O Elmano - 13 de Novembro de 1901 - Número 765
Machinas de soldar
Na expectativa da gravissima crise de trabalho que a ameaça, a classe dos soldadores de Setubal, em representação que vae dirigir ao chefe do estado, pede que ou se prohiba ou se tribute fortemente a introducção no paiz das machinas de soldar latas de conserva, ou em summa se proceda de modo que não fiquem ociosos os centenares de braços que hoje se empregam n’aquella industria.
Seguramente esta petição é por todos os motivos digna de ser attentamente ponderada pelos governantes. Não se pode deixar assim sem trabalho, e, por consequencia, sem pão uma classe tão numerosa como é essa, e que, de momento, difficilmente encontraria onde exercer a sua actividade e adquirir os meios de subsistencia.
Mas, confessemol-o, o problema que se apresenta não poderá ter uma solução absolutamente satisfatoria, e qualquer resolução que o governo tome não resolverá a questão por completo.
Infelizmente para as classes trabalhadoras a introducção das machinas de soldar na industria conserveira está fatalmente indicada, n’um praso mais ou menos longo.
Poder-se-ha addial-a por algum tempo: — um, dois, tres annos, mais talvez. Porém, esse tempo decorrido, surgirá novo denunciar de novo, e então para que, se não perca uma das industrias mais florescentes de Portugal.
Emquanto na maioria das fabricas de conserva da visinha Hespanha a machina não tiver substituido o homem, em quanto em França não tiver succedido o mesmo, ainda o perigo que hoje ameaça os nossos soldadores poderá ser, até certo ponto, desviado das suas cabeças.
Justo é mesmo que assim se faça, pois seria barbaro, seria deshumano, atirar de repente á miseria um grande numero de familias. Justo e prudente, por que a fome não conhece leis, nem ha peor conselheira.
Mas que fazer amanhã, quando as fabricas estrangeiras, tendo barateado extraordinariamente os seus productos pela introducção na industria conserveira da machina de soldar, os lançarem no mercado por preços com que as nossas fabricas não poderão de modo algum competir?
Não nos illudamos, não se illuda a classe dos soldadores. A crise que actualmente a ameaça, e que cedo se converterá em facto, se em seu auxilio não vier o governo, pode este afastal-a, certamente, mas, como medida de caracter transitorio.
Mais cedo ou mais tarde — é apenas questão de tempo — a machina de soldar terá de ser chamada a desempenhar o seu papel na nossa industria de conservas, como outras machinas já o desempenham em differentes industrias.
Tambem tem os seus contras o progresso. E este de inutilisar braços humanos para os substituir pelas invenções varias da mechanica, não é o menor d’elles.
Necessario se torna, portanto, não procurar sómente o remedio á crise que já se avista muito perto, mas que todos estejam egualmente preparados para a que se avizinha a mais lentos passos, exactamente aquella que menos facil será remediar. Para que os não colha de surpresa, e cada um já saiba o que lhe cumpre fazer.
Machinas de soldar
O Trabalho, transcreveu parte do artigo que publicámos, sobre a representação que a classe dos soldadores de Setubal dirigiu ou vae dirigir aos poderes publicos para que se prohiba ou regulamente a introducção das machinas de soldar no nosso paiz.
Como commentario acrescentou:
«Tambem achamos que, como meio transitorio, a regulamentação do emprego das machinas seria a unica cousa que se poderia fazer.
«N’este sentido não fariam mesmo mal os soldadores dirigindo-se á camara, para que ella, em nome dos interesses da cidade, patrocinasse a sua causa junto do governo.
«Bem sabemos que sempre é pedir, mas só não pede quem pode mandar.
«O resto são basofias tolas, que não resistem ao exame.»