
Exposição Industrial do Porto 1865
Catalogo official da Exposição Industrial do Porto 1865
#EXP INDUSTRIAL PORTO 1861
CIDADE / CITY: Porto – Oporto
LOCAL / PLACE: Palácio da Bolsa
ORGANIZAÇÃO / ORGANIZATION BY: Associação Industrial Portuense
Jorge Fernandes Alves – As Exposições Industriais no Porto Oitocentista.
In O mundo ibero-americano nas Grandes Exposições, edição de Mourão, J.A., Matos, A. M. C. de, Guedes, M., p. 165-176. Republicado in O Tripeiro, 7.ª série, ano XVIII, n.º 3, 1999, p.69.97.
1865
No regresso dessa viagem, vindo de Braga para Lisboa, D. Pedro V passa de então de novo pela exposição e vai inaugurar a construção empreendida pela Sociedade do Palácio de Cristal Portuense, assinando um auto e “lançando um punhado de terra em um carrinho de serviço”, no local que lhe estava destinado: os terrenos da Torre da Marca.
Qual era o objectivo desta sociedade? Nada mais do que a criação de um palácio que, à semelhança do Palácio de Cristal londrino, fosse destinado a exposições de diversa índole (agrícolas, industriais, comerciais, artísticas). Pretendia-se um espaço amplo para as exposições, que seria rodeado de parque, jardins, plantas exóticas e aves, havendo projectos para espectáculos, academia e banda de música. Mas o Palácio de Cristal não derivou do seio industrial (embora a direcção da Associação Industrial Portuense apoiasse a iniciativa), antes nasceu originalmente da Sociedade Agrícola do Porto (muito pelo entusiasmo de Alfredo Allen), agregando pessoas de valia “pela sua posição, fortuna e patriotismo”, isto é, associou executivos da Câmara Municipal (que trataram de ceder terrenos municipais proceder às expropriações restantes), entusiastas da agronomia, académicos e “brasileiros” (como emigrantes de retorno endinheirados). Talvez a razão de, felizmente, ter predominado a preocupação estética sobre a da funcionalidade, surgindo um palácio ajardinado que perdurou em vez de barracões transitórios.
Os problemas de construção do Palácio, uma iniciativa totalmente privada, não foram pequenos, pois íam desde as dificuldades com as expropriações ao pouco entusiasmo na subscrição das acções, que nunca foram subscritas na totalidade, falhando os dois grandes grupos nos quais se colocavam maiores esperanças: o da colónia de emigrantes no Brasil, em litígio com o governo por causa da questão consular do Barão de Moreira, mas também em período de queda cambial; uma grande parte de “capitalistas importantes do Porto, cujo nome não se encontrou nunca na lista dos accionistas” por considerarem a empresa “como desnecessária e arriscada” 8. Mas a história das dificuldades de construção do Palácio de Cristal Portuense já é conhecida, escrita que foi por um dos seus protagonistas – o Conde de Samodães.
É ainda do seio da direcção da Sociedade do Palácio de Cristal que parte a iniciativa da inauguração do edifício em 1865 com uma exposição internacional. Onde reside o problema desta decisão? No facto de não ter na devida conta a crise que a indústria têxtil, largamente preponderante no Porto, atravessava por esta altura, devido à “fome de fio” ocasionada pela guerra da Secessão nos Estados Unidos e a consequente rarefacção da oferta de algodão no mercado mundial. Os despedimentos e a miséria operária tinham-se agravado substancialmente desde 1863, pelo que a exposição, com o seu fausto, não encontrava a conjuntura propícia 9. Compreendem-se, assim, as ausências significativas de industriais do Porto, principalmente da têxtil, tanto na exposição, como na distribuição de mercês honoríficas concedidas pelo rei a quem se empenhou no processo da Exposição, bem como a demonstração da sua animosidade neste contexto.
Além disso, havia que superar o cepticismo de alguma imprensa, principalmente lisboeta (vd. Jornal do Comércio) mas também portuense (vd. Jornal do Porto), que duvidava da capacidade de ombrear com a França e a Inglaterra e recomendava por exemplo apenas uma exposição peninsular ou até o adiamento: não havia locais de hospedagem, os transportes eram maus, o Palácio não era suficientemente amplo para acolher os estrangeiros, excesso de deslumbramento e desconhecimento do estado industrial do País, ou até os incómodos e perigos da invasão de estranhos para os habitantes da cidade, o risco de descrédito internacional, eram alguns dos argumentos apresentados de entre uma longa lista. O Jornal do Porto que combateu com forte argumentação a Exposição Internacional concluía: (…) a festa da inauguração do Palácio de Cristal deve unicamente limitar-se a uma exposição Industrial Portuguesa. É esta unicamente que comportam as actuais circunstâncias do Porto e do Palácio de Cristal”10. Outros só lhe viam utilidade no policiamento da Cidade, pois a polícia civil foi criada pela primeira vez em Portugal pelo Governo Civil do Porto precisamente para a segurança pública ao tempo da Exposição de 1865 e só depois foi institucionalizada!
Inaugurada (18.9.1865) e encerrada (2.2.1866) pelo rei D. Luís, a exposição contabilizou cerca de 4300 expositores, distribuídos por quatro grandes divisões (matérias-primas, máquinas, produtos manufacturados e belas-artes), além de incluir uma exposição suplementar de agricultura e horticultura (5 a 15 de Outubro). Foi uma exposição organizada com grande cuidado burocrático: circulares de apoio governamental distribuindo instruções aos diversos serviços, classificação previamente estabelecidas de produtos em grandes divisões e estas em classes, instruções minuciosas aos expositores. Terá sobrado em organização (onde se notava a influência de gente da Escola Politécnica), o que faltou em empenhamento empresarial local! Embora viessem expositores de mais de 25 estados estrangeiros, o grande destaque foi para a França, com 499 expositores, país que aproveitou para dar uma imagem muito positiva da sua indústria, a qual não terá sido alheia ao acordo comercial lusofrancês realizado no ano seguinte, a que muitos atribuíram um efeito penalizador à nossa indústria.
A ressaca da construção apressada do Palácio, que obrigou a um empréstimo bancário que pesoumduradouramente nas contas da Sociedade (para além dos sacrifícios de alguns accionistas maismentusiastas que aplicaram grande parte das suas economias em acções que nunca geraram dividendos), levou o Porto a esquecer durante largos anos a ideia de grandes exposições, embora o Palácio tenha funcionado como espaço adequado para pequenas exposições específicas (artísticas, hortícolas, fotográfica) de impacto apenas local, bem como espaço de lazer que se tornou num ex-libris da Cidade.

Catalogo official da Exposição Industrial do Porto 1865
Exposição Industrial do Porto 1865 – 1865 Porto Industrial Exhibition

As Exposições Industriais no Porto oitocentista
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