
1936 Apontamentos sobre a Vila de Peniche
Album 1936 – Apontamentos sobre a Vila de Peniche e as suas industrias – CAPÍTULO III – A INDÚSTRIA DAS CONSERVAS
TÍTULO: Apontamentos sobre a Vila de Peniche e as suas industrias
AUTOR: IPCP – Instituto Portugues de Conservas de Peixe
DATA 1: 1936
EDITORA: Consórcio Portuguez das Conservas de Peixe
DESCRIÇÃO: Album sobre a Vila de Peniche e as suas industrias
OWNER: IPCP – Instituto Portugues de Conservas de Peixe – DGRM Direcção Geral dos Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos
CREDIT:
IMAGES: conservasdeportugal.com
#APONTAMENTOS VILA PENICHE
CAPÍTULO III – A INDÚSTRIA DAS CONSERVAS
1 – Lavagem preliminar …………………………………….. 51
2 – Descabeço …………………………………………….. 52
3 – Salmoura ……………………………………………… 53
4 – Engrelhamento …………………………………………. 54
5 – Cozedura ……………………………………………… 54
6 – Enxuga da sardinha …………………………………….. 55
7 – Enlatamento …………………………………………… 56
8 – Azeitamento …………………………………………… 58
9 – Cravação das latas …………………………………….. 59
10 – Esterilização ………………………………………… 60
11 – Limpeza e lavagem das latas …………………………… 61
12 – Encaixotamento ……………………………………….. 61
Estanhação das grelhas ……………………………………. 63
Fabricação do vazio ………………………………………. 65
Fabricação da Fôlha de Flandres ……………………………. 65
Construção das latas ……………………………………… 67
Marinhas de sal ………………………………………….. 72
CAPÍTULO IV – A INDÚSTRIA DAS RENDAS A BILROS …………….. 73
FIM
CAPITULO III
A INDUSTRIA DAS CONSERVAS
À época da introdução d’esta industria em Peniche foi em 1910, tendo tido grande incremento até 1920.
Depois d’esta data enfraqueceu um pouco e o numero de fabricas diminuiram devido, além de outras causas, á falta da sardinha.
Para dar uma pequena ideia d’esta industria, passo a descrever as varias operações a que a sardinha é submetida.
1 – Lavagem preliminar
Os industriais constroem ou alugam proximo da lota armazens vulgarmente chamados lojas, que se destinam á lavagem e guarda da sardinha quando esta é comprada durante a noite, visto não a poderem meter nas fábricas antes das oito horas da manhã, excepto nos meses de Junho a Setembro em que a podem meter ás sete horas, (conforme o determinado na clausula segunda da circular nº 145 de 12 de Outubro de 1934).
Nas lojas a que me refiro, existem uns pisos construidos de cimento onde lavam as sardinhas quando estas saem das traineiras, visto encontrarem-se, pelas más condições dos porões, ensanguentadas.
Assim, se a sardinha é comprada de dia, á medida que as vão acarretando para as lojas, vão-as deitando nos referidos pisos, onde por sua vez o empregado da loja as vai lavando n’uma moura relativamente fraca (10º) e deitando-as em seguida para uns cabaços; uma vez estes cheios são conduzidos pelas camionetes para as fábricas.
Pág 51
Nas fábricas, aguardam as camionetes os homens destinados à descarga da sardinha, que assim que estas chegam as descarregam e estramalham nas mesas de descabeçar.
2 – Descabeço
Por sua vez as mulheres munidas de uma faca começam o descabeço e, à medida que vão descabeçando, vão deitando a sardinha para uns cabaços pequenos colocados na sua frente e que outros se encarregam de tirar, quando estejam cheios, para os ir colocar junto do salmoeiro ou pios de salga.
3 – Salmoura
Em seguida, o homem especializado nas salmouras despeja os referidos cestos nos pios que contêm uma salmoura de 25ºe, uma vez estes cheios, cobre-os com uma camada de sal e coloca em cima uma tampa de madeira. Outros, em lugar de pôr a referida tampa, põem os cestos que serviram na condução da sardinha para os pios, marcando em seguida no quadro a hora a que deve ser retirada a sardinha.
Como o tempo que se dá de salmoura à sardinha é muito variável, pois depende do seu tamanho, qualidade, etc., por muita boa vontade que tenha não posso fornecer uma tabela minuciosa, porque é inteiramente impossível; mas dar uma ideia aproximada junto a seguinte tabela.
Tabela do tempo de salmoura para o peixe de verão
Nº de peixes em quilo | Tempo de salmoura | Nº de peixes em quilo | Tempo de salmoura |
14 a 16 | 3 horas | 24 a 26 | 2 h 15 min |
16 a 18 | 2 h 55 min | 28 a 30 | 2 h 10 min |
18 a 20 | 2 h 50 min | 30 a 40 | 2 horas |
20 a 22 | 2 h 40 min | 40 a 60 | 30 min |
22 a 24 | 2 h 20 min | 60 a 80 | 20 min |
Findo o tempo necessário para a sardinha tomar o sal, retiram-na e estramalham nas mesas, para em seguida as mulheres começarem o engrelhamento.
4 – Engrelhamento
A operação do engrelhamento realiza-se nas mesmas mesas que serviram à operação do descabeço, em grelhas construídas de arame de ferro e estanhadas a estanho puro.
Cada grelha comporta, aproximadamente, oitenta sardinhas, isto é, se fôr sardinha de 14/16 em quilo, porque sendo de 18/20 em quilo comporta mais e sendo “petinga” ou “esquilha”, como vulgarmente se chama à sardinha pequena, comporta umas cento e cincoenta.
À medida que vão enchendo as grelhas, com as sardinhas, vão lavá-las n’um depósito com água corrente para em seguida as meterem nos carrões sendo assim conduzidas aos cofres para serem cozidas.
Estes carrões comportam, geralmente, 40 grelhas.
5 – Cozedura
Uma vez metidos os carrões com as sardinhas nos cofres, são estes hermèticamente fechados procedendo-se em acto contínuo à cozedura pelo vapor.
O tempo destinado à cozedura varia conforme o tamanho e gordura…
…da sardinha, quanto maior e mais gorda ela fôr tanto mais tempo precisa para se cozer convenientemente.
Na tabela que dou em seguida, encontram-se os vários tempos de cozedura.
Tabela de tempos de cozedura
Nº de peixes em quilo | Tempo de cozedura | Observações |
14 a 16 | 15 minutos | O tempo começa a contar-se desde que a temperatura tenha atingido 102 graus centígrados, a qual não deve ultrapassar. Pela torneira de purga só deve sair água e não vapor. |
16 a 18 | 13 minutos | |
18 a 20 | 10 minutos | |
20 a 25 | 8 minutos | |
25 a 35 | 7 minutos | |
35 a 50 | 5 minutos |
Terminado o tempo destinado à cozedura da sardinha que se encontra dentro do cofre, o homem encarregado d’esta operação abre a válvula e descarrega o vapor, retirando outros os carrões dos cofres e levando-os para uma casa arejada ou para os enxugadores artificiais.
6 – Enxuga da sardinha
Das sete fábricas que existem em Peniche, só uma tem enxugador eléctrico (Aero-Fouche); as restantes fazem a enxuga em armazéns onde exista correntes de ar, ou em alpendres onde as penduram.
Passadas umas horas e estando as sardinhas completamente enxutas, conduzem as grelhas, com as sardinhas, para a secção do enlatamento; ahi colocam-nas nas mesas, procedendo as mulheres ao enlatamento da sardinha, em latas de diversas marcas e formatos.
7 – Enlatamento
O enlatamento é feito em mesas cobertas de marmore ou forradas de zinco, tendo colocada em frente de cada mulher uma estante giratoria (Dobadoura) para colocar as grelhas com as sardinhas, que quando vazias são substituidas por outras cheias pelas mulheres destinadas a este serviço.
O enlatamento é uma das operações mais interessantes da fabricação e que requere maior cuidado.
Uma grande percentagem das mulheres empregadas na indústria das conservas, em Peniche, não enlatam convenientemente as sardinhas; umas por desleixo, outras por falta de competência.
Assim, é frequente ao abrirmos uma lata vêrmos o rabo da sardinha no angulo da abertura, local onde devia estar o espelho da sardinha para dar quando se abre uma boa apresentação; n’outras aparece a sardinha com a pele vincada pelo arame da grelha, o que não quero dizer que nos sítios dos vincos esteja a pele escura, pois isso só acontece quando as grelhas estão sujas ou quando tenham sido estanhadas com liga de chumbo; n’outras aparece a sardinha com a pele estalada ou faltam-lhe escamas, tôdas estas deficiências concorrem para uma má apresentação.
Com isto não quero dizer que o produto seja mau, pode até sér muito bom, mas devido ao mau enlatamento tem um aspecto desagradável á vista.
Tudo isto se poderia evitar se as mulheres empregadas n’esta operação fôssem obrigadas a pôr a patilha da abertura da lata, para o lado esquerdo, o lado da sardinha vincada pela grelha, para baixo e as sardinhas que teem a pele um pouco estalada nas camadas inferiores da lata, ou seja nas ultimas camadas quando efectuam o enlatamento.
À medida que as mulheres vão enlatando, vão colocando ao lado as latas em castelos, sendo assim transportadas para a casa do azeitamento.
8 – Azeitamento
As mulheres especialisadas n’esta operação procedem em seguida ao azeitamento que é feito, geralmente, de mergulho em pequenos castelos de latas, n’um pio de azeite colocado ao centro do aparador, no qual, vão colocando, ao lado, as latas já com o azeite.
——-
Passado algum tempo, são as latas retiradas em taboleiros e assim conduzidas ás cravadeiras.
Em algumas fábricas usa-se azeitar tôdas as latas, ou seja a sua produção, em tinos onde as vão colocando em camadas sobrepostas que depois são cobertas de azeite.
Outros apenas usam êste sistema de azeitar para os formatos grandes ou em fabricações de similares da sardinha, atum e seus similares.
Outros ainda usam para as suas fabricações as máquinas de azeitar.
No Centro de Peniche, só existe uma máquina de azeitar. Esta máquina, tem dois tapetes rolantes, sessenta torneiras, trinta de cada lado, e a capacidade do depósito é de oitenta litros.
9 – Cravação das latas
As latas depois de cheias são fechadas ou cravadas numas máquinas chamadas cravadeiras que se empregam principalmente na indústria das conservas.
A guarnição d’uma cravadeira é composta de três pessoas, uma que põe os fundos e que dá a lata, outra que mete na cravadeira e outra que visita a lata para vêr se está a verter.
N’êste Centro existem diversos tipos e marcas de cravadeiras, como se pode apreciar pela tabela que a seguir apresento.
Fabricante | Tipo | Número de cravadeiras |
H. Sudry & Fils | B.C. 6 | 10 |
H. Sudry & Fils | B.C. 7 | 7 |
H. Sudry & Fils | B.C. 8 | 1 |
H. Sudry & Fils | B.C. 14 | 2 |
E.W. Bliss | Semi-automática | 1 |
Reinerts | — | 3 |
Nessler | — | 1 |
Reinerts | Manual | 4 |
Lubin & Weiffenbach | 2 cabeças | 2 |
Lubin & Weiffenbach | 1 cabeça | 1 |
Matador | Semi-automáticas | 12 |
Alonerti | Lata redonda | 1 |
Desconhecido | — | 1 |
Depois das latas terem sido cravadas e convenientemente visitadas, são metidas n’uns caldeiros de ferro para serem esterilizadas.
10 – Esterilização
Êsta operação realiza-se em autoclaves ou em cofres, sendo este ultimo o sistema mais usado pelas fábricas de Peniche.
Se a esterilização é feita pelos cofres metem as latas n’uns cestos de ferro que por sua vez são metidos nos carrões, seguindo assim para os cofres para serem esterilizadas. Sendo a esterilização feita pelos autoclaves, são metidas as latas n’uns caldeiros, também de ferro, os quais são içados por um guincho e metidos nos autoclaves.
A esterilização tem por fim evitar a fermentação ulterior das sardinhas contidas nas latas.
O tempo de esterilização, por formatos, é geralmente o seguinte.
Formatos | Moule | Nº de peixes em quilo | Tempo |
1/10 Club 20 m/m | 2/2 | 14 | 1 h 15 min |
1/8 Club 18 m/m | 4/4 | 14 | 1 h 25 min |
1/4 Club 30 m/m | 4/4 | 14 | 1 h 40 min |
1/4 Club 40 m/m | 5/6 | 14 | 1 h 45 min |
1/4 Esp. 25 m/m | 4/4 | 16 | 1 h 30 min |
1/4 Usu. 22 m/m | 5/6 | 16 | 1 h 45 min |
1/4 30 m/m | 6/8 | 14 | 1 h 50 min |
1/4 Ame. 30 m/m | 8/10 | 14 | 1 h 55 min |
1/2 Alta 40 m/m | 14/16 | 14 | 2 h 10 min |
4/4 80 m/m | 25/30 | 14 | 2 h 30 min |
O tempo de esterilização, tambem, varia conforme o tempo que se dá de cozedura à sardinha.
Terminada esta operação, retiram dos cofres ou dos autoclaves os cestos, levando-os para um armazem afim de procederem á lavagem e limpeza das latas.
11 – Limpeza e lavagem das latas
Das fábricas que existem em Peniche, só duas é que teem máquinas próprias para lavar e limpar as latas (constructor Eduardo Gomes Cardoso).
As restantes, empregam na limpeza das latas mulheres ou rapazes, os quais as limpam com serradura e colocam n’um sítio limpo afim de serem encaixotadas.
12 – Encaixotamento
O encaixotamento das latas é, tambem, feito por mulheres ou rapazes, em caixas de madeira de diversas dimensões, obedecendo assim aos diversos formatos.
Cada caixa comporta 100 latas, excepto as caixas que se destinam ao formato 4/4 80 m/m, que só comportam 50 latas, em virtude de sér o maior formato que se fabrica.
Estas caixas teem marcadas n’um dos lados o nome da firma que fabricou a conserva e o formato da lata que contêem.
Depois da caixa cheia ou seja contendo as 100 ou as 50 latas, é pregada e arqueada ou aramada.
Finda esta operação são as caixas transportadas para um armazem, onde as empilham e ahi aguardando a hora de serem transportadas pelas camionetes para os cais de embarque, afim de serem verificadas e exportadas para os diversos portos do Mundo.
Desejando, tambem, fornecer o numero de caixas fabricadas no Centro de Peniche, durante êstes ultimos anos, organisei o mapa que junto, no qual indico a produção de cada fábrica desde 1930.
Estanhação das grelhas
Esta operação realiza-se sob um telheiro desviado da fábrica, para que o acido empregado no desenferrujamento das grelhas não prejudique a fabricação do cheio.
A estanhação das grelhas é feita n’uma bacia de ferro rectangular que tem 57 centimetros de comprimento por 55 centimetros de largura e 13 centimetros de altura, na qual antes do inicio da operação é fundido o estanho em lingotes ou em barrinhas.
O aquecimento da bacia é feito pela parte inferior, n’uma fornalha, ou seja a fogo directo.
O numero de homens empregados na estanhação das grelhas varia mas nunca é inferior a três ou quatro; um estanhador, um ajudante e um ou dois serventes.
Proximo da bacia onde se faz a fusão estão varias dornas; uma com acido cloridico ou acido muriatico como vulgarmente se chama, duas ou mais dornas com agua e uma com cloreto de zinco, a que chamam tambem acido fraco.
A primeira dorna ou seja a que contem o acido cloridico, destina-se ao desenferrujamento das grelhas; as que contêm agua servem para lavar as grelhas quando estas saem do desenferrujamento ou seja quando saem da dorna que contém o acido cloridico e a restante a que contém o cloreto de zinco, serve para mergulhar as grelhas antes de serem banhadas no estanho, chamando-se a este banho, banho decapante.
O ajudante, segundos antes do estanhador mergulhar a grelha no estanho, afasta cautelosamente para um dos angulos da bacia, as escórias que sobrenadam ao cimo do estanho, ficando êste perfeitamente espelhento.
Em acto contínuo à limpeza da parte superior do estanho, o estanhador, munido de um pequeno gancho de ferro retira a grelha do banho decapante e mergulha-a no estanho, agitando-a continuamente e só a retirando depois de ter sido limpo, novamente, a superfície do estanho.
No momento de retirar a grelha, já estanhada, o estanhador sacode-a sôbre a bacia para em seguida bater com ela de encontro a um tapume de madeira que se encontra por detrás de si em sentido vertical.
Estas pancadas que o estanhador provoca é para que a grelha largue o estanho que traz da caldeira em excesso.
Por sua vez o servente, depois de o estanhador ter batido a grelha, toma-a, também, com um pequeno gancho de ferro para a mergulhar n’uma outra dorna cheia de água, tendo em cima uma camada de azeite ou óleo, colocando-a depois n’uma pandeola; uma vez esta cheia ou seja com algumas dúzias de grelhas empelhadas é transportada, por outros, para o sítio destinado à sua arrumação.
Fabricação do vazio
No desejo de tornar útil estas singelas linhas, transcrevo um artigo sôbre a fabricação da folha de Flandres publicada na revista “Conservas” em Agosto e Setembro de 1936, visto a sua fabricação se realizar no estrangeiro, principalmente na Inglaterra, Alemanha e América e estar impossibilitado de o dizer, em virtude de nunca ter visitado estes Países produtores e consequentemente as suas fábricas.
A fabricação da folha de Flandres
Primeiramente, o ferro bruto é transformado no alto forno em ferro fundido, e em seguida, pelo processo Siemens-Martin ou Thomas, êsse ferro fundido é convertido em aço líquido fundido em grandes blocos de uma e duas toneladas.
Estes blocos, depois de esfriados n’uma massa compacta, são passados por grandes rôlos-calibres para ficarem nas chamadas “Platinas”, que são longas peças chatas de uma largura de 200 a 300 milímetros, e de uma espessura de cerca de 10 milímetros.
Esta “Platina” é que é o verdadeiro produto destinado à fabricação da folha de Flandres.
Depois de cortadas com grandes tesouras n’um comprimento apropriado, as peças são aquecidas uma por uma n’um forno a uma temperatura de cerca de 800 graus; entram frias por um lado e saem aquecidas pelo outro. Em seguida entram no processo de laminação.
Em geral, colocam-se duas estantes de rôlos uma ao lado da outra, com dois laminadores sobrepostos.
Estes rôlos são movidos por grandes motores. As “Platinas” aquecidas são passadas primeiramente uma por uma ao primeiro rôlo até ficarem n’um comprimento de cerca de 600 milímetros e, em seguida, duas peças laminadas são colocadas uma por cima da outra e assim passadas de novo ao cilindro.
Depois d’estas peças atingirem um comprimento de 1/2 a 2 metros, sobrepõem-se e quatro peças n’este estado são introduzidas novamente n’um forno especial.
Depois de aquecidas a uma temperatura de 700 graus, estas peças entram mais uma vez ao mesmo tempo no processo anterior.
No último rôlo este lote é passado de novo até dar um comprimento de cerca de 2 metros e, pela segunda vez dobrado, entrando outra vez no forno e a seguir laminado após novo aquecimento e n’um comprimento finalizado.
A folha assim obtida chama-se folha crua, consistindo de 8 fôlhas separadas, umas em cima das outras. Este conjunto será então cortado…
…na sua medida exacta, e uma mão habil separará as fôlhas, puxando-as.
Para extrair a camada de oxido da superfície da fôlha, proveniente do processo de aquecimento, ela é mergulhada em ácido muriatico.
Em seguida, a fôlha é limpa dos restos do ácido em agua limpa, e entrará agora no processo de temperar, que é um factor principal para a sua futura aplicação.
Existem dois tipos de temperar, o primeiro chamado o processo de “temperar em caixas”, e no qual as fôlhas são temperadas a uma temperatura de cerca de 720 graus, e o segundo, o processo de “normalisar”, no qual as fôlhas são temperadas a uma temperatura de cerca de 920 graus, e rapidamente arrefecidas para baixo de 700 graus.
As fôlhas temperadas “em caixas”, mostram uma formação típica de grão.
Estas fôlhas são aproveitadas para artigos menos exigentes, como latas de conservas, placas, etc. As fôlhas perfeitas mostram no interior uma estrutura particular de grãos finos, e são especialmente aproveitadas para artigos estampados que exigem uma melhor qualidade de fôlha, como latas para peixe, latas para cigarros e outras semelhantes.
Depois do processo de temperar, as fôlhas mostram um aspecto apagado e assim não servem para sêr estanhadas.
Por isso, é necessário dar às fôlhas uma superfície polida, e para êsse efeito são passadas uma por uma pelo processo de laminação a frio, o qual é formado por três pares de rôlos altamente polidos. Em consequência d’êste processo, a fôlha fica outra vez dura, e deve sêr temperada novamente, mas a uma temperatura inferior a 600 graus. A fôlha fica agora pronta para sêr estanhada.
Mais uma vez ela é mergulhada n’um banho de correr, mas mais fraco do que o primeiro. As fôlhas entram molhadas no forno de estanhar, e são estanhadas e limpas sem interrupção durante todo êsse tempo. Primeiramente, a fôlha molhada passa por uma camada de cloreto de zinco que lhe tira os restos de pó e a leve camada de oxido. O ferro metálico junta-se agora ao estanho metálico e forma na superfície uma liga de ferro estanho.
A segunda parte do banho é pràticamente chamada “maquina de estanhar”, que esta consiste em três pares de rôlos e é movida a oleo de palmeira.
Saindo agora do forno, a fôlha é arejada, tornando assim a camada de zinco firme, e entra na “maquina de limpar”. A primeira parte d’esta máquina é chamada máquina de limpar a húmido, recebendo agua de soda e de potassa diluídas para a eliminação das gorduras.
A seguir, entra na máquina de limpar a sêco, composta de 14 pares de rôlos entre os quais se espalha farinha de trigo muito fina. Pela pressão e diferentes rotações dos rôlos, a fôlha ao passar fica completamente limpa de gordura, saindo da máquina n’um estado de perfeita limpeza e polidês.
A fôlha é então transportada para a secção de escolha, e por mãos habeis é seleccionada conforme a sua qualidade e espessura, e empacotada em caixas.
Depois de arqueadas, as caixas entram no armazem e são marcadas conforme o país a que se destinam.
N’êste estado chegam as fôlhas ás mãos do consumidor e são transformadas por êle em peças de variadíssimas espécies. A principal quantidade das fôlhas é usada para conservas de legumes, frutas e peixes, bem como para latas de cigarros, tabacos e muitos outros artigos de uso doméstico.
Para terminar, queremos acentuar a circunstância da qualidade das fôlhas de Flandres ter melhorado consideravelmente nos últimos anos, e das fábricas possuírem hoje uma capacidade capaz de satisfazêr tôdas as exigências da sua clientela.
Construção das latas
As latas que contêem as sardinhas são construídas de fôlha de Flandres.
A maior parte d’estas fôlhas, antes de entrarem nas fábricas, são primeiramente litografadas com o formato, marca e dizeres com que o Industrial indicou.
Depois da fôlha ter sido litografada dá entrada na secção do vazio, das fábricas, para que d’elas se construam as latas.
Primeiramente a fôlha é “aparada” por uma tesoura manual, ou seja dividir os tampos das tiras visto cada fôlha vir litografada com 20 tampos e 20 tiras, êste número se fôr do formato 1/4 Club 30 m/m.
Depois de separadas estas partes que compõem a lata, a parte da fôlha que tem os tampos segue para as prensas para que sejam divididos ou cortados por um cunho com o mesmo formato do tampo que está litografado na fôlha.
Estas prensas teem varios cunhos, para lhe sêr applicados, obedecendo cada um a cada formato.
Depois dos tampos cortados são metidos n’uns cestos e assim conduzidos para, junto das maquinas de soldar, aguardando ahi o momento de serem soldados ás tiras.
A outra parte da fôlha que contem as tiras vai a uma guilhotina mecanica, vulgarmente chamada tesoura, para serem separadas.
Uma vez realizada esta operação, são as tiras dobradas n’uma forma correspondente ao formato litografado na tira.
Depois das tiras dobradas, seguem para as mesas dos soldadores a fim de lhes serem soldadas as extremidades, chamando-se a esta operação, “montar tiras”.
Uma vez as extremidades das tiras soldadas ou “montadas” e por conseguinte formando já um rectângulo, são estes rebordeados d’um e…
…d’outro lado n’umas prensas denominadas “Tamponadeiras”.
Como êste rebordo fica sempre ou quasi sempre imperfeito, seguem para as “Rebordeadeiras” afim de serem aperfeiçoados.
Terminada esta operação, são conduzidos para junto das máquinas de soldar para lhes serem soldados os tampos.
Em algumas fábricas são os soldadores que soldam os tampos aos rectangulos formados pelas tiras.
Os fundos que são cravados na lata depois d’esta ter sido cheia de sardinhas, tambem são cortados pelas prensas, mas com um cunho maior e gravando ao mesmo tempo o numero com que o industrial está inscripto.
Depois dos fundos terem sido cortados vão aos “Balançés” para serem endireitados os lados, seguindo depois para as maquinas para lhes serem colocadas as borrachas.
O fim d’estas borrachas é evitar que a lata, depois de cravada, comece a verter.
Marinhas de sal
Em Peniche não há, actualmente, marinhas de sal, mas podia e devia havê-las.
Podia, porque possui uns belíssimos logares para a sua construção e devia porque o consumo é importantíssimo.
A importação de sal durante o ano de 1936 foi de 7.443.212 litros, procedente de Lisboa, Setubal, Figueira da Fóz e várias terras do Algarve.
O sal importado de Setubal, Figueira da Fóz e Algarve, é conduzido em navios de vela; o importado de Lisboa é conduzido em camionetas.
Antigamente houve aqui marinhas; existindo ainda vestígios dos restos do aqueduto no istmo junto à Prégeira; e umas ruinas que existem fóra da contre-escarpa do fôsso da praça ainda conservam o nome de casas de sal.

Album 1936 – Apontamentos sobre a Vila de Peniche e as suas industrias – CAPÍTULO III – A INDÚSTRIA DAS CONSERVAS

Album 1936 – Apontamentos sobre a Vila de Peniche e as suas industrias – CAPÍTULO II – A INDÚSTRIA DA PESCA

Album 1936 – Apontamentos sobre a Vila de Peniche e as suas industrias – CAPÍTULO I – A VILA DE PENICHE

Album 1936 – Apontamentos sobre a Vila de Peniche e as suas industrias
Terms of use
Contact
investigacao@conservasdeportugal.com
Other project links