Boletim da Associação Comercial e Industrial de Setúbal nº 2

29 de Fevereiro de 1912

1ª série

Biblioteca Nacional de Portugal – Cota: C.G. 999 V.

SUMÁRIO

O açoriamento do cais da cidade — Atas da Assembleia Geral e da Direção — Movimento do porto — Movimento da alfândega — Exportação — Importação — Secção sindical — Inquérito à indústria das conservas — Impostos cobrados no terreiro municipal — Rendimento da Câmara.

SECÇÃO SINDICAL

Inquerito á vida comercial e industrial da cidade

Industria de conservas

No numero anterior deste Boletim, vimos qual era a importancia da industria de conservas de peixe, debaixo do ponto de vista da sua produção e valor alfandegario.

Em 1911 este foi para os 10.880.832 kilos de 979:274$880 réis, o que equivale a 90 réis cada kilo.

Embora sejam grandes as oscilações dos mercados e as diferenças cambiaes e ainda variadissimas as qualidades de fabrico, que correspondem a uma grande diversidade de preços, não andaremos longe da verdade se dissermos que esta industrial em Setubal, produz annualmente dois mil contos de réis.

É uma grande fonte de trabalho nacional a que os governantes devem ligar toda a atenção e os industriaes todo o seu cuidado.

As fabricas de Setubal empregam mais de 4.000 trabalhadores, pois que entre o seu pessoal contam 900 soldadores, 400 moços, 2.500 mulheres e 250 rapazes, dando em salarios mais de 500.000$000 réis annuaes, regulando estes, em media, 800 réis para os soldadores, 550 para os moços, 160 para as mulheres e 240 para os rapazes.

Se adicionarmos a estes numeros os resultantes dum rigoroso inquerito a todos os centros fabris do paiz teremos formado a ideia nitida e conscienciosa da alta importancia da industria das conservas de peixe em Portugal.

Nós somos actualmente os maiores produtores de conserva de sardinha. Invadimos todos os mercados e os nossos competidores, que isso sentem, tentam, por todas as formas, embargar-nos o passo.

Temos com a França, o modus vivendi, regimen de pauta minima, que nos passou de 50 a 25 francos de direitos, por cada 100 kilos.

Os industriaes francezes pensam, porém, insistentemente em modificar esta situação e ainda ha pouco foi apresentado, á Camara franceza, um projecto de lei que, quando aprovado, bastante a restringirá.

A Allemanha, reclamando, fundada numa disposição da convenção postal, contra a remessa dos mostrarios de conservas de peixe como amostras sem valor, pensou certamente em coartar a nossa expansão commercial que este sistema, rapido e economico de propaganda, facilitava aos nossos industriaes.

Sobre a nossa banca de trabalho temos cartas em que pessoas fidedignas nos garantem que a propria Allemanha continua a expedir o seu mostrario pelo correio, como amostras sem valor, rindo-se da ingenuidade do nosso governo que tão á letra tomou a sua observação.

É esta uma industria bem nacional a que andam ligados os mais caros interesses duma grande parte da população portugueza; como tal temos que a estudar e desenvolver imprimindo-lhe aquela caracteristica das industrias progressivas que sabem acompanhar a marcha da civilização, impulsionada pela sciencia e pelas conquistas sociaes.

Esta industria tem fatalmente de entrar, em breve, n’um novo ciclo de transformação fabril, mas é preciso que o faça garantindo o maior exito na concorrencia commercial e o maior bem estar e felicidade na vida dos seus trabalhadores.

São estes os problemas que tentaremos resolver na sequencia deste modesto estudo.

Scroll to Top