Boletim da Associação Comercial e Industrial de Setúbal nº 3

31 de Março de 1912

1ª série

Biblioteca Nacional de Portugal – Cota: C.G. 999 V.

SUMÁRIO
Desaçoriamentos. — Convite. — Atas da Direcção. — Secção sindical: Inquerito ás industrias de conservas. — Pelo Diario do Governo. — Indicações uteis — Rendimentos camararios. — Movimento do porto. — Movimento d’alfandega. — Exportação e importação. — Representação consular. — Socios inscritos. — Imposto do real d’agua. — Balancete. — Emprezas de navegação — Preços correntes — Reclamações instantes da Associação — Relação das Associações a quem é enviado o Boletim. — Expediente e Anuncios.

Industria das conservas

Entre os varios e sempre importantes problemas que vamos procurando mostrar n’este modesto estudo á nossa industria, surge nos um de capital importancia, que até pelo seu lado patriotico deveria ter um apoio geral por parte de todos os industriaes e comerciantes.

Referimo-nos á ideia, já defendida por nós em um congresso de fabricantes ha anos realisado em Lisboa, de se pedir ao parlamento e ao governo, uma lei que obrigasse o industrial fabricante de conservas, a gravar em todas as latas a origem da conserva e o nome do fabricante. A obrigatoriedade da indicação da origem d’estes produtos traria incalculaveis beneficios para a nossa industria nacional, taes como:

Saber-se em todo o mundo consumidor que a maior parte das sardinhas que até hoje teem comprado com rotulos d’outras proveniencias, onde aliás a sardinha quasi não apparece, é de proveniencia portugueza;

Que o nosso paiz é actualmente o maior produtor de sardinhas em conserva, não só pelo enorme desenvolvimento que esta industria tem adquirido, como pela abundancia e continuidade da pesca em algumas das costas portuguezas, nomeadamente a costa da Gallé, em Setubal, que sem duvida é a mais rica do mundo na pesca da sardinha;

Que entre as centenas de milhares de caixas que todos os anos se exportam do nosso paiz, vão em grande quantidade, qualidades recommendaveis, muitas das quaes rivalisam vantajosamente com as melhores marcas francezas, como o demonstra o acolhimento que teem dentro da propria França, para onde exportamos já em grossas quantidades e ahi percorrem os mercados ao lado das marcas d’aquelle paiz;

Que até aqui temos estado á mercê de commerciantes ou industriaes menos escrupulosos, que exportam as nossas sardinhas em latas das suas melhores marcas com rotulos estrangeiros, e ao tratar-se de qualidades inferiores não receiam que a verdadeira origem vá indicada nas latas.

Quanto ao nome do fabricante na lata, além das vantagens acima apontadas e ainda outras que facilmente se comprehendem, existe a mais lucrativa de todas, a qual seria o estimulo que se produziria entre os industriaes para o aperfeiçoamento dos seus produtos, começando pela escolha artistica dos trabalhos de litografia e empacotamento, etc., para se egualarem ao melhor que hoje se vê nos mercados que procuramos para as conservas, n’uma epoca em que tão preciso se torna ter em linha de conta o que se chama «uma boa apresentação», que só se consegue começando por impressionar bem o comprador com a boa apparencia exterior dos produtos, embora a qualidade do conteudo seja escrupulosamente preparada. A este respeito estamos ainda muito atrazados. Algumas marcas portuguezas brilham já hoje lá fóra, á força de muita propaganda e tenacidade de alguns dos nossos fabricantes que teem de lutar com mil obstaculos produzidos pela concorrencia estrangeira, e sobretudo contra a desorientação e deslealdade dos nossos industriaes que mais teem augmentado o descredito da nossa industria de conservas, pela falta de união e abandono a que votam os seus mais sagrados interesses.

Uma lei que não permitisse a exportação das conservas sem que as latas tivessem gravados a origem da conserva e o nome do fabricante, seria de um largo alcance.

A cada um a responsabilidade dos seus actos e aptidões.

O fabricante produzia bem, procurava levantar os creditos das suas marcas e por consequencia os creditos da industria, obtinha, essa satisfação porque o consumidor dar-lhe-ia a preferencia merecida, apontando o seu nome como fabricante escrupuloso, ao mesmo tempo que não teria maior relutancia em pagar por preços superiores;

O fabricante produzia mal, tinha o premio correspondente, porque pela mesma via o publico conhecia a proveniencia do bom e do mau.

Parece-nos não haver nada mais util e estamos certos que os fabricantes, como de facto todos os portuguezes estarão d’accordo connosco a este respeito.

Para apreciarmos as vantagens que d’aqui adviriam, basta recordar os beneficios resultados que obtiveram os fabricantes portuguezes com a promulgação da lei franceza de 11 de Julho de 1906 de protecção ás conservas francezas de sardinhas e legumes, que, além de dar a conhecer ao consumidor que a maior parte das sardinhas que comprava eram portuguezas, não evitou que as nossas marcas continuassem a ser ali apreciadas e caminhassem quasi a par com as melhores marcas d’aquelle paiz.

Temos sobre a meza um boletim francez que descreve o movimento que os industriaes d’aquelle paiz estão levantando, tendo á frente os deputados M. M. Georges Le Bail, Plouzané e outros, que acabam de apresentar no parlamento uma proposta de protecção ás conservas francezas, que muito nos interessa e diligenciaremos tornar bem conhecida dos nossos colegas, afim de acautelarmos os nossos interesses.

No proximo boletim trataremos este grave assumpto desenvolvidamente.

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