O Elmano

PUBLICAÇÃO: O Elmano

TYPE / TIPO: Jornal/News Paper 

DATE / DATA : 21 de agosto 1907

NÚMERO / NUMBER: Número 1304

TEMA / SUBJECT: Fim da greve em Setúbal
 
OWNER OF COLLECTION: colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
CREDIT: 
IMAGES: conservasdeportugal.com

GRÉVE

Terminou o conflicto entre os trabalhadores, operarios soldadores e fabricantes de conservas d’esta cidade.

Não é agora occasião opportuna para fazer a historia d’essa gréve — a mais importante que tem havido em Setubal — que durante oitenta dias trouxe sobresaltado este centro industrial, produzindo enormes perdas ao commercio, trazendo a miseria ás classes trabalhadoras, especialmente a piscatoria que ha muitos mezes vem luctando com uma crise assustadora por falta de peixe.

N’este momento apenas devemos aconselhar o completo esquecimento de quaesquer aggravos entre as classes em que se deu a pendencia afim de que a paz seja prolongada e que por muitos annos não tenhamos a registar outro periodo de angustias e soffrimentos para os habitantes da formosa cidade sadina.

Uma gréve com as consequencias da que acaba de terminar só por causa muito importante deve ter logar. Por motivos futeis, por meros caprichos, partam elles d’onde partirem, nunca será bem vista nem apoiada uma pendencia que, como a que agora se deu, traz prejuizos d’algumas centenas de contos de réis a uma terra laboriosa e essencialmente industrial como Setubal.

Findou a gréve. Todos devemos regosijar-nos pelo acontecimento que vae trazer á cidade a normalidade do trabalho, a actividade e a paz, que são os principaes elementos da riqueza e bem estar dos povos.

Felicitações a quem contribuiu, desde o sr. presidente do conselho até ao mais humilde trabalhador, para este resultado.

Em seguida publicamos o auto da conciliação entre as partes litigantes. É concebido nos seguintes termos:

Aos dezenove dias do mez de agosto de mil novecentos e sete n’esta cidade de Setubal e sala das sessões da camara municipal compareceram o administrador do concelho de Setubal e os srs. Antonio Mathias Lopes, Arthur Pinto Moita, Horacio Henriques, Henrique Antonio Vidal Claro, Marianno Augusto Coelho, fabricantes de conserva de sardinha, representantes do Syndicato; Augusto Ernesto Palmeiro, Venancio d’Assumpção Sacramento, Francisco Xavier Correia, Luiz Filippe dos Santos, Antonio Simões Periquito, operarios soldadores e delegados da associação da mesma classe, e, finalmente: Arthur José da Silva, João Correia, Jeronymo Pires Fava, operarios trabalhadores de fabricas de conservas que aqui representam sua respectiva associação de classe e por estes ultimos, fabricantes e operarios, foi dito que de commum accordo e como representantes das suas respectivas classes davam por findo o conflicto em que se achavam envolvidos e se responsabilisavam: — os fabricantes a concederem o trabalho nos termos do regulamento que vae junto a este auto o qual se obrigam a cumprir e ainda a acceitar as condições de preço que antes auferia, em suas casas, todo o pessoal operario jornaleiro. Os operarios obrigam-se a trabalhar nas condições d’este regulamento.

Fabricantes e operarios obrigam-se: os primeiros a abrir as suas fabricas amanhã vinte agosto e os segundos a comparecerem ao trabalho em todas essas fabricas, respectivamente os moços no dia vinte e os soldadores no dia vinte e um.

Mais ficou estabelecido que 4 operarios trabalhadores da fabrica Victor Tertrais, Fils succ. seriam transferidos para outras fabricas do Syndicato assim como 3 outros moços da fabrica do sr. Sant’Anna egualmente passarão para as fabricas do mesmo Syndicato.

Pelo sr. administrador do concelho foi dito que de encargo do ex.mo presidente do conselho communica a todos quanto sua ex.ª se acha satisfeito e penhorado com o procedimento havido para com elle por fabricantes, soldadores e trabalhadores de fabricas, e que sinceramente se congratula pela feliz terminação d’este importante incidente. Pelo mesmo administrador tambem foi dito que pessoalmente tambem é grande a sua satisfação por vêr que emfim a paz e harmonia se acham estabelecidas entre as classes litigantes, que summamente feliz se julga por ainda que mediocremente ter concorrido para uma tal solução e que faz profundos votos para que a obra em que tomou parte seja sincera e duradoura, o que para elle constituirá premio mais que sufficiente dos seus trabalhos e diligencias. Em nome do Syndicato foi dito, pelo seu delegado, Arthur Moita, que as palavras proferidas por sua excellencia o senhor administrador do concelho como interprete dos sentimentos de sua excellencia o senhor Presidente do Conselho calaram no espirito dos fabricantes como uma nota vibrante de humanidade tão fóra das normas estabelecidas pelos poderes publicos que, tratando em regra de politica de campanario, deitam ao ostracismo as classes trabalhadoras do paiz, aliás dignas de todo o carinho. E’ para admirar e agradecer, por isso, a sympathica attitude do senhor Presidente do Conselho que veio trazer com a sua collaboração, benefica e conciliadora, a fraternidade aos que se guerreavam à outrance.

Sua excellencia, portanto, fazendo luz nos nossos espiritos, não deve melindrar-se com o registo do nosso penhor que aqui fica consignado n’um profundo agradecimento. Mas esqueça sua excellencia a pallidez das minhas expressões de agradecimento nas quaes vão envoltas tambem as expressões de commovido agradecimento do Syndicato.

Não posso tambem deixar de reconhecer os espontaneos serviços prestados por sua excellencia o senhor administrador do concelho que, com uma imparcialidade pouco vulgar nos tempos correntes, tomou a si uma quota parte de ingerencia activa n’este conflicto á qual contribuiu poderosamente para os bons resultados da sua solução. O Syndicato, por isso, com o mais vivo prazer agradece a sua excellencia a sua acção producente e que beneficios incontestaveis trouxe á classe dos fabricantes. A commissão dos soldadores e trabalhadores de fabricas aqui representados fazendo suas as referencias do delegado do Syndicato de conservas, o senhor Arthur Moita, agradece egualmente ao senhor Presidente do Conselho e bem assim ao senhor administrador do concelho, Jorge Gomes, todos os serviços prestados não só ás partes em litigio bem como aos legitimos interesses da cidade de Setubal. Mais foi dito pelo delegado do Syndicato, Arthur Moita, que não esquecerá esta reunião na qual um pacto entre operarios e fabricantes foi tacitamente realisado e espera que elle seja o inicio de uma vida nova, de aberta confraternisação regulada pelas regras da mais solida camaradagem. Pelo administrador do concelho foi dito que certo de interpretar o pensar do excellentissimo Presidente do Conselho agradece em nome d’elle e no seu as amaveis referencias que lhes acabam de ser feitas por fabricantes e operarios.

E não havendo mais nada a tratar foi encerrada esta reunião, de que eu Antonio Alves da Motta lavrei este auto que por todos vae assignado.

Jorge Fernandes Gomes
Antonio Mathias Lopes
Arthur Nunes Pinto Moita
Horacio Henriques
Henrique Antonio Vidal Claro
Marianno Augusto Coelho
Augusto Ernesto Palmeiro
Venancio d’Assumpção Sacramento
Francisco Xavier Correia
Luiz Filippe dos Santos
Antonio Simões Periquito
Arthur José da Silva
João Correia
Jeronymo Pires Fava

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