O Elmano - 8 de Dezembro de 1906 - Número 1245

O ELMANO

8 de Dezembro de 1906

Número 1245

Reporte: conservas de sardinha

colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

REPORTE

Londres, semana finda 29-11-906.

CONSERVA DE SARDINHAS

Os mercados inglezes continuam no mesmo que indicava em meus reportes anteriores e devido ao fim do anno estar proximo, não creio que transacções de grande importancia venham a ter logar antes de fins de janeiro.

Os vendedores continuam firmes em pedir alta de preços. Compradores ainda hesitantes e teem estes a vantagem da epocha do anno em que todos querem reduzir suas existencias — preparatorio para balanço.

Se alta tiver que ser, tudo depende dos fabricantes e dos depositarios — poderem conservar-se sem fazer qualquer venda apressada para realisar dinheiro, pois caso isso se dê, o primeiro que o faça, cria tal barulho, que adeus alta de preços.

Durante esta semana chegaram a Inglaterra 9.739 caixas de sardinha. Em egual semana de 1905, 12.219. Em egual semana de 1904, 10.142.

Durante o mez de novembro e até 30 do mesmo, foram desembarcadas em Inglaterra 28.042 caixas de sardinha. Em egual mez de 1905, 42.585. Em egual mez de 1904, 36.781.

Durante os 11 mezes de 1906, até 30 de novembro de 1906 foram desembarcadas na Inglaterra 351.434 caixas de sardinha. Em egual periodo de 1905, 404.275. Em egual periodo de 1904, 378.305.

Li com algum interesse a proposta do sr. dr. Pereira de Lima, de que os fabricantes mandem empregados ao estrangeiro vender sardinha.

A idéa é de primeira ordem, e isto de evitar commissionistas, agentes e mesmo — vamos mais longe, — depositarios, especuladores negociantes de atacado, exportadores, instituições commerciaes que teem levado seculos a estabelecer, é uma das fórmas mais avançadas de socialismo commercial que se me pode apresentar.

Os inglezes gostam muito de fazer negocio e muito especialmente directo, porem dá-se o caso que muitas casas teem seus agentes em Lisboa, mas o comprador portuguez que é esperto escreve directamente ao patrão, ignorando o agente.

O patrão que sabe muito bem esta musica vae respondendo directamente ao comprador e fornece-lhe a mercadoria.

Ao mesmo tempo vae remettendo ao agente copias de toda a correspondencia e mesmo combinando com elle o que deve fazer, que preço deve pedir e no fim…

O esperto é comido, a confiança existe entre o fabricante e seu agente, e a paz reina entre todos.

N’um dos seus numeros anteriores diz o sr. Z. Z. que a falta de dinheiro é a causa principal dos fabricantes não fazerem seus negocios directamente.

N’este ponto estou perfeitamente d’accordo com o sr. Z. Z., porem o que mais falta faz é a confiança do comprador, que anda desconfiado com as manobras de letreiros com nome e endereço, falta de estabilidade da marca, traição aos agentes, exportação directa ás colonias inglezas; emfim tudo isto que faz com que o verdadeiro negociante se enjoe e que o abutre commercial se vá aproveitando dos pequenos passarinhos, louquinhos que terão que lhe vir todos bater aos dentes.

Tenciono viver mais alguns annos, pois ainda sou novo, e por isso verei, que os fabricantes que limitam o numero das suas marcas, usam marcas registadas em vez de nomes e endereços, teem agentes espertos e trabalhadores que os protegem centralisando todos seus negocios, estarão bem e de cofre ao lado.

Os que assim não fizerem ou desapparecem ou vão estar amarradinhos de pés e mãos a qualquer aventureiro que por meio de dinheiro assim os amarre.

Assim como ha mulheres n’este mundo, que só vivem felizes quando atraiçoam os maridos e d’elles recebem bordoadas, tambem n’este mundo ha negociantes e fabricantes que só vivem felizes quando são roubados o que depois lhes faz nascer o desejo de enganar os que podem.

Estas idéas napoleonicas de desenvolver e consolidar os negocios, só podem ter os resultados que as invasões do Imperador tiveram, que foi este voltar a casa com menos do que tinha quando sahiu.

Viva e deixe viver, é o motto pelo qual todos os negocios se desenvolvem, e quem assim não fizer limita a orbita das operações.

Cá estou em Londres, de palanque, á espera de ver o que vae sahir de tanto brincar com essa pequena industria de conservas.

Wideawake.

Scroll to Top