O Elmano - 21 de Março de 1906 - Número 1177
O ELMANO
21 de Março de 1906
Número 1177
Crise na indústria
colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
Conservas de sardinha
O nosso collega Popular publicou hontem o seguinte artigo para o qual chamamos a attenção dos interessados:
«Como é sabido, esta industria encontra-se soffrendo d’uma aguda crise na visinha Hespanha e, por este motivo, houve na sexta-feira uma reunião em Madrid, no edificio do Congresso, a convite do ex-ministro da fazenda e deputado por Vigo, sr. Urzaiz, de mais de 40 senadores e deputados, representantes das regiões em que aquella industria predomina.
Só na Galliza existem 79 fabricas de conservas de sardinhas, e 48 no resto do littoral, fazendo ao todo 127, tendo mais de 18 mil operarios empregados n’esta industria. E como da mesma industria vivem tambem pescadores, resulta que mais de 40 mil familias tiram a sustentação d’ella tambem.
Foi exposto egualmente que é a primeira vez que esta industria pede protecção aos poderes publicos, do que se deve concluir que ella até agora tem podido viver e que só quando conhece o grave risco em que se encontra, como agora, é que recorre ao governo para que lhe acuda.
A exportação é calculada em mais de 80 por cento da producção, e como o cambio a desfavorece e ella não póde augmentar os preços dos seus productos, está actualmente soffrendo um prejuizo de cerca de 20 por cento, abaixamento realmente superior ao seu lucro industrial, o que equivale á sua inevitavel ruina.
No entender dos representantes da industria das conservas de sardinhas, as causas da presente crise são as seguintes:
1.º A baixa repentina dos cambios;
2.º As desvantagens da producção hespanhola, por não gosar esta industria do beneficio das admissões temporarias para as materias primas, de que desfructa a sua concorrente, nos mercados estrangeiros, a industria similar portugueza;
3.º A terminação dos tratados de commercio, que fechou varios e importantes mercados;
Como remedio de caracter immediato para que a industria possa subsistir, é necessario:
1.º Admissão temporaria das materias primas, como tem a industria de conservas portuguezas.
2.º Abaixamento do direito, estabelecendo para essas materias primas, no maximo, 15 por cento ad valorem;
3.º Que nos proximos tratados de commercio se consiga um favor especial para esse producto, o que não parece difficult, pois que, havendo só Portugal que tenha esta especie de productos, talvez os demais paizes possam conceder vantagens, que se não poderiam estender ás outras especies de conservas alimenticias.
Como se comprehende bem, este assumpto, pela intima ligação que tem com a nossa industria das conservas de peixe, merece ser attendido, tanto pelos interessados n’esta industria entre nós, como pelo governo e demais poderes do Estado.»