O ELMANO - 22 de Dezembro de 1906 - Número 12479

O ELMANO

22 de Dezembro de 1906

Número 12479

Conservas

colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

CONSERVAS (Reporte)

Semana finda em 13-12-906.

O mercado, devido á approximação do Natal e fim do anno, está quasi paralisado; muito poucas transacções se fizeram em sardinhas. Nas poucas vendas realizadas os preços não soffreram alteração.

As chegadas durante esta semana a todos os portos de Inglaterra foram 2:909 caixas.

Em egual semana de 1905, 3:694 caixas; em 1904, 10:639.

As chegadas pois, este anno, n’esta semana, são menos de 30 % do que em 1904.

Os fabricantes de conservas de sardinha devem só fazer uma marca para consumo em Inglaterra e só dois tamanhos — 22 mm com e sem chave e 40 mm com e sem chave, attendendo ás indicações que já anteriormente dei sobre as côres da illustração das latas.

Em 22 mm podem pôr 6/8, 7/9, 8/10, 10/12, 12/14 peixes, marcando nas caixas exteriormente o numero de peixes das latas e fazendo as partidas assim definidas.

Em 40 mm, 16/20, 20/24 e 24/30 peixes, marcando egualmente.

Deve-se manter e melhorar a qualidade, pois ha sempre meio de melhorar o preço quando a marca esteja acreditada. Quando qualquer lote de sardinha não fique bom convem passal-o a artigo de exportação, em marca para esse fim adoptada ou em folha branca.

Tenho um forte palpite que vae haver grande difficuldade em augmentar os preços no genero d’exportação; pois no estado em que as coisas andam, nem um congresso diario de fabricantes o poderá fazer.

Nunca os fabricantes terão força para regularisar e guiar os preços do mercado de sardinha em azeite, mesmo que marchem todos unidos e com a mesma idéa, emquanto houver por aqui homens que se entretenham em manter stocks de 50 a 100 mil caixas de sardinha nos seus armazens.

Tomem por exemplo a casa Morton, que não obstante fazer muita exportação directamente de Lisboa para as colonias inglezas, mantem em Londres um stock quasi sempre superior a 100 mil caixas de sardinha.

Logo que as botas lhe apertem em qualquer parte, póde de um momento para outro fazer descer o preço e crear panico n’um mercado, multiplicando ofertas e fazendo algumas poucas vendas.

Para fazer uma idéa do progresso d’esta casa no negocio de sardinhas, devo dizer que ha annos comprava quasi tudo que necessitava aos negociantes dos mercados de Londres ou Liverpool.

Amarrar estes negociantes de pés e mãos é impossivel e por isso quando alguns especuladores de Lisboa se metteram a exportar directamente para as colonias inglezas, desfazendo assim o poderio do commercio d’exportação ingleza e esquecendo a norma e rotina commercial, Morton e outros resolveram medir-se com essas intelligencias.

Os negociantes e importadores antigos, enjoádos com as manobras portuguezas, ligaram pouca importancia ao assumpto, e de tal forma que Morton e outros foram a Portugal e lá se estão medindo tão razoavelmente, que são os mestres da situação.

O resultado das instrucções quixotescas dos Napoleões das conservas portuguezas, nos vastos campos commerciaes inglezes, será que se vão encontrar nas mãos de casas como a Morton, que e com muita razão os espremerá até que deitem summo.

Ora, quando um dia venham outra vez bater á porta de Londres, verão que ninguem lh’a abrirá. Por emquanto ainda é tempo de se governarem, porém, mais tarde, não o será.

Para este estado de coisas, ha muitos pontos que concorrem; e, como o sr. Z. Z. diz, a falta de massa é o principal.

Infelizmente para o fabricante portuguez as nossas instituições bancarias estão fóra dos eixos, e, por assim dizer, os bancos ou banqueiros de Lisboa não são mais do que descontadores de letras, que chegam a ter tempo para tagarellar sobre as operações que fazem e metterem-se a guiar o fabricante.

Ora o descontador de letras ou banqueiro, em geral, é homem que trata os seus negocios debaixo d’outra norma que o fabricante não póde tratar; d’ahi o fabricante tem que estar sempre bem com elle e para esse fim anda desorganisado.

O mal que este estado de coisas cria á communidade commercial é terrivel e, por isso, os fabricantes portuguezes deverão emancipar-se do jugo que os banqueiros de Lisboa lhes põem.

O allemão ou estrangeiro que se estabelece em Lisboa, se quer viver em paz, a primeira coisa que faz é abrir conta com banco em Londres, ou em Hamburgo. Se tem a sacar sobre seus clientes, remette seus saques ao seu banqueiro em Londres. Se precisa de massa em Lisboa, vende no mercado livre cheque, ou saque sobre seu banqueiro em Londres ou Hamburgo.

D’esta fórma o seu papel na praça de Lisboa é sempre sobre banco do estrangeiro.

O banqueiro de Lisboa que lhe toma o papel, não póde metter o nariz nas suas operações.

Talvez que com algum movimento na direcção de cada um governar sua casa, os fundos subam e a doença que o sr. Z. Z. menciona possa ser, pelo menos, attenuada.

Wideawake.

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