O Elmano - 17 de Novembro de 1906 - Número 1239
O ELMANO
17 de Novembro de 1906
Número 1239
Artigo de Z.Z. (?)
colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
Conservas
Amigo e sr. Redactor. — Tão favoravelmente foi, por v., acolhido o meu pequeno artigo sobre «Conservas», que venho novamente importunal-o. Não é vicio de escrevinhar, porque a minha vida afadigada de industrial, não permitte, que me dedique a este passatempo, mas o profundo amor que tenho á minha profissão, obriga-me a discutir assumptos que lhe dizem respeito, sempre que eu veja na discussão alguma vantagem, por pequena que seja.
D’esta vez foram-o «Compte rendu» da sessão commemorativa do primeiro anniversario do centro regenerador em Setubal, publicado no jornal «O Seculo» de domingo ultimo, e a local «Jornalistas Japonezes,» que despertaram a minha attenção, suggerindo-me as breves reflexões que se seguem.
Antes, porem, de as consignar ao papel confesso que hesitei um pouco, por ter de me referir ao discurso proferido por um homem de grande valor intellectual, o sr. dr. Pereira de Lima. Parece mesmo rematada loucura commentar as considerações, que sobre a industria de conservas, aquelle brilhante orador fez no centro regenerador; mas se a tal me abalanço, é pela razão acima exposta, e não por jactancia de querer medir-me com um talento d’aquella ordem.
Entendo que ainda é cedo para se ajuizar do resultado dos trabalhos do congresso de fabricantes. Não ha tempo material para tornar effectivas e pôr em pratica as deliberações ali tomadas, algumas de grande alcance, outras de somenos importancia, e uma perfeitamente inutil e talvez até prejudicial. Attendendo, porém, á boa vontade com que trabalha e ao pouco tempo de que dispõe, a commissão executiva, nomeada para obter dos Poderes Publicos a realisação das aspirações manifestadas no mesmo congresso, creio ser extemporaneo e até injusto qualquer commentario desfavoravel sobre os seus resultados.
Allegou S. Ex.ª, que toda a gente entende que as latas de conservas devem ter o nome do fabricante. Toda a gente não, porque aquella deliberação foi approvada no congresso apenas por maioria; d’onde se conclue que não agrada a todos.
Improficuo, a meu ver, é o conselho que dá aos fabricantes para substituirem os commissarios por um empregado pago por todos, para ir ao estrangeiro estudar os differentes mercados, afim de venderem directamente os seus productos. O que falta aos fabricantes que recorrem aos commissarios d’aqui, não é o conhecimento dos differentes mercados importadores de sardinha, mas sim o capital que demandam as transacções feitas directamente com proveito. De contrario essas vendas redundavam em prejuizos ainda maiores. Para não ser demasiado longo abstenho-me de justificar esta minha convicção com detalhes exemplificativos.
Ao sr. dr. Pereira de Lima agradeceu o illustre presidente do syndicato de conservas sr. José Joaquim Fragoso, os serviços que tem prestado á industria. Se estivesse presente teria calorosamente secundado aquelle agradecimento, visto que em principios do corrente anno prestou S. Ex.ª á nossa classe serviço tão valioso e de tal magnitude, que não é facil esquecel-o.
E agora reportando-me á local sobre jornalistas japonezes, permittam os meus collegas que lhes diga que não tomem a nuvem por Juno. Não ha motivo para tão grandes sobresaltos! Dadas as suas excepcionaes qualidades d’iniciativa e actividade, é poderosas faculdades d’assimilação, teriamos decerto nos japonezes concorrentes temiveis e esmagadores, se não existisse para elles o inconveniente de não terem sardinha — materia prima aliás essencialissima para a nossa industria. Muito felizmente para nós, o peixe que elles mettem em latas é comparavel aos «Sprats» que se pesca nas costas de França e Inglaterra, e tambem aproveitado em conserva, mas cujo sabor e qualidade são muito inferiores aos da nossa sardinha. Haja pois tranquillidade e paz d’espirito!
Nos processos de fabricação estão elles tão adiantados como nós. Quem escreve estas linhas já teve occasião d’examinar latas feitas no Japão, por isso faz esta affirmativa. O proprio azeite sem ser de superior qualidade não era todavia igual áquelle com que os vendedores ambulantes andam envenenando a população de Lisboa.
Acho engraçado dizer-se que os japonezes projectam fornecer-se de azeite em Portugal; mas abstenho-me de quaesquer considerações a este respeito, para não cahirem sobre minha pobre cabeça, os raios e coriscos da Real Associação Central d’Agricultura.
Creia-me como sempre
De v. etc.
Z. Z.