O Elmano - 28 de Novembro de 1906 - Número 1242

O Elmano

28 de Novembro de 1906

Número 1242

Venda de sardinha

colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

Venda de sardinha

Os armadores proprietarios dos diversos apparelhos de pesca de sardinha que funccionam na costa da Galé, dirigiram ao sr. José Joaquim Fragoso, presidente do Syndicato de Conservas d’esta cidade, o seguinte officio:

Ill.mo e Exc.mo Sr. Presidente do Syndicato de Fabricantes de Conservas de Setubal

Os abaixo assignados, proprietarios de apparelhos de pesca que abastecem de sardinha o mercado d’esta cidade, veem rogar a V. Ex.ª a subida fineza de submetter á esclarecida apreciação de todos os membros do syndicato a que V. Ex.ª tão dignamente preside, o alvitre que n’esta occasião lhes occorre em face da resolução ultimamente tomada com relação á suspensão de vendas de peixe depois do pôr do sol.

Demonstrar com variadas razões o inconveniente e prejuizo que tal resolução acarretam seria fastidioso, e por isso limitar-nos-hemos a citar o seguinte caso que bem justifica a razão do nosso alvitre.

Aos cercos americanos só é permittido pescar a uma distancia da cidade que varia entre 8 e 12 leguas, succedendo quasi sempre, apezar do auxilio de rebocadores, que os seus barcos não conseguem transportar-se á cidade em menos de 4 ou 5 horas; isto que succede com os cercos succede tambem com as armações á valenciana, especialmente aquellas que demoram a maior distancia da cidade. Resulta, pois d’este facto que o peixe colhido á uma ou duas horas da tarde não consegue transportar-se ao local da lota dentro do limite das horas de venda, realizando-se esta sómente no dia seguinte, isto é, 18 horas depois do peixe colhido.

Mas em que condições se encontra então este peixe?

No mais deploravel estado que a ninguem aproveita; não aproveita o fabricante porque não póde produzir bom fabrico com peixe avariado; não aproveita o exportador de peixe em sal por que luctará com a concorrencia de peixe fresco e de boa apparencia de outras localidades; e são finalmente prejudicados o proprietario e os pescadores porque além da depreciação se vêem privados por muitas horas de pessoal e embarcações para nova pesca que, sem taes elementos, não póde realizar-se.

Para evitar a successão d’estes prejuizos e transtornos que pódem anniquilar a industria da pesca, uma das principaes d’esta terra e á sombra da qual se acolhe uma grande parte da sua população, julgámos do nosso dever procurar nos senhores fabricantes de conservas apoio ao nosso alvitre para a solução de tão importante assumpto, que bem digno se torna de coadjuvação no interesse geral de todas as classes que se acham ligadas á industria da pesca.

Esse alvitre consiste, pois: Em se prolongar até ao toque de recolher, em qualquer época do anno, a venda em lota de todo o peixe que até aquella occasião se apresente no local da venda.

Todo o peixe que fôr chegando, mesmo depois do referido toque de recolher, aproveitará a venda immediata quando vendedores e compradores se encontrem em exercicio.

Por esta fórma julgamos vêr garantidos os interesses de todas as classes pelo que esperamos que esse syndicato se manifestará em favor do nosso alvitre que, em boa verdade, não traz sacrificios para ninguem.

Deus Guarde a V. Ex.ª

Ill.mo e Ex.mo Sr. José Joaquim Fragoso, Presidente do Syndicato de Fabricantes de Conservas de Setubal.

Setubal, 25 de Novembro de 1906.

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