O Elmano
PUBLICAÇÃO: O Elmano
TYPE / TIPO: Jornal/News Paper
DATE / DATA : 23 de Janeiro de 1907
NÚMERO / NUMBER: Número 1255
TEMA / SUBJECT: Conservas
OWNER OF COLLECTION: colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
CREDIT:
IMAGES: conservasdeportugal.com
CONSERVAS
… Sr. Redactor.
Inquestionavelmente, o assumpto primordial e de maior importancia, que se discutiu no congresso de fabricantes de conservas de sardinha, realisado em outubro passado, nas salas da Associação Industrial de Lisboa, foi o das convenções commerciaes — com paizes estrangeiros. O alarme provocado pela elevação de direitos que a França decretou para a sardinha em conserva foi a causa determinante do mesmo congresso.
No «Elmano» de 15 de dezembro ultimo fiz algumas considerações sobre a orientação dada aos trabalhos encetados para induzirem a França a conceder-nos benevolamente o tratamento da nação mais favorecida. Não tive, escusado é dizel-o, a estulta pretensão de arvorar-me em mestre nem dizer a ultima palavra sobre o assumpto; todavia, não posso furtar-me ao ensejo de chamar a attenção dos interessados para a quasi realisação da minha prophecia, como demonstram os acontecimentos posteriores que vou enumerar.
No referido artigo de 15 de dezembro, ousei discordar dos planos apresentados, e mostrei quão antagonicos são os interesses da Associação Industrial de Lisboa com os dos exportadores em geral, — classe a que nós pertencemos. Consta me, e digo assim por não estar no segredo dos deuses, que a ideia predominante da illustre commissão executiva do congresso, é instar perante o Governo, pela applicação de sobretaxas nos productos importados da França, e outros paizes com que não temos tratados de commercio, obrigando assim aquelles paizes a estabelecerem modus vivendicomnosco, emquanto se não tornarem definitivas as convenções commerciaes. Insistindo no meu modo de vêr esta questão, e que já expuz no alludido artigo, accrescentarei, que póde muito bem dar-se a hypothese, de se decretarem as sobretaxas, e não se realisarem os tratados, restando-nos apenas, n’este caso, o amargurado prazer de felicitar a Associação Industrial de Lisboa, por ter, pela sua habil estrategia, conseguido o que ha annos diligencia obter — isto é, elevação de direitos sobre artigos importados que concorrem com as suas industrias — industrias na maior parte parasitas, e que para ahi vegetam pelo favor da pauta proteccionista, em prejuizo de toda a exportação, que tanta riqueza dá ao paiz.
Ignoro se os meus collegas me dão a honra de ler os meus artigos, o que aliás só a elles interessam. Se não se derem a esse trabalho nada me admiro, porque sou o primeiro a reconhecer o pouco valor d’elles; — mas se por ventura succeder o contrario, peço-lhes que compulssem o Elmano de 15 de dezembro e attendam bem no compte rendu da reunião da direcção da Associação Industrial de Lisboa, publicado no Seculo de 17 do corrente. Por esse compte-renduse avaliará o alarme, que vae no seio d’aquella agremiação pelo facto de s. ex.ª o encarregado da França em Lisboa haver declarado que o seu governo manifestára desejos d’abrir negociações com o de Portugal, para uma convenção commercial sob a base de concessões mutuas. Razão pois tinha eu, dizendo que só por esta fórma se podia aspirar á realisação de tratados de commercio, de que tanto carecemos, e a incompatibilidade commercial da Associação Industrial de Lisboa com a nossa collectividade, cujos interesses ella não póde por fórma alguma patrocinar.
A divisa d’esta associação é «Sobretaxas tudo concessões nenhuma!»
Senhores da commissão executiva, alerta!
Creia-me de V., etc.
Z. Z.