O Elmano - 14 de Outubro de 1905 - Número 1137

O ELMANO

14 de Outubro de 1905

Número 1137

Regresso da reunião em Vigo entre o Sindicato de Conservas e os fabricantes de conservas espanhóis, com sucesso nas negociações.

Proposta de obrigatoriedade de menção de país de origem e ponto de fabrico na exportação de latas de sardinha.

Também inclusão do nome e nacionalidade do fabricante.

Regras para as diferentes classes de latas.

Estabelecimento de preço mínimo em Portugal e Espanha.

 

colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

Conservas

Regressaram de Vigo os representantes do Syndicato de Conservas de Setubal. Alem dos srs. José Joaquim Fragoso, Leon Delpeut, Arthur Moita, Henrique Claro, Antonio Ascensão e Mathias Pereira, que já indicámos no ultimo numero do Elmano, foram tambem os srs. Guilherme Augusto Costa e José Casimiro Sant’anna.

Os fabricantes portuguezes voltaram a Setubal penhoradissimos com os seus collegas da Galliza pela maneira bizarra e fidalga com que foram recebidos e obsequiados em Vigo, e satisfeitos por haverem accordado com os conserveiros hespanhoes as bases de uma combinação da qual pódem e devem resultar grandes vantagens para a industria de conservas de Portugal e Hespanha.

Muito desejamos que assim succeda e aqui deixamos endereçados aos representantes do Syndicato de Setubal os nossos mais calorosos parabens pelo bom exito da sua viagem a Vigo.

Todos os jornaes da importante cidade gallega se referem com palavras de louvor ás reuniões realisadas no domingo e segunda feira. Temos presentes o Faro de Vigo, Noticiero de Vigo e La Concordia de terça feira. D’este ultimo reproduzimos o seguinte artigo:

«Duas sessões se realisaram hontem e com ellas terminou seus trabalhos a Assembléa dos fabricantes de conservas portuguezes e hespanhoes celebrada em Vigo.

Além dos industriaes que enumerámos em o nosso numero anterior assistiram tambem os srs. Eduardo Gasset que tem fabricas em Riveira e Puebla; Yáñez y Arean de Grove; Eraclio Méndez, Juan Arias y Novoa y Compañia de Marin, e Alexandro Carreiro de Nova.

De ambas as sessões se lavraram as competentes actas das quaes apresentamos alguns trechos, que, unidos á nossa informação particular, completam a resenha do importante acontecimento.

O presidente do Syndicato de Setubal, sr. José Joaquim Fragoso, propoz que fossem submettidos á apreciação da Assembléa os seguintes themas:

— Conveniencia de obter mancommunadamente dos governos portuguez e hespanhol a publicação d’uma lei prohibindo a exportação de conservas de sardinha que não levem o nome do paiz de origem.

— Necessidade de combinar o peso das differentes classes de latas que se fabriquem.

— Estabelecimento d’um preço minimo para as classes inferiores de conservas de forma que aquelle seja igual em Hespanha e Portugal.

Depois de detida discussão, que sustentaram, principalmente, os srs. Gasset, Barreras, (D. Benigno e D. José) Aracil e Delpeut, adoptaram-se as seguintes conclusões:

Solicitar simultaneamente dos governos hespanhol e portuguez uma lei que obrigue a mencionar nas latas de conserva de sardinha, destinadas á exportação nos dois paizes, a nacionalidade e ponto da fabricação.

Que seja igualmente obrigatoria a inscripção do nome do fabricante nas latas a exportar.

A primeira d’estas conclusões foi approvada por unanimidade, a segunda foi approvada unanimemente pelos fabricantes hespanhoes e por maioria pelos representantes do Syndicato de Setubal que se reservaram o direito de consultar os seus collegas setubalenses com probabilidades de bom exito.

Deve dizer-se que individualmente acceitaram todos, menos um, a citada conclusão, porém como collectividade necessitam de consentimento do Syndicato.

O unico que dissentiu foi o sr. Delpeut, que opinou no sentido de ser gravado nas latas um anagramma, sem necessidade de se inscrever o nome completo do fabricante.

Outro dos accordos foi o seguinte:

Se 80 por cento dos fabricantes da Galliza acceitarem a proposta do Syndicato de Setubal, relativa ao estabelecimento d’um preço minimo para as classes inferiores de conservas, igual em Hespanha e Portugal, será designada uma commissão hespanhola que de accordo com outra portugueza combinem esse preço minimo.

Como aclaração aos primeiro e segundo accordos, consignou-se na acta que para serem executivos é indispensavel que a lei seja votada nos dois paizes. Tambem se fez constar que se chegar a constituir-se em Galliza o Syndicato, trust ou outra agremiação analoga, se convide para fazer parte d’ella os demais fabricantes de Hespanha.

Para formular as bases d’esse agrupamento foi nomeada uma commissão composta dos srs. D. Benigno Barreras, D. Guillermo Curbera, D. Gaspar Massó, D. Eduardo Gasset, D. Juan Goday, D. Alfonso Aracil, D. José Barreras, D. Daniel R. Valdés e D. Mamento Ferrer, que reuniram hoje pela manhã na séde da União dos Fabricantes dando começo aos seus trabalhos.

Logo que esteja redigido o projecto de trust ou de Syndicato se enviará um exemplar a cada um dos fabricantes gallegos para que declarem se o acceitam ou lhe façam quaesquer alterações, e uma vez que se obtenha a resposta de todos se procederá á redacção do projecto definitivo.

Na assembléa reinou sempre o maior enthusiasmo, manifestando-se tambem a decidida vontade de todos em chegar a uma solução firme e duradoura que possa ser base de maior prosperidade da industria de conservas.

O sr. Gasset e outros fabricantes mostraram-se dispostos a firmar em branco qualquer compromisso que tenda á união e solidariedade dos conserveiros portuguezes e hespanhoes para a defeza dos seus communs interesses, a fim de alcançar nos mercados do mundo a preponderancia a que tem direito a producção pesqueira de uma e outra nação.

Os que assistiram á Assembléa sahiram d’ella muito bem impressionados e abrigando fundadas esperanças de que os trabalhos realisados não hão de ser estereis.

Um dos representantes do Syndicato de Setubal dizia-nos:

«Tem tal importancia a reunião dos fabricantes hespanhoes e portuguezes, que só por elles terem adoptado resoluções de commum accordo não ha de tardar que as conservas de Hespanha e Portugal se vendam com alta de preços em Bordeos e Londres.»

E dizia isto fundado em que os francezes e inglezes não davam credito á realisação da Assembléa e muito menos á combinação entre uns e outros fabricantes.

O resultado das reuniões de hontem foi telegraphado para Paris e Londres.

O sr. Judice Fialho, importante proprietario de fabricas de conservas de sardinha no Algarve, telegraphou para Vigo adherindo a todas as resoluções da Assembléa que se effectuou n’aquella cidade. Parece que os restantes fabricantes algarvios tambem acceitam a combinação de Vigo.»

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