Relatório da Comissão encarregada do estudo de melhoramentos da Indústria de Conservas
Comissão encarregada do estudo de melhoramentos da Indústria de Conservas
Apresentado em 20 de Março de 1913
Associação Comercial e Industrial de Setúbal
Secção Sindical dos Fabricantes de Conservas
Tipografia Santos, Avenida Todi, Praça de Bocage, Setúbal
Comissão composta pelas empresas:
Alves, Mendanha & Cª
Beziers & Cª
Costa & Cª
Ferreira, Santos & Cª
Figueira & Cª
Henrique, Lopes & Cª
R. P. Santos Limitada
Viúva de Firmin Jullien
O Relatório da Comissão encarregada de estudar a situação actual da Indústria, da Secção Sindical dos Fabricantes de Conservas da Associação Comercial e Industrial de Setúbal, apresenta um diagnóstico muito crítico da indústria conserveira local, procurando explicar as causas da crise e defender uma ação coletiva dos industriais.
A Comissão começa por destacar a importância da organização dos fabricantes. A indústria conserveira era uma das principais atividades de Setúbal, mas os industriais tinham permanecido durante demasiado tempo isolados e pouco associados, o que os enfraquecia perante trabalhadores, concorrentes e poderes públicos. A criação da Secção Sindical teria alterado esta situação, reunindo praticamente todos os fabricantes de Setúbal e permitindo-lhes procurar soluções comuns.
O relatório identifica como principais dificuldades o aumento dos custos de produção, dos materiais, salários e transportes; a crescente concorrência internacional, nomeadamente da Noruega, Espanha, França, Marrocos e Japão; a modernização mecânica das fábricas estrangeiras; e a impossibilidade de repercutir integralmente esses aumentos no preço das conservas. Defende, por isso, a necessidade de modernização e mecanização da indústria portuguesa e de maior estabilidade para permitir investimentos.
Um problema particularmente grave era o encarecimento e escassez da sardinha para as fábricas. O relatório afirma que, apesar de 1912 ter sido um ano de pesca excecionalmente abundante, o preço médio da canastra para os fabricantes atingira cerca de 1$400 réis, contra os anteriores 600–800 réis. A causa apontada é sobretudo a concorrência dos exportadores de peixe fresco: segundo o relatório, cerca de um terço do peixe vendido em lota em Setúbal era exportado em cru, inclusivamente para alimentar indústrias conserveiras estrangeiras.
Outro núcleo importante é o conflito laboral. Os industriais queixam-se das greves, da instabilidade nas fábricas e da proibição do trabalho noturno de mulheres e menores em Setúbal, alegando que os industriais algarvios beneficiavam de condições diferentes. O relatório sustenta que esta instabilidade prejudicava não apenas os fabricantes, mas toda a economia local e a reputação comercial de Setúbal. Defende uma política de «Ordem e Trabalho», procurando simultaneamente afirmar que os fabricantes não pretendiam reduzir os salários existentes.
Também são apontadas importantes desvantagens logísticas. A dificuldade de grandes navios entrarem no porto de Setúbal obrigava frequentemente a encaminhar conservas pelo Barreiro e pelo Tejo para embarque em Lisboa. O relatório afirma que, em certas circunstâncias, transportar a mercadoria de Setúbal até ao navio no Tejo podia custar quase tanto como o próprio frete marítimo de Lisboa para Hamburgo, Londres ou Antuérpia.
Apesar destes problemas, o documento considera que as conservas portuguesas tinham boa reputação nos mercados europeus, chegando a ser colocadas imediatamente depois das francesas e, por vezes, ao nível de algumas das melhores marcas de França. O problema não seria, portanto, essencialmente a qualidade, mas a incapacidade de assegurar preços, regularidade e prazos de entrega competitivos.
Em síntese, o relatório apresenta a crise conserveira de Setúbal como resultado da combinação de desorganização empresarial, concorrência estrangeira, atraso na mecanização, aumento dos custos, concorrência pela sardinha, exportação de peixe em cru, conflitos laborais, insuficiente proteção pública e elevados custos de transporte. A resposta proposta é a união dos fabricantes, estabilidade laboral, mecanização, disciplina industrial, definição de preços mínimos e intervenção coletiva junto dos poderes públicos.
Relatório da Comissão encarregada de estudar a situação actual da Industria
Não havendo em Setubal uma agremiação onde se fizessem representar largamente todos os ramos de actividade comercial e industrial d’esta cidade, impunha-se a criação da Associação Comercial e Industrial de Setubal, que imediatamente atingiu um avultado numero de socios, achando-se actualmente representadas todas as industrias locais.
Como cada industria tem alem das necessidades geraes de que a Associação trata, as suas aspirações e necessidades especiaes, os Estatutos estabelecem dentro da Associação, secções sindicaes, que reunem separadamente sob a direcção de um «comité» de tres membros eleitos por cada secção.
A’ Direcção cumpre sempre estar ao corrente do que fizer cada secção, e fiscalisar o cumprimento dos Estatutos.
Evidentemente estava indicado que, sendo a industria das conservas uma das mais importantes senão a mais importante de Setubal, justamente a que mais necessidades tem, portanto a que melhores beneficios pode colher com a sua organisação, os fabricantes seriam convidados a organisarem a sua secção.
O resultado excedeu toda a espétativa. Estes industriaes convencidos por longa experiencia que isolados nada podiam e perdem a industria, crearam imediatamente a respetiva secção de todos os fabricantes de Setubal, apenas por enquanto com duas ou tres excepções, que é de esperar dentro em breve estejam filiados. Fartos de lutar e esgotados pelas perturbações constantes que não deixam o industrial trabalhar, produzindo amargas crises que empobrecem a industria e comercio locaes, estabelecendo o descredito sobre esta bela cidade, encontram-se animados ainda para tentarem o levantamento da industria.
Procurando bem todas as causas d’este mal estar e usando da imparcialidade que o nosso caráter e a nossa missão nos impõem, queremos aqui consignar que ha muitos culpados mas aos fabricantes pertence grande quinhão de responsabilidade, pois que, a sua antiga aversão ao principio associativo, o egoismo estranho que (em alguns se notava e a falta d’atenção e escrupulo empregado por outros na sua industria, cercearam ao industrial de Setubal a imprescindivel moralidade industrial, que agora tem custado a conseguir.
Semelhante orientação foi creada em tempos que os industriaes auferiam bons lucros quasi sem preocupações, não lhes passando pela mente que em quanto adormeciam julgando-se unicos, lá fora construiam-se grandes fabricas por toda a parte onde houvesse peixe, fosse ou não sardinha; que se estudavam e empregavam modernos processos mecanicos de pesca e preparação excessivamente economicos e assim não se fizeram esperar os efeitos d’uma forte e tenaz concorrencia nos nossos melhores mercados compradores da Europa, America e Asia, com as conservas preparadas na Noruega, Japão, Marrocos, etc.
Por outro lado, enquanto a concorrencia se multiplicava em diversas partes, dentro de Setubal, ao contrario do que os fabricantes faziam, foi-se desenvolvendo rapidamente o movimento associativo das classes trabalhadoras, disputando-se entre si qual a que melhores e mais regalias havia de pedir ou exigir ao industrial. E’ claro que não é por isso que se deve querer muito mal a estas classes, pois que, conseguindo sempre tudo que desejavam era natural que julgassem que o industrial estava no melhor dos mundos e mais poderia dar. Em boa verdade tudo conseguiram porque os industriaes, isolados e até intrigados nada podiam opôr, e enquanto a demonstrarem com provas concludentes que não podiam com mais encargos nunca o fizeram, d’ahi a sua ruina e a liberalidade excessiva por parte da maioria dos individuos que se empregam nesta industria, perigo este que não sabemos quando e como poderá acabar e que constantemente perturba a ordem e direcção indispensaveis em todas as officinas.
Felizmente os factos passados foram mais que suficientes para mostrar aos industriaes qual deve ser hoje o seu caminho. Sempre que os fabricantes procuravam reunir-se o espétro da publicidade era o seu terror. Nada se publicava. Nunca se inteirava a opinião publica dos milhares de razões que tinham. Pelo contrario, outras classes em litigio com os industriaes com imprensa sua e a seu modo, predispunham tudo e todos contra os industriaes, e se algum d’estes, atingido por calunias, procurava o autor da noticia para a rectificação, era certo que a emenda sahia peor que o soneto e a situação do atingido continuava peor.
Misturada com esta interminavel multidão de dissabores, dia a dia se iam sentindo os efeitos produzidos pela espantosa e crescente concorrencia de fabricantes de outros paizes, nomeadamente da Noruega, e, se em qualquer anno a pesca em França era mais avultada, mais sensiveis eram as consequencias.
Assim os preços chegaram a baixar extraordinariamente, havendo preços pelos quaes muitos industriaes trabalhavam alguns formatos, que se denominavam «preços de fome». Os materiaes foram encarecendo, os fretes em terra e mar subiram; estabeleceu-se a concorrencia na compra do peixe para exportar em cru, e finalmente os encargos quasi duplicaram como adeante demonstramos.
Como se vê, era totalmente impossivel o industrial manter-se ou pelo menos responsabilisar-se por novos encargos até que a situação mudasse. Não mudou, isto é, não melhorou, antes pelo contrario. Estando colocada ao nivel mais baixo do preço de revenda, sentiu-se ultimamente um augmento em algumas qualidades e formatos devido á escassês da pesca nas costas francezas e pelo mesmo motivo nas Rias de Vigo. Conforme vamos demonstrar, os novos encargos do fabricante são de tal importancia que sobem a mais de 3 francos (600 reis em cada caixa e o augmento obtido no preço da conserva não dá 1 franco (200 reis em caixa; perguntamos: Onde vae o industrial encontrar os outros?
Não é impossivel melhorar a industria. Pode conseguir-se muito em proveito de todos quando todos concorram para obter essas melhorias. O contrario d’isto, o que actualmente succede, é a ruina immediata sem proveito de ninguem.
Os industriaes nas suas reuniões todas as quintas feiras, a que não falta um só, são unanimes em declarar e confirmar as suas intenções puramente em favor do levantamento da industria, pondo absolutamente de parte toda a ideia das lutas e dissabores quasi sempre injustos que algumas classes por vezes lhes dispensam.
Pretendem os industriaes que uma nova era de trabalho e tranquilidade se estabeleça, e é tão certo que as suas intenções são pacificas, como o fim de terminar de vez com as continuas perturbações de que elles são as primeiras victimas mas que egualmente ferem todas as outras classes de Setubal sem distinção, que mesmo durante o periodo de trabalhos d’esta comissão os conflictos nas fabricas teem-se succedido quasi todos promovidos por desacordos entre as proprias classes trabalhadoras, e não obstante os industriaes terem sido prejudicados sobre muitos pontos de vista, teem-se revestido da maior tolerancia aconselhando-se mutuamente a tolerar todo este estranho estado de coisas que é impossivel supportar.
Com efeito foi nomeada esta comissão para apresentar aos seus colegas um relatorio, o qual deveria em seguida ser lido e distribuido a todas as classes de Setubal num periodo de tempo relativamente curto, mas, porque os conflictos acima citados desviassem as attenções e tempo da comissão, tudo se demorou e certamente o nosso trabalho, já de si modesto, ficou muito incompleto.
E’ indispensavel trazer á luz toda a verdade. Urge que o paiz inteiro conheça a verdadeira situação dos fabricantes de conservas de Setubal. Assim não só serão destruidas as campanhas surdas e publicas que varias pessoas teem creado contra os fabricantes, talvez por ignorancia dos factos; talvez com outras intenções! Tambem os poderes publicos terão conhecimento da falta de protecção de que sofre esta industria ao contrario do que succede á sua similar estrangeira, quando sendo os seus produtos exclusivamente de exportação, nós estamos sujeitos a tantos encargos emquanto em alguns paizes se estabelecem premios de exportação e se insentam de direitos os modernos aparelhos que promovem o desenvolvimento das industrias.
Feita a exposição clara e bem publica, assente-se d’uma vez num programma de trabalho por um periodo longo ou pelo menos até que a situação da industria mude, sendo certo que até lá difficilmente poderemos sustentar os encargos actuaes e, é claro, muito menos outros novos.
Evitem-se os abusos de todos os lados. Corrijam-se os que houverem. Ordem e Trabalho eis o programma. Não será difficil assim destruir o mau credito moral que peza sobre Setubal, ocasionando a fuga do capital e o retraimento das boas tranzacções com o que todos se prejudicam.
De resto os industriaes estão dispostos e unidos para promoverem o levantamento da industria, visto que nesta situação está a derruir-se e muito poderia ver quem a visse bem por dentro.
Assim se explica a procura de recursos de vida e então lembra aos fabricantes que os seus colegas estrangeiros e em algumas partes do paiz empregam processos modernos mecanicos com enorme economia, aceio e rapidez, colocando-nos entre o dilema de: Ou importar mecanica ou abandonar a industria. Por outro lado está visto e é da logica, que logo que o maior numero de fabricantes tenha estabelecido a mecanica reduzam os de menos recursos ao silencio ou auxiliam-nos nesse empreendimento, e, seguidamente pela lei fatal da oferta e da procura, ha-de só o consumidor lucrar na redução de preço do produto, e o fabricante passa á mesma situação.
Nestas condições parece-nos que, entretanto o indispensavel e mais sensato é o estabelecimento de um periodo de tranquilidade, até que a situação mude, deixando aos industriaes o tempo necessario para pôr em pratica o seu plano de melhoramentos e regalias a conseguir, os quaes pouco a pouco serão publicados para conhecimento de toda a gente, assim como o estudo de tabelas de preços minimos e até onde podemos chegar para não corrermos o risco de ser-mos postos de parte de alguns mercados do mundo.
Tambem sobre este ponto adeante mostraremos o valor da concorrencia e a nulidade dos nossos esforços se pretendêssemos elevar os preços em proporção com as exigencias que dia a dia nos fazem.
E’ uma lenda antiga em Setubal pretender-se que os fabricantes aqui teem tudo na sua mão no que diz respeito a estabelecer os preços aos seus produtos, e por isso é que constantemente se ouve a um ou outro dizer: «Se não podem dar levantem os preços na conserva». Com efeito alguma coisa se pode fazer neste sentido, mas muito longe do que se pensa e nem em todas as ocasiões como egualmente se julga. Em caso nenhum encontramos probabilidades de aumentar os preços á medida dos aumentos que sofreram os encargos do industrial nos ultimos tempos.
E’ preciso accentuar aqui que os industriaes embora com a presente situação muito lhes custe manter os actuaes encargos, tanto na parte que se refere a salarios, como nos demais, não fazem nem pretendem sequer a minima alteração, desejando apenas e esse é o seu fim, que lhes facultem tranquilidade e tempo para procurar com os meios ao seu alcance, sempre os legitimos, colocarem-se em situação de, pelo menos continuarem a manter os actuaes, sendo para lamentar que em consequencia das incertezas e receios constantes em que está permanentemente o industrial, se teem perdido para todos algumas centenas de contos de réis de movimento nesta cidade.
Existe um outro motivo: Em epocas recentes ainda, os fabricantes durante os periodos de menos pesca, costumavam fazer «stock» de lata vazia, atingindo muitas vezes dezenas de milhares de caixas, com o que empregavam um capital relativamente avultado, com o fim especial de estarem prevenidos nas ocasiões de abundancia de pesca que então o preço do peixe baixava. Assim tambem o pessoal sentia menos crises, visto que só quando excepcionalmente, esse periodo se prolongava muito, o trabalho então terminava ou reduzia.
Presentemente é um erro prejudicial para o fabricante, crear grande stock de vasio, porque mesmo nas ocasiões raras de abundancia de pesca, a concorrencia á compra é de tal ordem, que chega a parecer impossivel, resultando é claro que as medias são altas e não ha que aproveitar, acrescentando-se ainda o prejuizo com a muita lata que oxida e se inutilisa. Ninguem se admirará disto quando souber que a terça parte do peixe vendido em «lota» no ultimo ano em Setubal foi exportado em cru, parte pelo caminho de ferro, e a maior parte pela barra a bordo de dezenas de barcos hespanhoes e francezes, algumas vezes barcos de Setubal fretados por hespanhoes, todos sahindo d’aqui carregados de sardinha arrancada á industria local e nacional para ir em outros paizes alimentar as industrias da salga, da estiva e até mesmo da conserva. Assim se comprehende que o industrial, que ainda ha bem pouco tinha as suas medias de preço por canastra de peixe durante um anno, entre 600 a 800 réis, o maximo, tem visto de anno para anno o preço elevar-se de uma fórma tal, que sendo o anno de 1912 o mais abundante de sardinha de que ha memoria, as medias dos fabricantes por canastra ao fim do anno, regularam por 1$400 réis.
Como se todos estes inconvenientes ainda fossem poucos, um certo movimento preparado ha tempo em Setubal, entre algumas classes trabalhadoras, embora com manifesto prejuizo para outras, deu occasião a que os fabricantes de Setubal, fossem convidados pelas repartições competentes a cumprir rigorosamente o regulamento que prohibe o trabalho noturno nas fabricas ás mulheres e aos menores, não obstante saber-mos que os nossos colegas do Algarve gosam desta autorização. Sobre esta desigualdade, os fabricantes por intervenção da Direcção da Associação, reclamaram, recebendo como resposta a confirmação da primitiva ordem; isto é, não se podem fazer serões. E’ este um dos maiores contratempos que ultimamente teem pezado sobre esta industria. Assim já lutando com a concorrencia na «lota» dos exportadores do peixe cru, não podiam comprar tanto peixe quanto podiam e precisavam de industrializar por motivo do excessivo preço; com esta ultima medida passam a comprar só metade porque não o podem preparar quando ele vem, senão até a uma determinada hora da tarde, e, como o peixe se perderia principalmente nas epocas de calor, não o podem adquirir. Logo desde o industrial até ao ultimo operario das fabricas ficam altamente prejudicados. Sabe toda a gente que o peixe não vem quando se quer nem escolhe hora ou occasião. Enquanto isto se dá, os exportadores de peixe em sal, livres até certo ponto da concorrencia do industrial, compram, preparam, fazem serões, trabalham aos domingos, tudo quanto podem e querem finalmente. Veja-se portanto o grau de protecção que a nossa industria tem, sustentado em Setubal tantos milhares de individuos que sustentam o comercio local, comparado com o grau dispensado a uma industria que nos leva a materia prima em bruto para as industrias de outros paizes, empregando aqui apenas na occasião umas dezenas de individuos, parte dos quaes durante as épocas que áquelles armazens não convem lhes fecham as portas e teem de recorrer á nossa industria.
Extensa e fatigante para o leitor seria a lista que ainda teriamos a acrescentar ás vicissitudes porque passam os fabricantes de conservas, mas não queremos deixar de frisar que, não dando o porto de Setubal acesso a grandes navios que em Lisboa recebem carga para alguns portos do mundo e havendo ainda muitos outros que aqui podiam vir mas não lhes convem, succede que durante o anno exporta muita conserva pelo Tejo, via Barreiro, pois succede muitas vezes, por inumeros motivos alheios á nossa vontade, a conta de despesas do transporte de Setubal a bordo no Tejo, ser pouco mais ou menos menos o custo do frete de Lisboa a Hamburgo, a Londres ou a Anvers. Um horror que ninguem lá fóra quer acreditar e é claro que incidindo sobre o preço da mercadoria, coloca o fabricante na situação de não poder estabelecer o calculo firme ou sujeitar-se a grandes perdas. Por outro lado, se pretende salvaguardar-se contra as eventualidades de taes despesas tão incertas, carregando no preço pode fugir-lhe o freguez. E muitas vezes isto acontece.
Pelas informações que temos, em alguns mercados europeus ha uma certa preferencia pelas nossas conservas, sendo postas em logar immediato ás de França e muitas vezes andando a par com algumas das melhores marcas d’aquelle paiz. E’ tambem sabido que a Hespanha tem muitissimo mais fabricas que Portugal n’esta industria, havendo só em rias de Vigo 137 fabricas; mas não tem uma costa de tão regular e abundante pesca de sardinha como Setubal. Todos teriam vontade de trazer para aqui as suas encomendas, mas não succede assim. E’ precisamente o contrario. A grande maioria dos compradores de conservas, sempre que os nossos colegas do paiz vizinho, de Marrocos, França, etc., teem sardinha e lhe podem executar as encomendas não veem aqui, reservando-nos só o que não póde deixar de ser, pagando áquelles mais alguma coisa por contarem receber mais prontamente a mercadoria fabricada. Porquê, se nós tanta sardinha temos? Não podemos aceitar um contrato sem o «salvo greve» indispensavel e isto mesmo que o lote esteja fabricado e até no caes ou no caminho de ferro, como ha pouco ainda se viu nas greves aqui dos estivadores, isto é, questão entre as classes e em Lisboa nas fragatas que muitos fabricantes haviam carregado para levar as conservas a bordo dos vapores. Os prejuizos foram grandes para os fabricantes, completamente extranhos áquelles casos. Dizem-nos os correspondentes e clientes quando se queixam da demora nas entregas e os transtornos produzidos, que esta terra é extraordinaria, que só em ultimo caso se póde fazer negocio comnosco, visto que aqui a proposito de tudo se fazem greves, não havendo uma unica que não atinja o fabricante, seja ou não com ele, que umas serão razoaveis, que outras serão injustas, que outras são feitas pelo habito de greves e ainda as outras não se sabe porque são, e concluem por dizer que tudo isto é muito pitoresco, o que nos envergonha. Efétivamente, a orientação a tomar deve ser outra muito diferente, a bem de todos e principalmente do proprio prestigio das classes trabalhadoras. A ninguem se póde negar o direito de defender os seus legitimos direitos e procurar melhorar a sua situação. Pelo contrario, isso é digno, é um dever, mas a ideia que se faz da greve e o uso e abuso d’essa grande arma de ultimo recurso, não tem dado entre nós senão perdas para todos os lados. Além de que «donde não ha, nada se póde tirar».