O Elmano - 15 de Agosto de 1906 - Número 1215
O ELMANO
15 de Agosto de 1906
Número 1215
Aumento sobre as taxas aplicadas às conservas exportadas para França
colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
Conservas portuguezas em França
No dia 12 de julho votou a camara dos deputados em França a elevação dos direitos das nossas conservas de peixe, quer em azeite, quer em salmoura, prensadas ou enxovadas, passando a pagar 50 francos por cada 100 kilos. Com uma presteza que bem denota o grande interesse da França em afastar este producto estrangeiro dos seus mercados, communicam-nos ter o Senado votado a mesma lei, que mui brevemente deve ser promulgada pelo Presidente da Republica. A lei de 11 de julho do corrente, anno relativa á protecção das conservas francezas não foi reputada sufficiente para acautellar os interesses d’essa industria n’aquelle paiz e d’ahi uma brutal elevação de direitos que colloca o nosso paiz na impossibilidade de continuar abastecendo aquelle mercado, se a Hespanha, que não tem descurado os interesses dos seus fomentadores, conseguir um accordo commercial e nós continuarmos no bello isolamento em que nos collocam as ultra-protectoras pautas de 1892. Desde ha muito que se reconhece a necessidade da approvação das duas pautas:
A minima a applicar sobre determinados productos aos paizes que comnosco permutem vantagens commerciaes. A maxima para os que como a França agora nos lançam pesadissimos encargos e nos acarretam profundas perturbações economicas.
Na situação em que nos encontramos não ha meio possivel de lucta e as industrias verdadeiramente nacionaes hão de perecer esmagadas por uma errada orientação, que só serve para os que d’este regimen de excepção colhem illegitimos proventos.
Não póde ser. Não deve ser. A industria que acaba de ser ferida bem fundamente, roubando-se-lhe um dos seus principaes mercados, não deve deixar de reagir e de tal fórma, que se acautelem, como é de justiça, os seus interesses.
De todo o paiz é certamente a nossa provincia a que mais duramente deve sentir os effeitos da medida que acaba de ser adoptada pela França hoje, como hontem o fôra pela Allemanha e amanhã outras nações se seguirão, deixando-nos completamente isolados. E’ preciso despertar d’este lethargo que é a perda dos nossos mais caros interesses. E’ mister que todos se compenetrem dos seus deveres e dos seus direitos e conscios de uns e outros mostrem que sabem e desejam ser respeitados. Estamos certos que o governo, conscio da sua alta responsabilidade, ouvirá as justas reclamações de tantos interesses feridos, mas a iniciativa deve partir dos que por serem mais directamente affectados, assiste-lhes o direito e impende-lhes o dever de estudar conscienciosamente o problema e procurar a sua melhor solução.
Não escasseiam na nossa provincia homens de valor a esta industria ligados. E’ indispensavel que sem perda de tempo promovam uma grande reunião de todos os interessados, onde largamente seja discutido este momentoso assumpto. Adormecer é um crime que profundamente affectará a economia da provincia e de que serão principaes responsaveis os que não envidarem todos os seus esforços para o evitar ou attenuar.
Ahi fica o aviso. Nós cumprimos o nosso dever. Os industriaes que cumpram o seu.