Artigo "Setúbal da Ilusão à Realidade"

Segundo reza a tradição, a origem de Setúbal remonta a tempos pré-históricos, imemoriais. Anda um tudo-nada vizinha das brumas do dilúvio universal, ao aceitarmos a intervenção acidental de um neto do patriarca Noé, de nome Tubal, a quem se atribui a fundação da esbelta rainha do Sado.

Pelos vistos, este venerando ancião, que partira dos pátrios lares em busca de terras mais promissoras, enamorou-se de tal forma das graças panorâmicas da formosíssima baía do Sado que aqui se fixou, erguendo uma povoação que, com o correr dos tempos, haveria de transformar-se numa das mais belas cidades portuguesas.

Não nos diz a lenda se o parente de Noé trouxe consigo os preciosos bacelos que mais tarde haveriam de produzir o delicioso moscatel de Setúbal, mas não nos custa acreditar que fosse ele o insigne vinicultor, conhecendo-se, pela tradição, o fervoroso culto que a família de Tubal tributava à divina vide e aos seus derivados.

E pode ser que a ele se deva também a incomparável excelência das laranjas setubalenses. Se assim fosse, parecer-nos-ia manifesta ingratidão não terem canonizado São Tubal como generoso orago de terra tão pródiga.

O certo é que Setúbal é hoje o maior centro produtor de conservas do país e, como tal, vem hoje a revista «Conservas» apresentar-lhe as suas homenagens. Nem só a terra lhe prodigaliza ubérrimos e deliciosos frutos; também o mar a brinda com peixe abundante e de qualidade tão excelente que contribuiu para alargar a fama que Setúbal já gozava como terra privilegiada pela excelência dos seus produtos.

Em tudo lhe foi pródiga a Natureza.

«Então, e essas conservas, como vão? Com um consórcio, propaganda, preços mínimos, direitos de exportação abolidos, os industriais estão como querem, vendendo e ganhando o que querem… E, depois, desde que a Itália se lembrou de investir na Abissínia, não devem ter mãos a medir…»

É, mais palavra menos palavra, este o discurso que, à queima-roupa, nos dispara qualquer interlocutor ao dobrar de uma esquina.

Se, refeitos do primeiro momento de surpresa, lhe objectamos que a Itália, embora necessitando de conservas, não as compra, por não poder (ou não querer) pagá-las antecipadamente, olha-nos de soslaio.

Se, continuando, esclarecemos que a abolição dos direitos de exportação sobre as conservas constituiu uma compensação dada à indústria, por motivo da supressão do «drawback» sobre os azeites e óleos, e que os preços mínimos só em casos pouco frequentes — contudo, de grande abundância de pesca, com sardinha muito barata — deixam algum benefício, porque, fora disso, geram prejuízo, ri-se, incrédulo.

Se, insistindo, aduzimos, finalmente, que as vendas são cada vez mais difíceis em razão das restrições de toda a ordem adoptadas pelos diversos países — primeiro a França, estabelecendo o regime dos contingentes; depois a América, inventando um qualquer quebra-cabeças para o qual ainda não foi encontrada solução satisfatória; e, por último, a Alemanha, descobrindo o curioso processo de fazer ministrar as conservas, à laia de remédio, por meio de conta-gotas… —; que o encargo de $25 por quilo cobrado para o Consórcio veio romper o equilíbrio que se procurou e alcançou aquando da supressão do «drawback», dificultando ainda mais a já difícil vida da indústria; e que a propaganda, tendo sido limitada até agora ao País, nenhuns efeitos produziu (nem podia produzir) no estrangeiro, volta-nos as costas e afasta-se.

Não nos acredita!

E, todavia, apesar de tudo quanto em contrário se possa julgar, a indústria das conservas, açoitada pela rija ventania que inclementemente sopra, atravessa o momento mais grave da sua existência!

Scroll to Top