O Elmano
PUBLICAÇÃO: O Elmano
TYPE / TIPO: Jornal/News Paper
DATE / DATA : 4 de Maio de 1907
NÚMERO / NUMBER: Número 1279
TEMA / SUBJECT: Fim da greve dos soldadores da fábrica Mariano, Lopes & Cª, Setúbal
OWNER OF COLLECTION: colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
CREDIT:
IMAGES: conservasdeportugal.com
Fim da gréve
Terminou ante hontem o conflicto entre os operarios soldadores e os fabricantes de conservas que por alguns dias tanto inquietou esta cidade.
Depois da rejeição do accordo feito perante o sr. administrador do concelho — rejeição que impressionou desagradavelmente os habitantes de Setubal incluindo uma grande parte do operariado — a Associação dos Soldadores nomeou dois dos seus membros mais prestimosos, os srs. Ernesto Palmeiro e Luiz Filippe, para proporem a arbitragem ao Syndicato dos Fabricantes de Conservas, negando se este a acceital-a visto ter já accordado, com a direcção d’aquelle gremio, n’uma solução digna qual era a dos 15 soldadores effectivos da fabrica dos srs. Marianno, Lopes & C.ª retomarem o trabalho, sendo os 3 interinos collocados nas fabricas dos srs. Alves & Fragoso, Antonio Ascensão & C.ª e Henrique Augusto Claro.
Esforçaram-se os delegados da Associação, e até elementos estranhos, para que a arbitragem fosse acceita, mas o Syndicato manteve-se firme no proposito de conservar de pé o que havia combinado com os dirigentes da classe dos soldadores.
N’estas circumstancias os srs. Ernesto Palmeiro e Luiz Filippe, depois d’uma conferencia com os fabricantes, á qual assistiu o sr. administrador do concelho que n’esta questão procedeu muito imparcial e criteriosamente, acceitaram as condições do accordo, dando por findo o conflicto, que por esta fórma teve uma solução digna para todos. Convem accentuar que aquelles dois operarios, conhecendo bem o assumpto e sabendo que a gréve teve o seu inicio n’uma futilidade, tinham agora que vencer novo obstaculo provocado pela publicação e distribuição d’um manifesto da Associação dos Soldadores em que os fabricantes eram comparados aos auctores do incendio do predio da rua da Magdalena e considerados como animaes da raça asinina.
A verdade, porém, é que, apesar de todas estas contrariedades, a classe dos soldadores não ficou em má situação. Acceitando o accordo que a direcção do seu gremio fez com a direcção do Syndicato honrou-se, tanto mais que se d’elle não lhe vieram grandes vantagens, tambem os fabricantes as não conseguiram nem pretendiam conseguir, alem de que a gréve provocada pelos soldadores da fabrica dos srs. Marianno, Lopes & C.ª era injusta e apenas consequente d’um incomprehensivel capricho. Foi isto demonstrado em plena assembléa geral da Associação por diversos operarios e nomeadamente pelo sr. Xavier Correia, que é um dos mais estudiosos e illustrados a quem não se póde accusar de transigente ou de parcial dos fabricantes.
De tudo isto se conclue que os dirigentes da Associação devem sempre evitar conflictos sem razão e não sustentar ou apoiar gréves por motivos futeis ou de minima importancia, que pódem ser prejudiciaes. Ouvimos que isso se pensa pôr em pratica creando-se uma especie de tribunal arbitral composto de operarios e patrões e d’um individuo estranho a ambas as classes.
Crêmos que será esse o meio de estabelecer uma relativa harmonia entre fabricantes e soldadores, harmonia com que todos hão de ganhar, especialmente os que teem interesses directa ou indirectamente ligados á principal industria setubalense.