender in this work, as they were more devoted to cooking activities, docile, and less well-paid.44 Women made up more than 80% of the labour force in canneries in the 1950s and 99% of the seasonally recruited labour force. Women were competing with men even to solder the cans, thanks to the introduction of new technology for this purpose. In Portugal, as in the USA, the loss of men’s jobs to machines and women brought success to unions and gender conflicts in the industrial labour-market, from the early twentieth century to the Second World War.45 

Some factories also canned other foods, namely vegetables and meat in olive oil, or fruits in sugar, as profitability criteria were dominating survival and business rationale. These policies stimulated managerial solutions to overcome the inconvenience of closed seasons. Following a diversified-product strategy, Fialho’s factories coupled fish canning with agricultural production and animal husbandry, and the subsequent canning of the vegetables and fruits, all “produced on his 16 farms, using cans that were made in his own locksmith workshop, and decorated in his own lithography shop to be packed in wooden crates from his own carpentry workshop”.46 

Para proteger a reprodução das espécies, foi implementada regulamentação que definia o comprimento mínimo do peixe para conserva (sardinhas com pelo menos 12 cm, por exemplo, correspondendo a um peixe com cerca de dois anos). Este controlo já existia na década de 1880 e manteve-se ao longo do século XX. A gestão governamental dos cais e docas proporcionava uma oportunidade de maior vigilância das condições sanitárias do peixe destinado à conserva, sem impor burocracia excessiva.

As licenças de pesca emitidas pelas capitanias dos portos foram também uma forma alternativa de regulamentar o setor. No entanto, existem muitos efeitos negativos num tal sistema. Como os pescadores eram remunerados de acordo com a quantidade de peixe descarregado, não recebiam salários se permanecessem em terra, o que resultava na ausência de dinheiro para gastar no comércio e mercados das comunidades locais. A política de períodos de defeso na indústria conserveira afetava sobretudo as mulheres, que constituíam a maioria da força de trabalho neste setor, por serem mais ligadas a tarefas culinárias, mais dóceis e com salários mais baixos. Na década de 1950, as mulheres representavam mais de 80% da força de trabalho nas conserveiras e 99% da força de trabalho sazonal. As mulheres competiam com os homens até nas tarefas de soldadura das latas, graças à introdução de nova tecnologia que permitia esta operação. Em Portugal, como nos EUA, a substituição dos empregos masculinos por máquinas e mulheres levou ao fortalecimento dos sindicatos e a conflitos de género no mercado de trabalho industrial, desde o início do século XX até à Segunda Guerra Mundial.

Algumas fábricas também conservavam outros alimentos, nomeadamente vegetais e carne em azeite, ou frutas em calda, já que os critérios de rentabilidade prevaleciam sobre os de sobrevivência e racionalidade económica. Estas políticas estimularam soluções de gestão para ultrapassar os inconvenientes dos períodos de defeso. Seguindo uma estratégia de diversificação de produtos, as fábricas de Fialho combinaram a conserva de peixe com a produção agrícola e a criação de animais, bem como a conserva subsequente de vegetais e frutas, todos “produzidos nas suas 16 quintas, utilizando latas fabricadas na sua própria oficina de serralharia e decoradas na sua oficina de litografia, para serem embaladas em caixas de madeira feitas na sua carpintaria”.

40 Decree nº 24947 (10 January 1935) , article 78. 
41 Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Direcção Geral do Commercio e Industria, Repartição do Trabalho Industrial (nº2), (Lisbon, Imprensa Nacional, 1905), p. 42 .
43 Morais, 1938. 
44 Moura et al, 1957 p. 66 mentions that the average female wage was about one half of the male average wages in the 1950s: 14$25 and 26$00, respectively. 
45 R. 1996: 196. For the USA, May, 1938.  

40 Decreto n.º 24947 (10 de Janeiro de 1935), artigo 78.
41 Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Direcção Geral do Comércio e Indústria, Repartição do Trabalho Industrial (n.º 2), (Lisboa, Imprensa Nacional, 1905), p. 42.
43 Morais, 1938.
44 Moura et al., 1957, p. 66 refere que o salário médio feminino correspondia a cerca de metade do salário médio masculino nos anos 1950: 14$25 e 26$00, respetivamente.
45 R. 1996: 196. Para os EUA, May, 1938.

Public Policies versus Managerial Initiatives

Políticas Públicas versus Iniciativas Empresariais

The Consórcio Português de Conservas de Peixe, (re-named União dos Industriais e Exportadores de Conservas de Peixe, by the Decree 24947) was the institution comprising all producers and exporters, watching over and improving production to ensure quality, establish minimum prices for domestic sales and exports, avoid predatory managerial policies, and decide on producers’ shares in the market. It also introduced strict rules on hygiene, preserving the environment, decreasing operation costs, and contributing to rationality and collective welfare. Other very important missions for The Union were the efforts in marketing, branding, protection against unfair competition, defining rules for labour-force protection, and the regular apportioning of raw-material to the sector.47 The enforcement was assured through a regime of severe penalties that included fines, temporary suspension of activity, or even forced closure.64 

The Portuguese seaports with canneries developed an exporter bourgeoisie from middle-class origins that became a genuine local oligarchy. Literature addressing historical cases in other countries observes that local oligarchies were living in elegant quarters of nearby regional capital cities, doing little effort to improve local conditions in the cannery seaports.65 Contrary to these situations, in Portugal most of the nineteenth-century canning families lived in the coastal cities where their factories were located.66 Canners made some efforts to improve the ecological impact of the fishmeal plants or improve social infrastructures. If not, the Portuguese cannery communities would have been slums, unacceptable to the wealthy families owing the firms.67 

Fishwashing water was recycled to produce oils, although they had limited use (because of odours acquired), but were used as lubricants for ships’ masts, animal harnesses, in the soap industry.68 The fish waste was also recycled in the production of fertilizers.69 However, collection and storage were in the open air, not always far from residential areas. Ca(OH)2 was added to accelerate the decomposition into humus, so that it could be used to fertilize soils. The Portuguese seaport of Setúbal, for example, had large stores of this kind of fertilizer, and even Lisbon, the Portuguese capital, had one.70 Government regulation also stipulated that fish wastes should be removed daily from the factories in the Portuguese seaports, in order to improve the urban centres’ sanitation.71 

The tin-waste, mentioned above, was also re-cycled. Using a pitchfork, the small pieces were collected in a cubic wooden box and beaten down with a mace. Two men were enough in the port city of Setúbal, the largest canning centre in Portugal until 1936, to do this.72 Removing the sides of the box revealed a cubic foot of compressed tin-plate pieces to be melted down and exported to produce toys.73 The polluter-pays-principle was at work.74 

O Consórcio Português de Conservas de Peixe (rebatizado como União dos Industriais e Exportadores de Conservas de Peixe pelo Decreto n.º 24947) foi a instituição que congregou todos os produtores e exportadores do setor, com a missão de supervisionar e melhorar a produção, garantir a qualidade, estabelecer preços mínimos para o mercado interno e para a exportação, evitar práticas empresariais predatórias e definir as quotas de mercado dos produtores. Também introduziu regras rigorosas de higiene, proteção ambiental, redução de custos operacionais e promoção do bem-estar coletivo e da racionalidade económica. Outras funções essenciais da União incluíam esforços na área do marketing, proteção das marcas, defesa contra concorrência desleal, definição de regras laborais e a repartição regular da matéria-prima no setor.47 A fiscalização era garantida por um regime de penalizações severas, que incluía coimas, suspensão temporária da atividade ou mesmo o encerramento forçado das fábricas.64

Os portos portugueses com fábricas de conservas assistiram ao desenvolvimento de uma burguesia exportadora de origem maioritariamente média, que se tornou uma verdadeira oligarquia local. A literatura que analisa casos históricos noutros países refere que as oligarquias locais tendiam a viver em bairros elegantes das capitais regionais, sem grande empenho em melhorar as condições locais dos portos conserveiros.65 Em Portugal, pelo contrário, a maioria das famílias conserveiras do século XIX vivia nas cidades costeiras onde estavam instaladas as suas fábricas.66 Os industriais tomaram algumas iniciativas para atenuar os impactos ecológicos das fábricas de farinha de peixe ou melhorar as infraestruturas sociais. Caso contrário, as comunidades conserveiras ter-se-iam tornado bairros degradados, inaceitáveis para as famílias abastadas proprietárias das fábricas.67

A água da lavagem do peixe era reciclada para produzir óleos que, embora tivessem utilizações limitadas (devido ao odor), eram aproveitados como lubrificantes para mastros de navios, arreios de animais e na indústria do sabão.68 Os resíduos do peixe eram igualmente reciclados para produção de fertilizantes.69 A recolha e o armazenamento, no entanto, faziam-se ao ar livre e nem sempre longe das zonas habitacionais. Adicionava-se hidróxido de cálcio (Ca(OH)₂) para acelerar a decomposição em húmus, utilizável na fertilização dos solos. O porto de Setúbal, por exemplo, dispunha de grandes armazéns deste tipo de fertilizante, e até Lisboa possuía um.70 A legislação determinava ainda que os resíduos de peixe deviam ser retirados diariamente das fábricas nos portos conserveiros, de modo a melhorar as condições sanitárias dos centros urbanos.71

O desperdício de folha-de-flandres, já mencionado, também era reciclado. Com a ajuda de um forcado, os pequenos pedaços eram recolhidos numa caixa de madeira cúbica e compactados com um malho. Dois homens bastavam, na cidade portuária de Setúbal — o maior centro conserveiro de Portugal até 1936 — para desempenhar essa tarefa.72 Removendo os lados da caixa, obtinha-se um bloco cúbico de folha-de-flandres prensada, pronto a ser fundido e exportado para a produção de brinquedos.73 O princípio do poluidor-pagador estava, assim, em funcionamento.74

46 Mata, 2009: 52. (Faria, 2001, cap. III). This firm survived until 1988, when it was bought by the American Heinz. 
47 On the advantages of firms’ coordination in clusters, see Chandler et al, 1998: 325.
64 Chapter X (articles 95-99) of the Decree 24947.
65 Clarke, 2008.
66  The Spanish-origin Ramirez & Cº Ltd always lived near the family plant, The Cumbrera & Cº,from 1853 on, Soares (2005), pp. 28, 30, 32.
67 Reis, 1988.
68 Ferreira (1906), p. 181.
69 Ferreira (1906), pp. 179, 180 for evidence on the period before 1914. Moura et al, 1957, p. 64 for twentieth-century evidence.
70 Fertilizer was sold at a price of about £3.1/ton ($15/ton or 14 milreis/ton) at the Pereira Lima fertilizers.
71 Article nº 82 of Decree 24947 (10 January 1935).  

46 Mata, 2009: 52. (Faria, 2001, cap. III). Esta empresa sobreviveu até 1988, quando foi adquirida pela multinacional americana Heinz.
47 Sobre as vantagens da coordenação entre empresas em clusters, ver Chandler et al., 1998: 325.
64 Capítulo X (artigos 95.º a 99.º) do Decreto n.º 24947.
65 Clarke, 2008.
66 A empresa de origem espanhola Ramirez & C.º Ltd viveu sempre nas proximidades da fábrica da família. O mesmo aconteceu com a Cumbrera & C.º, desde 1853. Ver Soares (2005), pp. 28, 30, 32. 67 Reis, 1988.
68 Ferreira (1906), p. 181.
69 Ferreira (1906), pp. 179, 180, para evidência relativa ao período anterior a 1914. Moura et al., 1957, p. 64, para evidência no século XX.
70 O fertilizante era vendido a um preço de cerca de £3,1/tonelada ($15/tonelada ou 14 mil-réis/tonelada) nos estabelecimentos Pereira Lima.
71 Artigo n.º 82 do Decreto n.º 24947 (10 de janeiro de 1935).

To appraise the effects of government regulation of the 1930s, many features related to explicit and control costs must be weighed.75 Portuguese historians long discussed the public regulation policies. As the 1920s were a very unstable period, the1930s’ abundant legislation, which imposed severe government regulation, must be studied and interpreted according to the tools of industrial and environmental economics.76 Most of the industrial sectors were included in the entrance-deterrence law that sought to limit excessive competition to Portuguese industries.77 This kind of regulation is frequently identified as a negative measure, because protection is inefficient. Historians also point out that the 1930s government policy resulted from the political power of industrial families in Portuguese society, and lobbying is recognized as a restriction to the market structure, reducing collective welfare, in comparison with free-entrance.78 Fish canning received special attention from the regulatory authorities.79 The 1930s regulation was imposed from the perspective of employment and social justice for disadvantaged groups, preventing competition to defend the firms’ survival in the Great Depression years and its aftermath.80 Moreover, economics literature shows that an oligopolistic market with firms generating high-quality products to compete among themselves for market share, and lobbying to try to overcome their rivals in looking after higher profits, can improve growth and welfare under general-equilibrium conditions, depending on the adjustments in the labour market.81 

From an international perspective, in the 1930s, the greater the difficulties facing the Spanish, French and Moroccan producers vis-à-vis the Portuguese canners, the better it was for the largest Portuguese firms. It is well-known that one country’s production constricted the other countries’ market shares, and vice-versa. The Spanish Civil War was a new opportunity for exporting Portuguese canned goods, as was the Second World War. Not only was the main competitors’ production ravaged, but the increased international demand brought in a new boom for Portuguese canners. 48 In the next decades, regulatory inspections became ineffective, bureaucracy grew out of control, and historians recognize that public policies failed, as the factories implemented their initiatives without authorisation.49 This means that external and agglomeration economies could work, as operators were enacting independent decisions to expand along the Atlantic coast and to relocate in the Portuguese seaports, according to Krugman’s analysis.50 The petitions for government authorisation reflected this desire to benefit from clustering, and the authorisations granted simply confirm the trend.51 

Para avaliar os efeitos da regulamentação governamental dos anos 1930, é necessário ponderar muitos aspetos relacionados com custos explícitos e de controlo.⁷⁵ Historiadores portugueses debateram durante muito tempo as políticas de regulamentação pública. Como a década de 1920 foi um período muito instável, a abundante legislação dos anos 1930, que impôs uma regulamentação governamental rigorosa, deve ser estudada e interpretada com recurso às ferramentas da economia industrial e ambiental.⁷⁶ A maioria dos sectores industriais foi abrangida pela lei de dissuasão à entrada, que procurava limitar a concorrência excessiva às indústrias portuguesas.⁷⁷ Este tipo de regulamentação é frequentemente identificado como uma medida negativa, pois a proteção é ineficiente. Os historiadores também assinalam que a política governamental dos anos 1930 resultou do poder político das famílias industriais na sociedade portuguesa, sendo o lobbying reconhecido como uma restrição à estrutura de mercado, que reduz o bem-estar coletivo em comparação com a entrada livre.⁷⁸ A indústria conserveira recebeu especial atenção das autoridades reguladoras.⁷⁹ A regulamentação dos anos 1930 foi imposta numa perspetiva de emprego e justiça social para grupos desfavorecidos, prevenindo a concorrência para proteger a sobrevivência das empresas durante os anos da Grande Depressão e no seu rescaldo.⁸⁰ Além disso, a literatura económica demonstra que um mercado oligopolista com empresas a produzirem bens de alta qualidade para competirem entre si por quotas de mercado — e a recorrerem ao lobbying para ultrapassar rivais na procura de maiores lucros — pode promover o crescimento e o bem-estar sob condições de equilíbrio geral, dependendo dos ajustamentos no mercado de trabalho.⁸¹

Numa perspetiva internacional, nos anos 1930, quanto maiores as dificuldades enfrentadas pelos produtores espanhóis, franceses e marroquinos face aos conserveiros portugueses, melhor para as maiores empresas portuguesas. É bem conhecido que a produção de um país limitava as quotas de mercado dos outros, e vice-versa. A Guerra Civil Espanhola representou uma nova oportunidade para a exportação dos produtos portugueses, tal como a Segunda Guerra Mundial. Não só a produção dos principais concorrentes foi devastada, como o aumento da procura internacional gerou um novo boom para os conserveiros portugueses.⁴⁸ Nas décadas seguintes, as inspeções regulatórias tornaram-se ineficazes, a burocracia cresceu descontroladamente, e os historiadores reconhecem que as políticas públicas falharam, pois as fábricas implementavam as suas iniciativas sem autorização.⁴⁹ Isto significa que as economias externas e de aglomeração puderam funcionar, à medida que os operadores tomavam decisões independentes para se expandirem ao longo da costa atlântica e se relocalizarem nos portos portugueses, segundo a análise de Krugman.⁵⁰ Os pedidos de autorização governamental refletiam este desejo de beneficiar da concentração industrial, e as autorizações concedidas confirmavam simplesmente esta tendência.⁵¹

72 Matosinhos would take the first position from then to now. Moura et al, 1957, p. 62.
73 Tin plate waste was sold at the price of £2.7/ton (about$13/ ton or 12 milreis/ton). Ferreira (1906), p. 183.
74 Tisdell, 1993:240, 242.
75  Callan & Thomas, 2000: 237-250.
76 Field, 1997:179-190.
77  Decree 19354 of 01-03-1931.
78 Brito, 1989. Confraria, 1992.
79  Decree 24947 of 01-10-1935.
80 On moral aspects and justice see Chapman: 79.
81 Pereto, (1996, 1998). Júlio, 2008. 

72 Matosinhos assumiria a primeira posição a partir de então até à atualidade. Moura et al, 1957, p. 62.
73 Os resíduos de folha-de-flandres eram vendidos ao preço de £2.7/ton (cerca de $13/ton ou 12 mil-réis/ton). Ferreira (1906), p. 183.
74 Tisdell, 1993: 240, 242.
75 Callan & Thomas, 2000: 237-250.
76 Field, 1997: 179-190.
77 Decreto 19354 de 01-03-1931.
78 Brito, 1989. Confraria, 1992.
79 Decreto 24947 de 01-10-1935.
80 Sobre aspetos morais e justiça ver Chapman: 79.
81 Pereto, (1996, 1998). Júlio, 2008.

Conclusion

Conclusão

As the size of fish stocks is jointly determined by oceanographic biology and management decisions for production levels in the fishing and canning industries, technological improvements impacted the rate of depletion of ocean resources. The species of fish particularly desirable for canning were overfished in some periods, threatening the ecosystems in a variety of ways, including depletion and pollution (land, air and sea), and giving origin to business crises in the sector. Technological improvements stimulated economic links, particularly to the shipbuilding industry, and entrepreneurs’ pursuit of profits put ecosystems under great stress, as booms and contractions were extended from the fishmeal industry to shipyards. The First World War stimulated canning so strongly that mature open-access fisheries were severely exploited, putting Portugal into the rankings of fishing and canning nations. Fishing and canning represented an assault upon the ecosystem resources and polluted the coastal bays through the run-off of blood from the factories. 

The need to reduce the pressure on biological resources and sustain the economic activity in the long run is obvious. Fishermen, canners, local authorities and central government were the main actors, using their own strategies. Entrepreneurs bought larger boats, built more plants, reinvested in raw-materials, promoted the marketing and branding of their high-quality produce, and took measures to control refuse.52 The government performed a role in regulating and organizing the sector for business survival, shortening fishing seasons, minimizing damage to the ecosystem, and preserving jobs. The methods to reach these goals were difficult to implement and control by government, but business rationality always created managerial abilities that overcame the challenges. 

Producers performed an important role in disposing of human and industrial wastes and building local infra-structures to control pollution, such as sewer systems and potable water provision. Canning was thus an inventive sector. 

Como a dimensão dos stocks de peixe é determinada conjuntamente pela biologia oceanográfica e pelas decisões de gestão dos níveis de produção das indústrias da pesca e da conserva, as melhorias tecnológicas tiveram impacto na taxa de esgotamento dos recursos oceânicos. As espécies de peixe particularmente desejadas para conserva foram sobrepescadas em determinados períodos, ameaçando os ecossistemas de várias formas, incluindo o esgotamento e a poluição (do solo, do ar e da água), originando crises empresariais no setor. Os avanços tecnológicos estimularam os vínculos económicos, em especial com a indústria da construção naval, e a busca de lucros por parte dos empresários colocou os ecossistemas sob enorme pressão, à medida que os ciclos de expansão e contração se estendiam da indústria conserveira aos estaleiros navais. A Primeira Guerra Mundial estimulou de forma intensa a produção conserveira, ao ponto de as pescarias maduras de livre acesso terem sido severamente exploradas, colocando Portugal nos primeiros lugares do ranking das nações pescadoras e conserveiras. A pesca e a conserva representaram um assalto aos recursos dos ecossistemas e poluíram as baías costeiras com a descarga de sangue proveniente das fábricas.

É evidente a necessidade de reduzir a pressão sobre os recursos biológicos e sustentar a atividade económica a longo prazo. Pescadores, conserveiros, autoridades locais e governo central foram os principais intervenientes, adotando as suas próprias estratégias. Os empresários compraram barcos maiores, construíram mais unidades fabris, reinvestiram em matérias-primas, promoveram o marketing e a marca dos seus produtos de elevada qualidade, e tomaram medidas para controlar os resíduos.⁵² O governo desempenhou um papel na regulação e organização do setor para garantir a sobrevivência do tecido empresarial, encurtando as épocas de pesca, minimizando os danos ao ecossistema e preservando os postos de trabalho. Os métodos para alcançar estes objetivos eram difíceis de aplicar e controlar por parte do Estado, mas a racionalidade empresarial gerava sempre capacidades de gestão que superavam os desafios.

Os produtores desempenharam um papel importante na eliminação dos resíduos humanos e industriais, bem como na construção de infraestruturas locais para controlar a poluição, como sistemas de esgotos e fornecimento de água potável. A indústria conserveira foi, assim, um setor inventivo.

48 According to Barbosa, 1941, WWII brought a local 41 thousand tons maximum of exports. 
49 Brito, 1989. Confraria, 1992. Brito, 2004. 
50 Krugman, 1995. 
51 Moura et al, 1957, pp. 73-74.  

48 De acordo com Barbosa, 1941, a Segunda Guerra Mundial trouxe um máximo local de 41 mil toneladas de exportações.
49 Brito, 1989. Confraria, 1992. Brito, 2004.
50 Krugman, 1995.
51 Moura et al, 1957, pp. 73-74.

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