O Elmano - 27 deOutubro de 1906 - Número 1234

O ELMANO

27 deOutubro de 1906

Número 1234

colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

Conservas

A decisão do governo francez em elevar a pauta aduaneira sobre conservas de procedencia portugueza ou hespanhola é resultado de estudos muito cuidadosamente feitos e tem como principal fim, não o de excluir os productos portuguezes do mercado francez, mas o de proteger o publico em geral das embustices praticadas por fabricantes pouco escrupulosos.

A França, no assumpto de conservas alimenticias, creou mercados externos de grande consumo para os seus productos, e os fabricantes francezes, que possuem esses mercados, em vez de modernisar, desenvolver e auxiliar, não só o desenvolvimento da pesca pelos meios mais modernos e, por conseguinte, obter um maior abastecimento do peixe que lhe permittiria augmentar o numero de fabricas e operarios, teem preferido lançar as vistas para pontos onde, não só o peixe abunda, mas o seu preço é muito mais baixo, assim como a mão d’obra se paga por menos preço.

Portugal offerece um campo de primeira ordem para esta qualidade de operações, e muitos fabricantes francezes teem aberto fabricas, comprado outras e gradualmente invadiram os centros de producção portugueza.

O governo francez certamente reconhece o direito legitimo de qualquer industrial estabelecer fabricas onde melhor lhe convenha, porém o uso fraudulento, que é feito por esses fabricantes, das marcas que elles possuem, as quaes foram creadas com producto francez, é o motivo que obrigou o governo da republica a tomar medidas energicas.

As sardinhas fabricadas pelos fabricantes francezes em Portugal são, na sua maioria, em latas com as marcas registadas francezas, em muitos casos com os seus nomes e endereços de fabricas em França, e são exportadas e vendidas, em quasi todos os mercados do mundo, como sardinha franceza da velha marca.

Ora o governo francez não tem força para evitar que os inglezes, allemães ou russos comam gato por lebre, porém tem poder para evitar que o mesmo se dê em França, e, para este effeito, e devido ás muitas representações que lhe teem sido feitas, resolveu, e resolveu muito bem, impôr direitos prohibitivos, e, como muita da sardinha ia a Bordeaux e a outros portos, a fim de ser trasbordada, e por esta dar apparencias de vir de França, passou a lei de que todas as latas devem ter gravado o nome do paiz de origem.

D’esta ultima lei não se falla, pois não convem deixar sahir o gato do sacco.

Devido a esta corrente de circumstancias, o governo portuguez perderá o seu tempo em fazer representações ao francez sobre o assumpto.

O fabricante portuguez é que deve saber tirar partido d’este estado de coisas e não fazer o jogo do fabricante francez, como está fazendo, pois ha muitos e maiores perigos que o ameaçam.

Que sardinha, pescada no mesmo dia, na mesma armação, salgada com o mesmo sal, enlatada e preparada pelos mesmos operarios na mesma povoação, separado unicamente por uma parede, uma vae em nome francez e obtem 9$000 réis por caixa, outra vae em nome portuguez e obtem 4$500 réis por caixa; pergunta-se: que classe de gente consentiria isto a não serem os portuguezes?

O fabricante portuguez até chega ao ponto de pôr o seu retrato nas latas, adornando-as com nomes seus que consumidor algum de sardinhas comprehende ou sabe ler, porém que de nada mais serve do que evitar que mercado certo seja feito para o seu producto, pois ninguem se quer dar ao trabalho de lhe crear uma marca com mercado seguro, devido a que, por sua parte, o fabricante não presta respeito algum a estas instituições de negocio.

Os poucos que, teem adoptado o systhema de marca e não de nomes são os mais prosperos, os outros andam na bella vida airada de aventura, tendo os primeiros que soffrer pelos segundos, pois tudo que é sardinha portugueza tem que se vender pelo mais baixo preço.

Os perigos, que ameaçam essa industria e que a unica maneira de os combater está em crear mercado seguro, fiel e independente, são os seguintes:

A guerra entre o frigorifero e a lata está começada, e os meios adoptados pelo frigorifero não são dos mais desejosos, pois a arma de que usam é a de diffamação de todos os productos enlatados, tendo começado com os escandalos originados pelo presidente dos Estados Unidos, continuando com as campanhas na imprensa, e agora a declaração da primeira auctoridade sanitaria de Londres, que disse que analysou latas de todos os productos de comida enlatados e que os considera incapazes de servirem á alimentação humana.

Se o que este homem diz é officialmente publicado, fará muito mal.

Os japonezes, cujas industrias estão tomando grande rapidez na via do progresso, devido á segurança que as suas instituições e leis dão ao capital estrangeiro e devido ao seu systema de trabalhar sem se importar com o que o visinho faz, descobriram que tinham sardinhas nas suas costas e a industria de as enlatar em azeite já está começando; talvez que, dentro de 1 ou mais annos, tenham, não só varrido do Oriente o producto Europeu, mas invadido os mercados da Europa.

Os americanos tambem agora se metteram a desenvolver a industria de enlatar sardinha.

Os norueguezes e suecos já teem uma industria mais importante do que a nossa, no genero.

O fabricante de conservas deve, pois, lembrar-se de que tudo depende d’elle e que, governos ou politica, melhor é deixal-os fóra das questões ou problemas commerciaes, e que tome o exemplo que a Inglaterra offerece, e é que, sendo paiz que só vive das suas industrias, em cousa alguma essas industrias são protegidas pelo governo, cada industrial conta com capital sufficiente para desenvolver o seu negocio; os que não o teem e se mettem em cavallarias altas vão a terra, pois aqui ninguem se pode agarrar ás paredes; rodeia-se de uma collecção de agentes e respeita-os, estima-os e preenche os contractos em que com elles entra; é só d’esta forma que elle faz negocios seguros, que o imperio inglez está construido e que os 40 milhões de inglezes fazem duas vezes mais negocio do que os 70 milhões de allemães e que pouco se ouve de desintelligencia n’este imperio em que o sol nunca nasce.

Fica concluido que pedir ao governo francez para alterar a tarifa será pregar no deserto.

Londres, 5 outubro 1906.

P. Nascimento.

Este artigo que merece ser attentamente lido pelos fabricantes de conservas de Setubal foi enviado ao nosso presado collega O Futuro, de Olhão, por um seu amigo e patricio ha muitos annos estabelecido em Londres, o mercado mundial talvez de maior importancia.

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