Boletim da Associação Comercial e Industrial de Setúbal nº 9

30 Setembro 1912

Número 9

Exposição realizada na Associação Comercial e Industrial de Setúbal

1ª série

Biblioteca Nacional de Portugal

Cota: C.G. 999 V.

Exposição industrial e agrícola do concelho

Boletim da Associação Comercial e Industrial de Setubal, 1.ª série, n.º 9, 30 de setembro de 1912.

Conforme tinha sido deliberado, em assembléa geral, collaborou esta associação nas festas da cidade, promovendo, nas salas da sua séde provisoria, uma exposição dos produtos industriaes e agricolas do nosso concelho.

Foi, como sempre se declarou, um pequeno ensaio, cujo objectivo era mostrar a todos os nossos conterraneos quanto esta associação deseja trabalhar para se tornar util aos seus consocios e fazer progredir e prosperar esta formosissima terra a que, pela sua situação geografica e pela fecundidade uberrima do seu solo, está assegurado o mais brilhante futuro.

Quem tem viajado, observe e estude o que lá por fóra se passa, sabe que nunca em Setubal se poderá organisar uma exposição internacional, mas promptamente reconhece que se poderão vir a efetuar aqui importantissimas exposições regionaes em que os nossos frutos, as nossas conservas e os nossos vinhos atrairão a visita aos commerciantes estrangeiros d’estas especialidades.

Precisamos terrenos em mais um ou dois ensaios, afim de que, por occasião da abertura á exploração do Caminho de Ferro do Vale do Sado, possamos realizar uma exposição que serão convidados a visitar os commerciantes francezes, alemães, italianos, etc., de conservas e os commerciantes inglezes de frutas e de vinhos.

Temos prometida a sua vinda e garantida as suas vantagens.

O Caminho de Ferro do Vale do Sado abrirá um vasto campo á nossa actividade. O Esteiro de Marateca, hoje pantanoso e mortifero, transformar-se-ha, por um intelligente regimen d’aguas, que dissecará os paúes e irrigará as cumiadas, em fertilissimo vergel, prenhe de frutas e flores, exhuberante de todos os mimos que adornarão as mezas faustosas dos opulentos vapores que o Sado visitarão.

Todas as industrias locaes se desenvolverão, tendo garantido, pelo transporte rapido e economico da sua via ferrea, o mercado do Baixo Alentejo, essa vastissima região do pão e da cortiça, formada por seis concelhos, com uma população dispersa de 70:000 habitantes, consumidores avidos dos primores que a natureza produz e das variadissimas utilidades que a industria faculta.

Precisamos acordar energias e dirigir iniciativas e para tal nada ha como as exposições, escolas praticas e seguros, d’um trabalho intelligente e d’uma acção remuneradora.

Está n’isto a honestidade do nosso objectivo, conscientes como estamos de que os povos só se engrandecem pelo trabalho e dignificam pelas virtudes civicas.

Relatorio da Comissão Executiva da EXPOSIÇÃO INDUSTRIAL e AGRICOLA

Na ultima assembléa geral da nossa associação, nomeiou-se uma comissão que devia tratar da organisação de uma exposição industrial e agricola que marcará o inicio propriamente pratico da vida industrial e agricola do nosso concelho.

Instalada a comissão deu-se principio aos trabalhos que, diga-se de passagem, poucos foram, e até alguns membros da dita comissão se sentiram invadidos pelo desanimo em vista do quasi abandono ou indiferença a que chegou a idéa de se fazer uma tal exposição. Seria por desconhecimento dos resultados de uma exposição em ordem ou pela indiferença a que o nosso meio é tão sujeito? Seja como fôr. O certo é que, vencidas algumas dificuldades que sempre ha, deu-se começo aos trabalhos que nos estavam cometidos.

Devemos aqui dizer que pequeno foi o nosso ensaio mas de forma a orgulhar-nos tanto pela sua rapida organisação como pelos resultados obtidos que foram alem de toda a espectativa.

A’ nossa pequena exposição concorreram poucos expositores, é certo, mas todos os artigos expostos foram bem acolhidos e apreciados pelo publico, tanto pela boa apresentação, que obedeceu mais a um esforço de momento do que á boa estetica, como á sua boa qualidade, pois no nosso concelho ha ainda muitas cousas dignas da mais larga apreciação.

Aqui vieram desde os delicados trabalhos femininos em bordados, rendas a bilros, confecções de chapeus, pintura e doçaria, até aos melhores produtos da nossa industria local, conservas de peixe em azeite; peixe salgado, meta-lurgia, correaria, chapelaria, sapataria, litografia, construção naval, latoaria, encadernação, farinhas, frutas, cortiça, pintura, fotografia, etc.

Representavam-se largamente as melhores marcas de conserva das antigas fabricas já de muitos conhecidas e acreditadas e ainda muitas das novas que com os seus desejos de progredir vieram a este certamen marcar mais um ponto na grande marcha da mais rica industria da nossa terra. Sentimo-nos enthusiasmados perante tantos e tão variados produtos da actividade do nosso meio e dificil seria a tarefa da sua descripção minuciosa se tivessemos a pretensão de os descrever. E assim, meus senhores, devemos dizer-lhes que, a par da muita boa vontade que os membros da comissão organisadora da exposição tiveram de conseguir fazer uma exposição regular, esta surgiu relativamente boa, em razão da indiferença inicial se ter tornado em enthusiasmo e por isso vemos com satisfação que os nossos esforços aplicados com metodo deram o excellente resultado de agradar.

Não devemos aqui deixar esquecidos que á falta de tempo e propaganda se devem em parte as deficiencias da nossa exposição, mas não queremos deixar de salientar que algumas industrias bem locaes se não fizeram representar por esperarem que do nosso pequeno ensaio sahisse fiasco! Quiz porém o acaso que muitos se arrependessem, pois pode dizer-se sem exagero que quem nos visitou ficou satisfeito com a nossa iniciativa por esta ter atingido o maximo de conjunto ainda que modesto.

Queremos tambem accentuar aqui que certamens d’esta natureza demandam muito trabalho e alguma despeza, e que a nossa comissão, sem ter credito algum aberto, realisou algumas despezas, se bem que economicamente trabalhou, esperando que os esclarecidos conhecimentos de V. Ex.as as sancionará, para fechar com chave de ouro a primeira exposição promovida pela Associação Comercial e Industrial de Setubal.

Alem d’isto a nossa comissão pensando um pouco na compensação a dar aos concorrentes que de tão boa vontade nos vieram honrar, honrando-nos com os diferentes produtos aqui expostos, lembra que a cada um seja dada uma pequena lembrança, mandando esta assembléa que se imprima um novo diploma com a chapa d’aquele que a cada socio pertencerá pela lei da nossa organisação, mas de côres diferentes e outros dizeres só relativos á exposição e assinado pela comissão, que vincule no futuro a recordação do que foi o certamen industrial que aqui se realisou.

Setubal, 27 de setembro de 1912.

Cassiano Augusto Coelho. Joaquim Candido Nunes e Silva. Horacio da Fonseca Moraes.

Exposição realisada na Associação Comercial e Industrial de Setubal

Relação dos expositores

GRUPO A — Arte ornamental

Rondas a bilro, expositora D. Etelvina das Mercês Paulo, rua Ladislau Picarra, 45.

Rendas e outras guarnições, D. Beatriz Olympia da Fonseca Duarte.

GRUPO B Conservas

João Marques Cancio, marcas “Les Hortenses” – Rua do Mercado

Figueira & Cª, marcas “La Chance“, “Céres“, “Alpha“

Santos & Cunha, “Arlette“

Mariano Lopes & Cª, marcas “Branc Annes“, “Arrabide“, “Galia”, “Les Convoités“, “Les six amis“

A. Leite Ferreira & Cª

Bonifácio Lazaro, “La Maria“

GRUPO U Litografia

Batista, Rafael & Cª – lata estampada para fabricas de conserva

GRUPO C — Vinhos: Moscatel, Palmela e aguas mineraes

José Maria da Fonseca, successores, Azeitão.

J. A. Fernandes, «Gaiato», «Tinto especial».

A. Ferreira Alves Passos, «Moscatel» e «Bastardinho».

Manuel Severino Prompto.

A. Dias, «Aguas de Valle Formoso», engarrafadas.

GRUPO D — Doces

D. Maria da Esperança Cancella, successora de D. Maria Xavier Cobellos, laranjas.

D. Adelaide Moniz Albiço, marmelada e ovos.

D. Julia de Mattos Alves, laranjas.

GRUPO E — Metallurgia

Associação de Classe dos Operarios Metallurgicos, quadro com diversas ferramentas.

Candido & Ribeiro, um cunho e uma fieira com diferentes moldes de lata.

GRUPO F — Modelos de «Construção Naval» em miniatura

João Augusto Mendes, um barco, duas fragatas feitas para a casa Bensaude & C.ª e um barquinho tripulado.

Joaquim Marques da Costa, uma galeota, uma canhoneira a vapor.

GRUPO G — Gaiolas

A. Dias, da casa Pinto & Quintans, cinco gaiolas em madeira e arame.

GRUPO H — Calçado

Oficina Livre, R. Bocage 27 e 29, dois pares de sapatos para senhora e um par de botas para caçador, modelo usado pelo fallecido medico dr. Manuel Bento de Souza.

GRUPO I — Latoaria

A. M. Nicolau Ribeiro — uma urna de folha.

GRUPO J — Trabalho em madeira

Eduardo Diniz Ribeiro — um kiosque chinês.

GRUPO K — Pintura sobre seda

D. Leonor A. de M. Portella — 1 almofadão e 3 sachets.

José Maria da Silva — 2 almofadões.

GRUPO L — Pintura a oleo

Camara Municipal de Setubal — 1 quadro representando o Portico do Mosteiro de Jesus, de João Vaz.

José Maria da Silva — os quadros: «Pôr do Sol», «Manhã de Nevoa», «Calmaria», «Na Ribeira», «A volta da cidade», «Paisagem», «Ruinas do convento dos Capuchos», «Jarra com flôres», «Torre da igreja de Jesus», «Preparando a pesca» e «Pedra da Esguelha».

GRUPO M — Encadernações

Bric á-Brac, Sant’Anna — diversos livros encadernados.

GRUPO N — Bordados

D. Eugenia Cardoso Passos — um almofadão.

D. Miquelina Cardoso Passos — bordado a matiz aplicado em tule, e um bordado a branco aplicado sobre espelho.

D. Virginia Guimarães Nascimento — dois almofadões a matiz e aplicações de pontos e uma rêde enfeitada.

GRUPO O — Chapelaria

Duarte Mendes — diversos modelos de chapeus de feltro, em miniatura.

GRUPO P — Chapeus de senhora

D. Maria José Pinto Guimarães e Silva — trez artisticos chapeus.

GRUPO Q — Correaria

Correaria Costa — uma sella e varios artigos para cavalaria.

GRUPO R — Farinhas

Antonio José Batista, Successores — farinhas e semeas.

GRUPO S — Frutas

Salvador Matias — uvas moscatéis, uvas ferras, peras, peras francezas e lambe os-dedos.

GRUPO T — Cortiça

Horacio da Fonseca Moraes — quadros para rolhas, cortiça em fardos, prancha, cortiça virgem.

GRUPO U — Litografia

Batista, Rafael & C.ª — lata estampada para fabricas de conserva.

GRUPO V — Fotografia

M. Aldegallega — Um quadro com diversas fotografias.

Bibliografia

Boletim da Associação Comercial e Industrial de Setubal, n.º 9, p. 11.

Recebemos o Relatorio da Associação Comercial do Porto, referente ao ano de 1911.

Esta importante coletividade que conta 77 anos de existencia tem prestado á cidade do Porto e ao paiz os mais relevantes serviços.

Acidentada foi a gerencia de 1911 porque com ela coincidiu a entrega, por ordem do governo provisorio, do seu edificio social, o Palacio da Bolsa, á Camara Municipal do Porto.

Neste palacio, que nenhum visitante da invicta cidade deixa de ir admirar, achavam-se instalados além da séde da associação, a Bolsa do Porto, a Escola Elementar do Comercio e as diversas repartições dos serviços a cargo da mesma associação, taes como Obras da Barra, Telegrafos e Semaforos commerciaes, Estação de Saude e Porto maritimo de desinfecção de Leixões.

O Relatorio, que compulsamos com toda a atenção, está cheio de dados interessantissimos para o estudo e apreciação da intensa vida comercial da importante capital do norte.

Agradecemos a oferta.

Recebemos o n.º 7 do Boletim da Propriedade Industrial.

Nele se encontram entre muitos outros os seguintes pedidos de registos de marcas:

N.º 15.024 — classe 62.ª
Pierre Chancerelle.
Latas para sardinhas em conserva «Cuirassé».

N.º 15.034 — classe 62.ª
Guilherme Graham Junior & C.ª
Latas para sardinhas em conserva «Dreadnought».

N.º 15.074 — classe 62.ª
Loy & Companhia.
Latas para sardinhas em conserva, «Bijou Brand».

N.º 15.078 — classe 62.ª
Vian­na Leal & Comandita, Limitada.
Latas para sardinhas em conserva.

N.º 15.082 — classe 62.ª
E. Bartholomã.
Latas para sardinhas em conserva «Roulette Brand».

N.º 15.083 — classe 62.ª
Pedro, Callé & C.ª
Latas para sardinhas em conserva «Juliette».

N.º 15.084 — classe 62.ª
Ramos Reynaud & C.ª
Latas para sardinhas em conserva «Marguerite».

Neste mesmo numero do Boletim vem o aviso da concessão de desistencia da propriedade marca pedida pela firma Benzinho & Ribeiro.

Algumas destas marcas são duns formosissimos desenhos.

Egualmente recebemos o n.º 234, referente a 31 de julho de «Les Marques Internationales» supplement da «Propriété Industrielle» que muito agradecemos.

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