O Elmano

PUBLICAÇÃO: O Elmano

TYPE / TIPO: Jornal/News Paper 

DATE / DATA : 8 de Junho de 1907

NÚMERO / NUMBER: Número 1289

TEMA / SUBJECT: Gréve

OWNER OF COLLECTION: colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
CREDIT: 
IMAGES: conservasdeportugal.com

Gréve

Continúa sem esperança de solução rapida o conflicto entre o Syndicato de Conservas, soldadores e moços de fabricas d’esta cidade.

Actualmente intriga se, inventam se cousas varias, difficulta-se emfim a terminação d’essa pendencia que nunca deveria ter começado, tão insignificante é o facto que lhe deu origem — se não é immoral como muitos affirmam.

Mas seja ou não seja, o que é certo é que Setubal está sendo profundamente prejudicada com a paralisação de quasi todas as industrias, especialmente as que teem correlação com a de conservas. Francamente não podemos concordar que por capricho, vaidade ou desejo de vencer, se prejudique quem não é culpado de que um patrão despeça um trabalhador ou este queira levar a sua teimosia ao ponto de trabalhar n’uma casa contra a vontade de quem lhe paga.

Mas parece que se quer ir mais longe. Como alguns proprietarios de fabricas teem soldado as latas que estavam nos pios quando a classe dos soldadores resolveu conservar-se em sessão permanente, tenta-se agora uma campanha de descredito para as conservas setubalenses. Diz se que os operarios enviarão brevemente uma circular ás principaes casas que negoceiam no genero em França, Inglaterra e outros paizes, informando-as de que a sardinha das latas fechadas pelos patrões está deteriorada, e, por isso, incapaz para o consumo.

Não acreditamos que os soldadores assim procedam. Primeiro por que não é verdade que o peixe esteja em mau estado visto que foi examinado pelo sr. sub-delegado de saude. Segundo por que mesmo que estivesse deteriorado não poderia ser vendido pois as latas accusariam pelo bombeamento essa deterioração. Terceiro, por que tal procedimento, além de ser pouco digno, denunciaria falta de senso e seria altamente prejudicial á propria classe operaria.

O mal dos conflictos de minima importancia na sua origem está em elles se avolumarem pelas intrigas e pelas impensadas palavras que se pronunciam por diversas partes, irritando em vez de acalmar os espiritos já naturalmente pouco propensos á moderação.

Ganha alguem, por ventura, com a actual situação? Ganham os fabricantes? Ganham os soldadores? Ganham os trabalhadores das fabricas? Ganham os habitantes de Setubal?

Não ganha ninguem, e se não ganha por que se mantem um conflicto que a todos affecta, que a todos é prejudicial?

Mantem se por que nenhuma das partes quer ficar vencida! Triste preoccupação essa, condemnável capricho esse que cega os homens ao ponto de alterar o estado economico d’uma terra com tantos elementos de actividade e riqueza!

Vencer! Vencer é o que se pretende, é o que se deseja, sem se procurar saber se é justa, se é razoavel a causa da lucta.

Não queremos demover os que estão empenhados n’esta batalha infructifera, mas bem diriamos d’aquelles que pela sua influencia, illustração e bom senso, descobrissem o meio de dignamente pôr termo a este conflicto tão damnoso para os que vivem n’esta bella cidade do Sado.


O sr. Manuel de Mattos Paulo, correspondente da Vanguarda n’esta cidade, pede-nos a inserção da seguinte carta que fez publicar n’aquelle jornal da capital:

A hora já bastante adeantada da tarde, deparou-se nos hontem na segunda pagina, quarta columna da Vanguarda, uma «amavel» epistola, assignada pelo novel fabricante de peixe d’esta praça, sr. Arthur Moita, que visava a minha pessoa, na qualidade de auctor de uma correspondencia inserta no referido jornal do dia do 5 do corrente, a qual dizia respeito ao movimento grévista que presentemente aqui se está operando, entre industriaes e operarios — correspondencia em que o referido cavalheiro notou passagens, no seu dizer menos exactas e que lhe diziam respeito.

Lemos por mais de uma vez a nossa carta e a contestação do sr. Moita, e com franqueza não fomos capazes de descortinar o motivo que estimulou este cavalheiro, a ponto de vir a publico tão arrogantemente pretender destruir affirmações que sustentamos e consideramos, para todos os effeitos, como a expressão da verdade.

Ora, sua excellencia principia por desmentir o facto de, na assembleia do syndicato a que se refere a nossa carta, ter usado da palavra depois da leitura de um officio enviado ao syndicato pela classe dos soldadores horas antes, conforme dissémos na nossa citada correspondencia.

Usando da franqueza que sempre diligenciamos empregar em todos os actos da nossa vida, devemos dizer, que não assistimos á abertura da sessão, e só alli penetrámos quando a reunião estava em meio. Porém, depois de finda esta, um socio informou-nos de que havia sido lido o referido officio dos soldadores. Logo, sua excellencia que fallou já depois de nós alli nos encontrarmos, fel-o, não resta duvida, depois da leitura do mencionado officio. E n’esse caso não faltámos á verdade, como pretende insinuar.

Agora, vamos ao segundo ponto, em que sua excellencia notou «uma pontinha de discordancia» na passagem em que nos referimos á proposta do sr. Cunha, para que ao sr. presidente do conselho fossem pedidas, por telegrammas, as forças precisas para a manutenção da ordem — que por signal se tem mantido inalteravel — e segurança dos operarios que, pretendendo furar a gréve, se prestassem a substituir os grévistas.

Ora, não ha tal discordancia nas nossas allusões, porquanto sua excellencia disse muito clara e peremptoriamente, ante a numerosa assembleia, estar de accordo, em absoluto, com a proposta d’aquelle seu collega, menos na forma de pedir essas forças e que achava mais acceitavel em logar de serem solicitadas ao sr. presidente do conselho, serem requisitadas á auctoridade administrativa, apresentando até n’essa ordem de ideias a proposta que vae lêr-se:

«Considerando que o syndicato de conservas tem mantido as melhores relações de respeito e cordialidade com a auctoridade primaria d’este concelho;

«Considerando que sua excellencia o sr. presidente do conselho prometteu sempre que fossem pedidas providencias para assegurar o livre exercicio do trabalho ellas seriam dadas;

«Proponho: que se officie ao administrador do concelho que solicite as providencias para a manutenção da ordem e liberdade de trabalho. — Arthur Moita.»

Além d’isso, tambem o sr. Moita approvou o officio que foi enviado ao sr. administrador do concelho.

Depois do exposto, cremos não ficarem tambem duvidas algumas, sobre a veracidade no que dissémos relativamente a este ponto.

Iremos agora ao terceiro, aquelle que parece ter dado mais no góto ao sr. Moita. Dissemos nós: «Como a commissão que d’aqui foi ha dias a Lisboa, conferenciar com o sr. ministro do reino, solicitou a dissolução da sympathica e utilitaria agremiação dos trabalhadores das fabricas, o sr. Moita, que «ao que parece», foi o auctor da proposta, nota mais uma vez ter aquella collectividade agremiados de menor edade o que é, no seu dizer, contra a lei.» E o que disse, sustento por emquanto, sem que me convençam do contrario. Verdade seja, que não acompanhámos a commissão dos fabricantes a Lisboa, quando alli foi conferenciar com o referido ministro; todavia, fomos perfeita e nitidamente informados, de que, pelo sr. A. Moita foi proposto á assembleia do syndicato, em que resolveram a sua ida a Lisboa, o pedido de dissolução d’aquella associação pelo motivo acima citado, concordando todos com o facto, á excepção das firmas Pedro Calle & C.ª; Marianno, Lopes & C.ª e Frederico Ferreira Mariz & C.ª, que reprovaram tal proposta, abstendo-se de votar ainda o sr. Henrique Claro e não sei se mais algum. Ora já vê o sr. Moita, que estamos plenamente ao facto dos acontecimentos, apesar da sessão de ter sido secreta, como o haviam sido outras. N’essa ordem de ideias, cremos não ter errado.

Manuel de Mattos Paulo.

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