A Indústria Conserveira em Matosinhos
A Indústria Conserveira em Matosinhos
Autor: José M. Lopes Cordeiro
Título: A Indústria Conserveira em Matosinhos
Exposição de Arqueologia Industrial
Editor: Câmara Municipal de Matosinhos
Edição Julho 1989
Tiragem 1.000 Exp.
Execução Gráfica: Simão Guimarães, Filhos, Lda.
José M. Lopes Cordeiro e Câmara Municipal de Matosinhos
ISBN 972-9141-07-2
N° Depósito legal 27.095/89
4 AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS
4. AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS
O desenvolvimento industrial do concelho de Matosinhos, em particular da sua capital, ganha uma expressão significativa no período do primeiro pós-guerra. Apesar da construção do porto de Leixões, da existência de unidades industriais de apreciáveis dimensões, como as fábricas de conservas Lopes Coelho, Dias e Brandão Gomes, ou como a Empresa Fabril do Norte, ainda antes daquele período, será contudo a progressiva instalação de novas fábricas conserveiras que irá marcar esse surto industrial. A industrialização vai provocar significativas transformações na economia e no tipo de sociedade que até aí caracterizaram o concelho. Com as fábricas, surge igualmente um novo e cada vez mais numeroso grupo social, o operariado.
Na construção do porto de Leixões trabalharam mais de 2.000 operários, enquanto que o crescimento do operariado fabril se fazia num ritmo crescente: além das centenas de operários que trabalhavam nos armazéns da Companhia Vinícola Portuguesa e na fábrica de conservas Brandão Gomes, contavam-se, no início do século actual, os 800 da Lopes Coelho, Dias, e os 241 da Empresa Fabril do Norte, para referir apenas as unidades industriais mais significativas.
As transformações verificadas na demografia do concelho podem avaliar-se no seguinte quadro:
Fàcilmente se verifica que a capital do concelho constituiu a freguesia que registou o mais acentuado movimento demográfico. Este teve o seu auge na década de vinte, a qual registou a instalação de um maior número de fábricas conserveiras (ver Quadro II.1). Testemunhando a posição cimeira que o centro conserveiro adquiriu na década de trinta — mais precisamente a partir de 1937 —, e ao contrário do que se verificava em Setúbal, Matosinhos não vai sofrer nesta década um decréscimo populacional. O retrocesso demográfico que, segundo Amorim Girão, se teria verificado na década de trinta em Matosinhos, como consequência da crise da indústria de conservas que, efectivamente, afectava os outros centros conserveiros (Setúbal, Sesimbra, Peniche e litoral algarvio), não teve aqui, portanto, existência real. O erro daquele autor consistiu simplesmente no facto de não ter levado em consideração a existência da nova freguesia da Senhora da Hora, que em 1933 foi desanexada da freguesia de Matosinhos, fazendo com que esta diminuísse de população.
Apesar da escassez de fontes sobre a existência de movimentações operárias durante este período, tem-se conhecimento da realização de algumas greves, como a greve da construção civil (1906) e a greve dos soldadores da Lopes Coelho, Dias, em 1913. Segundo testemunhava O Badalo, no 1.º de Maio de 1909 as manifestações operárias tiveram naquele ano uma importância digna de nota, apresentando como pontos altos a visita ao cemitério de Matosinhos e a sessão solene na sede da Associação das Quatro Classes, então instalada na rua Conde Alto Mearim.
4. SOCIAL TRANSFORMATIONS
The industrial development of the municipality of Matosinhos, particularly its main urban centre, gained significant momentum in the period following the First World War. Despite the earlier construction of the port of Leixões and the existence of sizeable industrial units—such as the canning factories Lopes Coelho, Dias and Brandão Gomes, as well as the Empresa Fabril do Norte—it was nevertheless the gradual establishment of new canning factories that marked this industrial surge. Industrialisation brought about profound transformations in both the economy and the social structure that had until then characterised the municipality. With the factories emerged a new and increasingly numerous social group: the industrial working class.
More than 2,000 workers were employed in the construction of the port of Leixões, while the growth of the industrial workforce continued at an increasing pace. In addition to the hundreds of workers employed in the warehouses of the Companhia Vinícola Portuguesa and in the Brandão Gomes cannery, there were, at the beginning of the twentieth century, 800 workers at Lopes Coelho, Dias and 241 at the Empresa Fabril do Norte, to mention only the most significant industrial units.
The demographic transformations of the municipality can be observed in the following table:
It is clear that the main parish of the municipality was the one that experienced the most significant demographic growth. This reached its peak in the 1920s, a decade that saw the establishment of a greater number of canning factories (see Table II.1). Reflecting the leading position that the canning centre attained in the 1930s—more precisely from 1937 onwards—and in contrast to what occurred in Setúbal, Matosinhos did not experience a population decline during that decade. The demographic regression that, according to Amorim Girão, would have occurred in Matosinhos in the 1930s as a result of the crisis in the canning industry—which indeed affected other canning centres (Setúbal, Sesimbra, Peniche and the Algarve coast)—did not, in fact, take place here. The author’s error lay simply in failing to take into account the creation of the new parish of Senhora da Hora, which in 1933 was separated from the parish of Matosinhos, thereby reducing its population.
Despite the scarcity of sources concerning labour movements during this period, there is evidence of some strikes, such as the construction workers’ strike (1906) and the strike of the soldering workers at Lopes Coelho, Dias in 1913. According to reports in O Badalo, the workers’ demonstrations on 1 May 1909 were of notable importance, with highlights including a visit to the cemetery of Matosinhos and a formal gathering at the headquarters of the Associação das Quatro Classes, then located on Rua Conde Alto Mearim.
A visita aos cemitérios, local preferido pelos oradores para proferirem os seus discursos, constituía um ponto de passagem obrigatória destas manifestações. No 1 de Maio de 1922, os cemitérios de Leça e de Matosinhos integraram igualmente o percurso da manifestação.
No seio dos operários conserveiros, destacava-se o grupo dos soldadores, que constituíam simultâneamente a sua aristocracia e o seu sector mais reivindicativo. As lutas que estes protagonizaram em Setúbal, reagindo contra a introdução das máquinas de soldar, constituíram talvez as manifestações mais combativas do movimento operário daquela época. Estas novas máquinas de soldar produziam 1.000 a 1.800 latas em oito horas enquanto que, no mesmo período de tempo, um soldador produzia uma média de 800 latas, podendo atingir as 1.200 se fosse excepcionalmente competente (ou apenas 500, no caso inverso).
Em virtude de a indústria conserveira se ter implantado em Matosinhos fundamentalmente após o primeiro conflito mundial, sendo mais recente que em Setúbal onde a concentração industrial nessa época já era assinalável, não vai viver intensamente as movimentações desencadeadas pelos soldadores contra a mecanização da sua actividade. Já referimos, no entanto, a existência de pelo menos uma greve dos soldadores da Lopes, Coelho Dias, além de se terem registado atitudes de solidariedade para com os seus companheiros de Setúbal. As Actas da Direcção da Associação Comercial e Industrial de Matosinhos referem, em 1923, uma participação da Associação de Classe de Soldadores pedindo aos industriais um aumento de cinquenta por cento sobre os preços então praticados, tanto no trabalho de empreitada, como no diário. No ano seguinte, a mesma Associação solicita de novo que seja concedido um aumento de salário aos soldadores, mas agora de 100% em cada cento de latas. A introdução das máquinas de soldar latas, apesar de também se ter verificado em Matosinhos, não foi efectuada num ritmo muito rápido. Em 1926 as fábricas conserveiras de Matosinhos ainda empregavam soldadores, embora já nem todos tivessem ocupação na indústria. No Arquivo Histórico Municipal de Matosinhos encontra-se correspondência que testemunha a existência, nessa altura, de cerca de meia centena de soldadores desempregados. Um ofício do Sindicato dos Operários da Indústria de Conservas de Matosinhos refere, em 30.6.1933, que ‘os industriais conserveiros propõem-se introduzir nas suas fábricas máquinas para a soldagem das latas que até agora se vem fazendo manualmente. A invocação (sic) representada por tais máquinas terá como consequência necessária e imediata a suspensão de trabalho a mais de 120 operários.
Visits to cemeteries, the preferred setting for speakers to deliver their speeches, constituted a mandatory stage in these demonstrations. On 1 May 1922, the cemeteries of Leça and Matosinhos were likewise included in the route of the march.
Within the canning workforce, the group of soldering workers stood out, simultaneously forming its elite and its most assertive and demanding sector. The struggles they led in Setúbal, in reaction to the introduction of soldering machines, were perhaps the most combative expressions of the labour movement of that period. These new machines were capable of producing between 1,000 and 1,800 tins in eight hours, whereas, in the same period, a manual solderer produced on average 800 tins, reaching up to 1,200 if exceptionally skilled (or as few as 500 in less favourable cases).
Since the canning industry was established in Matosinhos mainly after the First World War, and was therefore more recent than in Setúbal—where industrial concentration was already significant—it did not experience as intensely the movements led by solderers against the mechanisation of their work. Nevertheless, as previously mentioned, there was at least one strike by the solderers of Lopes, Coelho Dias, and acts of solidarity with their counterparts in Setúbal were also recorded.
The minutes of the Board of the Associação Comercial e Industrial de Matosinhos record that, in 1923, the Solderers’ Trade Association submitted a request to industrialists for a 50% increase in wages, both for contract work and daily labour. The following year, the same association again requested a wage increase, this time of 100% per hundred tins. Although the introduction of can-soldering machines also took place in Matosinhos, it did not occur at a particularly rapid pace. As late as 1926, canning factories in Matosinhos still employed solderers, although not all of them were fully occupied within the industry.
Correspondence preserved in the Municipal Historical Archive of Matosinhos indicates that, at that time, there were around fifty unemployed solderers. A document issued by the Union of Workers of the Canning Industry of Matosinhos, dated 30 June 1933, states that “canning industrialists intend to introduce machines into their factories for the soldering of tins, which has until now been carried out manually. The adoption of such machines will have the immediate and inevitable consequence of suspending the work of more than 120 workers.”
Confirma-se, deste modo, a lenta e tardia mecanização desta indústria em Matosinhos, o que não é de todo surpreendente atendendo às enormes dificuldades financeiras existentes no sector, que dificultavam o investimento na aquisição de maquinaria.
Além da já referida Associação de Classe de Soldadores, activa pelo menos até 1923 e 1924, tem-se conhecimento da existência, em 1926, do Sindicato dos Operários da Indústria de Conservas de Matosinhos. A existência de uma organização autónoma de soldadores não é surpreendente, atendendo ao facto de aquele grupo constituír uma aristocracia no seio dos operários. Não se encontraram contudo elementos que permitam afirmar a coexistência das duas estruturas: a Associação de Classe dos soldadores e o Sindicato operário.
A organização corporativa da indústria e a entrada em vigor do Estatuto do Trabalho Nacional tem como consequência imediata a transformação (e liquidação) do antigo Sindicato operário em Sindicato Nacional, de acordo com o figurino então aprovado para todos os ramos profissionais. Uma das primeiras preocupações do regime, traduzindo a sua filosofia de colaboração de classes, constituía na realização de um contrato colectivo entre os dois organismos corporativos do sector: o Sindicato e o Grémio dos Industriais. Aliás, como afirmaram sucessivas vezes os dirigentes do Grémio, Matosinhos orgulhava-se de ter sido o centro industrial do país a assinar o primeiro contrato colectivo do sector conserveiro. Com a assinatura do contrato, o operariado efectivo da indústria obtinha agora a garantia de um mínimo de trabalho semanal durante todo o ano. A esses trabalhadores era assegurado trabalho ou salário correspondente a quarenta e oito horas em cada período de duas semanas.
A assinatura deste contrato colectivo não terá tido, contudo, a unanimidade da classe dos operários conserveiros. No discurso proferido aquando da cerimónia da assinatura, o então presidente do Sindicato, ao que tudo indica completamente rendido à dinâmica corporativa, refere no entanto que aqueles que, no seio da classe, os acusavam ‘de ter cometido erros” praticariam melhor acção se prestassem a sua colaboração aos novos dirigentes. Esta passagem do discurso revela-nos que a adesão aos ideais corporativos não terá colhido a unanimidade, existindo um sector dos operários conserveiros que não estaria na disposição de colaborar com os ‘construtores daquela grandiosa obra’, como se auto-qualificavam os empossados dirigentes sindicais. Apesar da colaboração que estes não deixavam de prestar ao regime, aproveitaram o acto para apresentar duas reivindicações: a primeira dizia respeito à ampliação para um mínimo de três dias a garantia de trabalho remunerado por semana (o contrato só o estipulava para dois); a segunda, era uma espécie de contrapartida que pretendiam obter pelo facto de aceitarem trabalhar aos domingos: nesses dias, não se dispunham a realizar a operação de fechar latas, o que obrigava os industriais a mandar enlatar e fechar as latas durante o dia anterior. Nenhuma delas foi aceite pelo Grémio dos Industriais.
Uma das consequências do relativamente rápido desenvolvimento do sector conserveiro traduziu-se pelo igualmente rápido crescimento da população operária. Dos cerca de 2.500 operários existentes em 1890, passou-se para aproximadamente 20.000 cinquenta anos depois. No entanto o atraso na mecanização da produção tinha também contribuído para esse crescimento.
Se esta tivesse ocorrido ao ritmo verificado noutros países, o número de operários seria muito inferior. Segundo Pinto Barbosa, em 1940, enquanto enquanto a nossa produção exigia cerca de 20.000 operários, ‘nos Estados Unidos ela seria realizada apenas com 2.500 e na Noruega, com 7.000.’ A mão-de-obra feminina representava naquela época cerca de 73% do total. Ainda de acordo com aquele autor, o número total de operários e a sua distribuição por sexos era, em 1940, a seguinte:
VER QUADRO
This confirms the slow and delayed mechanisation of this industry in Matosinhos, which is not at all surprising given the severe financial constraints affecting the sector, making investment in machinery particularly difficult.
In addition to the already mentioned Solderers’ Trade Association, active at least until 1923 and 1924, there is evidence of the existence, in 1926, of the Union of Workers of the Canning Industry of Matosinhos. The existence of a separate organisation for solderers is not surprising, given that this group constituted an elite within the working class. However, no evidence has been found to confirm the coexistence of both structures—the Solderers’ Association and the workers’ union.
The corporative organisation of the industry and the implementation of the Estatuto do Trabalho Nacional had as an immediate consequence the transformation (and dissolution) of the former workers’ union into a National Union, in accordance with the model then imposed across all professional sectors. One of the regime’s first priorities, reflecting its ideology of class collaboration, was the establishment of a collective agreement between the two corporative bodies of the sector: the Union and the Industrial Guild. Indeed, as repeatedly stated by the Guild’s leaders, Matosinhos took pride in being the industrial centre in the country to sign the first collective agreement in the canning sector.
With the signing of this agreement, the core workforce of the industry obtained the guarantee of a minimum amount of weekly work throughout the year. These workers were assured either work or wages equivalent to forty-eight hours in every two-week period.
However, the signing of this collective agreement does not appear to have enjoyed unanimous support among canning workers. In the speech delivered at the signing ceremony, the then president of the Union—apparently fully aligned with the corporative framework—nonetheless referred to those within the working class who accused them “of having committed errors,” suggesting that they would be better advised to collaborate with the new leadership. This passage reveals that adherence to corporatist ideals was not universal, and that a segment of canning workers was unwilling to cooperate with what the newly appointed union leaders described as the “builders of that great undertaking.”
Despite their collaboration with the regime, union representatives took the opportunity to present two demands. The first concerned the extension of the guaranteed minimum work period to three days per week (the agreement stipulated only two). The second was a form of compensation for accepting Sunday work: on those days, workers refused to perform the task of sealing tins, forcing industrialists to complete the canning and sealing process on the preceding day. Neither demand was accepted by the Industrial Guild.
One of the consequences of the relatively rapid development of the canning sector was the equally rapid growth of the industrial workforce. From approximately 2,500 workers in 1890, the number rose to around 20,000 fifty years later. However, the delay in mechanisation also contributed to this growth.
Had mechanisation occurred at the same pace as in other countries, the number of workers would have been significantly lower. According to Pinto Barbosa, in 1940, while Portuguese production required around 20,000 workers, “in the United States it would have been carried out with only 2,500, and in Norway with 7,000.” Female labour accounted for approximately 73% of the total workforce at that time. According to the same author, the total number of workers and their distribution by gender in 1940 was as follows:
SEE TABLE
Inicialmente, o Estado Novo anunciou uma plano grandioso de obras de assistência e previdência no sentido de resolver os problemas levantados pelas difíceis condições de vida com que se defrontavam os operários conserveiros. A realização deste plano levaria à criação, num período de tempo não muito longo, serviços de saúde, creches e escolas, assistência médica a todo o pessoal das fábricas, etc. O próprio Grémio dos Industriais de Matosinhos tinha desde 1932 um projecto de construção de uma Maternidade-Creche-Escola, e ainda, de um bairro operário. No defeso de 1933, como medida de auxílio, os operários foram contratados para a terraplanagem do local destinado à construção da referida creche-escola, trabalho que na época classificaram como ‘de escravo” Quase uma década depois ainda não existia a propagada creche-escola-maternidade tendo sido, em 1941, finalmente vendidos os 10.000 metros de terrenos que os industriais de Matosinhos haviam adquirido para aquele fim.
As condições de vida existentes no seio dos operários conserveiros de Matosinhos eram, nesta época, extremamente precárias. A mortalidade por tuberculose era ali uma das mais elevadas do país, sendo a classe conserveira a que contribuía com o maior contigente. O Sindicato fornecia, diáriamente, uma sopa a todas as crianças. Em 1943, o ‘Comércio de Leixões’ sublinhava no entanto a este propósito: ‘o contacto diário que temos com as nossas pequenitas trouxe-nos a triste certeza de que muitas delas vivem em tão grande miséria que nada mais comem durante o dia’.
As condições de habitação traduziam bem a extrema pobreza em que vivia o operariado: autênticos pardieiros, pelos quais pagavam por vezes rendas mais elevadas do que aquelas que seriam necessárias para habitações decentes. Tal como se verificava no Porto, a habitação operária típica eram as denominadas ‘ilhas’. Além deste tipo de habitação existiam também, embora em menor número, as ‘vilas”, com uma diferente ocupação do terreno. Como o último testemunho dessa realidade ainda pode demonstrar – a vila Galante -, essa ocupação verificava-se em altura (no caso, apresentando dois pisos), e não constituindo um acrescento do quintal, como geralmente acontecia no caso das ‘ilhas’.
Initially, the Estado Novo announced an ambitious programme of welfare and social support works aimed at addressing the problems arising from the difficult living conditions faced by canning workers. The implementation of this plan was expected, within a relatively short period, to lead to the creation of health services, nurseries and schools, medical assistance for all factory workers, among other measures. The Industrial Guild of Matosinhos itself had, since 1932, a project for the construction of a combined maternity–nursery–school facility, as well as a workers’ housing estate. During the closed fishing season of 1933, as a form of relief measure, workers were employed in levelling the land intended for the construction of the aforementioned nursery–school—work which, at the time, they described as “slave labour.” Nearly a decade later, the much-publicised maternity–nursery–school had still not been built, and in 1941 the 10,000 square metres of land acquired by the industrialists of Matosinhos for that purpose were ultimately sold.
The living conditions of canning workers in Matosinhos during this period were extremely precarious. Mortality from tuberculosis was among the highest in the country, with canning workers representing the largest share. The Union provided a daily soup to all children. However, in 1943, Comércio de Leixões noted in this regard: “our daily contact with our little ones has brought us the sad certainty that many of them live in such extreme poverty that this is the only meal they eat throughout the day.”
Housing conditions clearly reflected the severe poverty in which the working class lived: genuine slums, for which they often paid rents higher than those required for decent accommodation. As in Porto, the typical workers’ housing consisted of the so-called ilhas (rows of cramped dwellings). In addition to this type, there were also, though in smaller numbers, the vilas, which followed a different spatial layout. As can still be observed in the surviving example of Vila Galante, this layout developed vertically (in this case with two storeys), rather than as an extension into backyard space, as was generally the case with the ilhas.
Preocupa-os a atualização do equipamento, a conservação e o rendimento das máquinas, esquecem ou ignoram a influência que o ambiente exerce sobre o comportamento dos homens e portanto sobre o rendimento do trabalho.(…) São o conformismo dos trabalhadores que, para satisfazerem às necessidades primárias da sua condição humana, aceitam com espantosa resignação o encerramento das mais longas horas das suas vidas, dentro de sórdidas e escuras paredes, desde que lhes garantam o pão de cada dia – pão amassado com o suor e trocado pela saúde física e mental’. Abstraindo o aspecto um tanto ou quanto poético destas observações, não se pode deixar de reconhecer que o quadro por elas traçado refere algumas das características em que a indústria viveu durante bastante tempo. No entanto, apesar de um modo geral, e principalmente nalguns dos seus ramos, a arquitectura da nossa indústria ser extremamente banalizada, vamos encontrar no parque industrial de Matosinhos alguns exemplos de grande qualidade arquitectónica, nomeadamente no sector conserveiro.
O edifício da filial da fábrica de conservas Brandão Gomes, precocemente demolido, constituíu um dos mais interessantes exemplares da arquitectura industrial de Matosinhos. O aspecto mais singular que esta apresentava era o de possuír um torreão em estilo manuelino, destacando-se da restante fachada, e seria interessante conhecer as motivações que terão conduzido os proprietários a escolher semelhante solução. Embora seja difícil encontrar uma resposta para esta questão, não podemos deixar de assinalar que estamos perante um daqueles casos em que é necessário encarar o edifício industrial numa outra dimensão, que ultrapassa a sua tradicional função de espaço de produção. A existência do torreão manuelino confere ao edifício um carácter que ultrapassa grandemente as suas necessidades funcionais, ligadas à produção, associando-o mais a um investimento imobiliário de prestígio, talvez para simbolizar a qualidade dos produtos que aquela empresa então colocava no mercado ou, como referimos anteriormente, para dissimular a actividade produtiva realizada no seu interior.
As fábricas conserveiras de Matosinhos apresentaram, desde o seu surgimento, características arquitectónicas bastante semelhantes: construções em extensão, geralmente de um só piso na zona de fabrico, e dois ou três pisos na zona administrativa. Por outro lado, apresentavam um aspecto fechado e volumétrico, delimitando quarteirões, constituindo este inúmeras vezes o princípio gerador da fábrica. Estas característic as encontram-se tanto nas primeiras fábricas, como a Lopes, Coelho Dias ou a Pinhais, um pouco mais recente, como nas últimas que se construíram, como a Algarve Exportador ou a Raínha do Sado.
Uma característica marcante da arquitectura industrial conserveira de Matosinhos reside na ampla fenestração que muitas fábricas apresentam.
Se bem que a sua principal função fosse a de proporcionar que a iluminação natural penetrasse no interior do edifício e, ao mesmo tempo, possibilitasse a ventilação através das janelas, não pode deixar de se referir a existência de uma nítida intenção de embelezar o próprio edifício. Exemplos como a ‘Sagrada Família‘, a ‘Nun’ Alvares‘ e a ‘Algarve Exportador‘ são suficientemente ilucidativos a este respeito.
De um modo geral as estruturas de vigas que suportavam o telhado era de madeira, apesar de em muitos casos se encontrar apoiada em colunas de pedra ou metálicas, como é o caso da Lopes, Coelho Dias. A solução encontrada para os telhados varia entre os de ‘quatro águas’ e os que apresentavam a configuração conhecida por ‘dentes de serra’.
Quanto aos materiais de construção verifica-se o recurso aos materiais mais abundantes na região, como a madeira e o granito. A utilização da energia a vapor obrigou à construção de chaminés, a partir de então um traço distintivo da paisagem urbana de Matosinhos.
O parque industrial de Matosinhos apresenta outros exemplos interessantes de arquitectura industrial, além do sector conserveiro. Além dos edifícios das refinarias, em particular as primitivas instalações da Refinaria Angola, e de algumas exemplares interessantes como o da Fábrica de Penas de Aço (entretanto alterado) e o da Fábrica Concreto (num lamentável estado de degradação), merece especial destaque o conjunto de edifícios da Empresa Fabril do Norte. As instalações desta fábrica apresentam muito nítidamente uma outra especificidade da arquitectura industrial, baseada nas suas dimensões, em ruptura de escala com o tecido urbano.
O processo de industrialização marcou profundamente o desenvolvimento económico e urbanístico do concelho de Matosinhos. Não só na capital do concelho, como na quase totalidade das freguesias encontramos testemunhos das diferentes fases que acompanharam aquele processo.
Foram os diferentes aspectos desse desenvolvimento que pretendemos fixar, com esta Exposição e respectivo Catálogo.
Neste momento, parece-nos estar fora de dúvidas que o futuro desenvolvimento do concelho passa também pela compreensão — em todas as suas dimensões – desta importante herança que constitui o património industrial de Matosinhos.
They are concerned with updating equipment, with the maintenance and performance of machines, yet they forget or ignore the influence that the environment exerts on human behaviour and, consequently, on labour productivity. (…) It is the conformism of workers who, in order to satisfy the primary needs of their human condition, accept with astonishing resignation the confinement of the longest hours of their lives within sordid and dark walls, so long as they are guaranteed their daily bread — bread kneaded with sweat and exchanged for physical and mental health.
Setting aside the somewhat poetic tone of these observations, one cannot fail to recognise that the picture they portray reflects some of the characteristics under which the industry operated for a considerable period. Nevertheless, although in general — and particularly in some of its sectors — the architecture of Portuguese industry was extremely standardised, in the industrial landscape of Matosinhos we find examples of considerable architectural quality, particularly within the canning sector.
The building of the branch factory of Brandão Gomes, now prematurely demolished, constituted one of the most interesting examples of industrial architecture in Matosinhos. Its most distinctive feature was the presence of a Manueline-style tower rising above the rest of the façade, and it would be worthwhile to understand the motivations that led its owners to adopt such a solution. Although it is difficult to provide a definitive answer, it is clear that we are dealing with a case in which the industrial building must be understood beyond its traditional function as a space of production. The Manueline tower endowed the building with a character that far exceeded its functional requirements, associating it instead with a form of prestige investment — perhaps intended to symbolise the quality of the company’s products or, as previously suggested, to conceal the productive activity carried out within.
From their earliest development, canning factories in Matosinhos displayed fairly consistent architectural characteristics: elongated constructions, generally single-storey in the production areas and two or three storeys in the administrative sections. They also tended to present a closed and volumetric form, often defining entire urban blocks, which frequently became the generative principle of the factory itself. These features can be observed both in the earliest factories, such as Lopes, Coelho Dias or the slightly later Pinhais, and in more recent ones, such as Algarve Exportador or Rainha do Sado.
A defining characteristic of industrial canning architecture in Matosinhos is the extensive use of fenestration found in many factories. Although its primary function was to allow natural light into the building and enable ventilation through the windows, there is also clear evidence of an intention to enhance the aesthetic quality of the structures. Examples such as “Sagrada Família,” “Nun’ Álvares,” and “Algarve Exportador” clearly illustrate this point.
In general, the roof-supporting beam structures were made of wood, although in many cases they rested on stone or metal columns, as seen in the Lopes, Coelho Dias factory. Roofing solutions varied between four-pitched roofs and the configuration commonly known as “saw-tooth.”
As for construction materials, there was a clear reliance on those most readily available in the region, particularly wood and granite. The adoption of steam power necessitated the construction of chimneys, which thereafter became a defining feature of Matosinhos’ urban landscape.
Beyond the canning sector, the industrial landscape of Matosinhos offers other noteworthy examples of industrial architecture. In addition to refinery buildings — particularly the early installations of Refinaria Angola — and other significant examples such as the Steel Pen Factory (since altered) and the Concreto Factory (now in a lamentable state of decay), special mention must be made of the complex of buildings belonging to Empresa Fabril do Norte. These facilities clearly express another defining aspect of industrial architecture: their scale, which breaks with the surrounding urban fabric.
The process of industrialisation profoundly shaped both the economic and urban development of the municipality of Matosinhos. Not only in the town itself, but across nearly all its parishes, one can find evidence of the different phases that accompanied this process.
It is these various aspects of development that this Exhibition and its accompanying Catalogue seek to document.
At present, it seems beyond doubt that the future development of the municipality also depends on understanding — in all its dimensions — this important legacy that constitutes the industrial heritage of Matosinhos.