Panfleto Associação de Classe dos Soldadores de Setubal
18 de dezembro de 1912
TYPE / TIPO: Panfleto / folheto
DESIGNATION / DESIGNAÇÃO: Associação de Classe dos Soldadores de Setúbal
INSCRIPTION / TEXTO:
DIMENSIONS / DIMENSÕES:
PRINTED BY / IMPRESSO POR: Composto e impresso na Typographia Albino, Avenida Todi e Largo do Carmo — Setúbal.
DATE / DATA : 18 de dezembro de 1912
OWNER OF COLLECTION: Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira
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AO PUBLICO
Sentindo-se feridos nos seus interesses, os operarios soldadores vem publicamente protestar contra o que se está passando com elles, posto que, sem razão alguma, os srs. fabricantes lhes vem cerceando os salarios, recusando-se na sua quasi totalidade a dar-lhes mais de trezentas latas vasias por dia.
E dizemos sem razão alguma, porque o facto tem todas as apparencias de uma villania. Na realidade a situação da industria de conservas não é sensivelmente peior do que em periodos anteriores, apesar de se terem elevado um tanto os preços dos materiaes, posto que parallelamente a essa elevação tem crescido tambem o valor do producto fabricado, a importancia da venda dos desperdicios da folha e ainda o das cabeças de peixe, que outr’ora o fabricante tinha de fazer remover á sua custa e que hoje lhe devem render approximadamente 3$000 réis por buque de sardinha que metam nas fabricas.
Accresce que os soldadores nenhumas reclamações de augmento no preço da mão d’obra tem formulado de ha muitos annos para cá, mantendo-se no terreno da defeza legitima das garantias que com o seu esforço conseguiram alcançar.
Porque então essa especie de perseguição que lhe vem fazendo o patronato colligado?
Naturalmente, porque os soldadores, de longa data, apoiam todas as reclamações justas e sensatas das outras classes proletarias, não as contrariando por especulação ou egoismo.
Trata-se, como se vê, d’uma vingança miseravel e pequenina, pois se destina a tirar o pão a gente que só com o auxilio dos seus braços grangeia o sustento seu e de suas familias.
Que se cuida d’uma perseguição iniqua não resta duvida. Ha casas que não teem vasio disponivel para quando mettem peixe. Pois essas casas preferem que a sardinha se esteja deteriorando durante cinco e seis dias, fechando-a nas peiores condições e com descredito para a industria nacional, mas não accedem a dar aos seus operarios mais do que as infimas trezentas latas combinadas com os demais patrões!
Mais ainda: Como um fabricante, o sr. Domingos José da Costa, não adherisse ao conluio que lhe propunham, mantendo-se na mais recta attitude e dando aos seus operarios todo o trabalho que póde proporcionar-lhes, uma commissão formada pelos srs. Mendanha, José Mariz e Raul Santos, não duvidou procural-o, querendo intimidal-o com ameaças para que tambem prejudicasse o seu pessoal. Note-se que o sr. Mendanha foi quem primeiro tentou organizar a associação das mulheres.
E’ triste que tenhamos de consignal-o aqui. Mas são antigos camaradas que outr’ora queriam beber o sangue dos patrões, aquelles que mais acintosamente parecem estar voltados contra a classe a que em tempo pertenceram, esquecendo quanto de sympathico tinha na sua tradição de velhos luctadores.
Que os grandes fabricantes nos quizessem lesar nos nossos interesses, damos de barato. O capital é por via de regra inimigo do trabalho. Mas que sejam antigos collegas, quasi tão pobres como nós, que se associem a actos de perseguição contra a nossa classe, isso é que mais sentimos e mais deploramos.
A classe dos soldadores mantém-se de resto onde tem estado. Não acompanhará movimentos desordenados e perturbadores praticados por outra qualquer collectividade. Mas dará sempre o seu apoio moral a todas as reclamações justas apresentadas nos devidos termos. D’este caminho ninguem a levará a arredar pé, empreguem embora os srs. industriaes os processos que quizerem empregar.
Podem mesmo fechar as fabricas, lançando a cidade na miseria. A responsabilidade será toda d’elles, do seu egoismo, da sua intransigencia, do acanhado criterio com que encaram a situação dos operarios, sem cuja cooperação aliás não pódem passar.
Repetimos: a classe dos soldadores nenhumas exigencias formulou, cousa alguma pediu para si. Tambem nada tem a vêr com as reclamações formuladas, por exemplo, pelas operarias, as quaes aliás acha justas, posto que o trabalho nocturno em todos os ramos industriaes teve sempre salario superior ao estabelecido para o trabalho diurno e o que as mulheres pedem — dez réis por hora — é realmente insignificante. Tambem os soldadores não pódem fazer pressão, nem querem, no sentido de que outros assalariados procurem melhorar de situação.
Se é por isso que os castigam, erram o alvo. Nada conseguirão senão aggravar resentimentos e malquerenças, perturbando a vida da industria, que no interesse de todos deveria decorrer serena e tranquilla.
Classe altiva e ciosa das suas tradições, os soldadores não fogem ao combate, uma vez que para esse campo os estejam chamando.
E tenha-se em consideração por parte dos srs. fabricantes, grandes e pequenos, antigos anarchistas e antigos jesuitas, que o ultimo a rir é o que ri com mais gosto.
E’ sempre ruim partida brincar com o pão do pobre, lançando o operario, sem motivo, nos excessos a que podem leval-o as privações e o natural desaforo contra aquelles que o opprimem e escarnecem!
Setubal, 18 de dezembro de 1912.
Pela Associação dos Soldadores,
A Direcção.
Editora — A Associação de Classe dos Soldadores de Setúbal.
Composto e impresso na Typographia Albino, Avenida Todi e Largo do Carmo — Setúbal.