O ELMANO - 16 de Janeiro de 1907 - Número 1253

O ELMANO

16 de Janeiro de 1907

Número 1253

Conservas

colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

CONSERVAS

O sr. P. do Nascimento, que como já dissemos reside em Londres, responde no nosso prezado collega O Futuro, ao artigo que no Elmano de 19 do mez de dezembro findo, publicou Z. Z.

Imparciaes como somos n’esta questão e crentes de que ella interessa á nossa industria conserveira, transcrevemos como o Futuro costuma fazer aos artigos de Z. Z. a resposta do sr. P. do Nascimento.

Eil-a:

London, 26 dezembro 1906.

Amigo e sr. redactor.

Pelo numero de O Elmano, de 19 do corrente, vejo que o sr. Z. Z. me dá a honra de responder á ultima carta que v. publicou; e por isso, e como elle diz que da discussão nasce a luz, venho novamente importunal-o com a publicação d’estas linhas.

Diz o sr. Z. Z. que o facto de ter a França reduzido á nossa visinha Hespanha os direitos a 25 francos, como o eram antigamente, é prova de que as intenções são justas e que isso mostra a importancia ou referencia que a França faz ao seu tratado de commercio com a Hespanha.

Eu para isto vejo duas razões:

1.ª O golpe está e foi dado ao commercio de conservas de Portugal e Hespanha, com a paralisação da exportação por alguns mezes, o que levará algum tempo a reorganisar;

2.ª Não posso attingir que manobra diplomatica seja esta da parte dos francezes, ou que vantagens terão elles para isso recebido;

3.ª N’este anno, a colheita de fructas e vegetaes falhou na França e por isso os fabricantes francezes teem que comprar em Hespanha fortes quantidades, afim de aguentarem nos mercados a que teem de dar a concessão sine die, o que, segundo o meu modo de ver, quer dizer que a retirarão quando muito bem lhes convenha.

Diz o sr. Z. Z. que a França é tributaria de Portugal, em conservas.

N’este ponto não estamos de accordo.

A exportação total de conservas, em Portugal, attingiu, ou attinge, talvez, 1:400 contos por anno, dos quaes talvez 900 contos seja a parte que pertence á sardinha.

Nós exportamos para todo o mundo 900 contos de sardinhas, a França consome, é certo, grande quantidade de sardinhas, mas, unicamente para Inglaterra ella exporta mais de 50 milhões de francos em sardinha, ou sejam perto de 9:000 contos de réis. Isto, de per si é bastante eloquente.

Desculpe o sr. Z. Z. se tenho que mencionar alguns factos duros, mas creio que o sr. Z. Z. é portuguez e por isso não se offenderá.

O movimento total de Portugal em conservas é de 1:400 contos, isto dividido por muitos fabricantes e em que os francezes já estão tendo a parte de leão.

Temos em Inglaterra muitos fabricantes de conservas, e na França tambem alguns, cujo movimento individual de exportação é superior ao collectivo de todos os fabricantes de Portugal.

Nas minhas anteriores já disse que, pedindo ao governo francez para nos permittir a entrada da nossa sardinha, estamos fazendo o jogo dos fabricantes francezes que se apossam da nossa industria.

Considero falta de patriotismo, e pouca reflexão no modo de vêr as coisas, o auxiliar o desenvolvimento e a gradual absorpção das nossas industrias pelo elemento estrangeiro que só vem a Portugal para fabricar sardinhas que depois vende como francezas.

Um só condado da Inglaterra pode consumir tudo quanto pudermos produzir em conservas, comtanto que as preparemos bem e sejamos serios nos nossos negocios e fieis nos nossos contractos.

Que necessidade temos nós de perder o tempo em aturar as massadas de que os diplomatas francezes se lembrem nas horas vagas para passar o tempo, quando temos um campo vastissimo onde empregar a nossa energia?

Que posição occupa a França entre as nações industriaes do mundo com a sua continua tranquibernia de pautas e tarifas?

Tem 40 milhões de habitantes, população egual á do Reino Unido, e faz cinco vezes menos negocio do que elle.

Os nossos governos teem bastante entre mãos para que o commercio de conservas lhes esteja ainda a dar que fazer.

A França impõe direitos a tudo e até com as proprias industrias brinca, tanto que o commercio se retrahe.

Nós seguimos no mesmo caminho e — como o sr. Z. Z. diz — o tempo mostrará quem erra.

Nós temos a sardinha, temos o azeite em que tudo o que temos que fazer é procurar que seja puro e fino; a folha de lata e o estanho importamol-os em drawback, a mão de obra é baratissima, e no fim de tudo isto temos que ser guiados, dominados e comidos pelos francezes.

Pergunto: — que precisão temos nós da França quando no resto do mundo, podemos competir com ella e dar-lhe, até, algum calor?

Na maioria dos casos, o francez é… francez, e, se o sr. Z. Z. é portuguez, deve saber o que isto quer dizer.

Eu sei muito bem onde o mal de tudo está: — está na falta de massas, e, como na casa em que não ha pão, etc… No caso dos fabricantes de conservas em Portugal isso tambem se dá e andam que nem se entendem.

Muitos fabricantes francezes, quando teem o seu mercado feito na Inglaterra, veem aqui buscar capital para se alargarem e aqui teem, por exemplo, Chanpagne Freres, limited, The Continental Fruit Packing C.º, e muitas outras; mas quem é que vae aqui ter confiança em gente que não vê as coisas?

Se o banqueiro de Lisboa seguisse a norma que os bancos em Inglaterra seguem, de não se metterem a guiar os fabricantes e só lhes descontarem letras quando as facturas representando as mesmas pudessem ser vistas.

Fico, pois, como o sr. Z. Z., na dôce espectativa de ver o que vae sahir de tanta politica em industria tão pequena.

Ao mesmo tempo estimarei dever ao sr. Z. Z. a fineza de assignar, do Futuro, as suas observações.

A v., amigo redactor, mais uma vez agradeço a publicação das minhas pobres considerações e sou

De v. velho am.º e patricio

P. Nascimento.

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