O Elmano - 15 de Setembro de 1906 - Número 1223
O ELMANO
15 de Setembro de 1906
Número 1223
Dados da exportação de conservas portuguesas
colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
Conservas
Está preoccupando, e com justificada razão, o nosso meio industrial, a resolução do governo francez, elevando os direitos de entrada das nossas conservas a 50 francos.
Lavra por este paiz fóra grande agitação em todas as classes affectadas, vendo ameaçada de ruina uma das nossas industrias mais genuinamente nacionaes e a mais florescente.
Ninguem lhe pode contestar estes predicados. Ao passo que a maior parte d’estas industrias vivem exclusivamente á sombra da protecção pautal, a das conservas tem conseguido florescer sem o mais pequeno auxilio dos nossos governos, conquistando os mercados mundiaes em competencia com os productos similares estrangeiros e a tal ponto que, em 1904, attingia só em sardinhas, uma exportação de 14.107.564 kilos, ou ao preço tabellar das nossas estatisticas, 1.342 contos.
E para se fazer idéa da intensidade da nossa exportação do ramo especial de que nos occupamos basta dizer que, só em conservas de sardinhas, transaccionamos com 24 paizes, sem contar as nossas colonias.
Os dez principaes mercados, consumidores foram:
Inglaterra — 456.460$000
França — 297.285$000
Allemanha — 182.395$000
Italia — 97.317$000
Brasil — 70.699$000
Belgica — 60.630$000
Estados Unidos — 34.992$000
Russia — 32.847$000
Egypto — 29.499$000
Argentina — 19.289$000
Das restantes industrias, á sombra da pauta creadas, poucas são as que conseguem vida desafogada, e, quando a teem, é á custa de um encarecimento extraordinario da vida interna do paiz.
Effectivamente não temos condições para ser um paiz industrial fóra da acção agricola ou pescicola. Faltam-nos todos os elementos para isso indispensaveis, e a proval-o, com uma evidencia que esmaga e deve fazer meditar os que teem por dever compulsar os nossos factores economicos, basta o resultado de treze annos de proteccionismo á outrance e que se compendiam no mappa que a seguir publicamos, representativo do nosso movimento commercial em 1904, porque não tivemos mais moderna estatistica a que nos soccorressemos:
Commercio geral
Importação.. 62.042.600$000
1.ª classe — 3.491.200$000
2.ª classe — 26.887.800$000
3.ª classe — 6.710.900$000
4.ª classe — 15.393.400$000
5.ª classe — 4.462.500$000
6.ª classe — 4.991.100$000
Taras — 105.700$000
Exportação.. 30.711.600$000
1.ª classe — 5.029.400$000
2.ª classe — 6.730.100$000
3.ª classe — 2.038.600$000
4.ª classe — 15.018.700$000
5.ª classe — 95.700$000
6.ª classe — 2.159.100$000
Elevámos extraordinariamente as nossas pautas para procurar diminuir a importação. Conseguimos apenas encarecer a vida interna do paiz de uma forma assustadora e anniquilar industrias florescentes e verdadeiramente nacionaes, como a vinicola e a corticeira. Ao passo que em 1892 as nossas importações para consumo eram de pouco mais de 30.000 contos e as nossas exportações de 25.000, ou, por outra, o nosso desequilibrio commercial pouco superior a 5.000 contos, chegámos em 1904 a um deficit commercial que attinge a bonita cifra de 31.331 contos!!
A nossa importação em 1904, e pouco deve afastar-se em proporção á do actual momento, é dupla da nossa exportação.
Bello resultado, só proprio de um paiz onde se descuram os mais graves e serios problemas de administração, para só pensarmos em politiquices mesquinhas que nos tornam ridiculos aos olhos de extranhos.
Um regimen pautal que nos arrasta a um tal resultado está fatalmente condemnado e não pode nem deve subsistir.
E’ mister que os governos se occupem, sem demora, de modificar este estado de cousas e para o conseguir é forçoso que o paiz se imponha. Depois do contracto dos tabacos e da approvação do orçamento do Estado, nenhum outro problema se nos afigura de mais capital importancia do que o estudo e discussão de um novo regimen pautal que proteja efficazmente as industrias que o mereçam, embora tenha de abandonar-se as que, depois da excessiva protecção em que teem vivido durante quatorze annos, não poderam ou não souberam habilitar-se a bem produzir e sem excessivo gravame para o consumidor.
Precisamos abrir largos mercados ás industrias genuinamente nacionaes e para o conseguir é mister que possamos corresponder, com reciprocidade de vantagens, ás que tivermos de pedir. E’ mister pôr cobro ao regimen fechado em que vivemos e approvar duas pautas cautellosamente estudadas: uma para ser applicada ás nações que comnosco permutarem productos, dando-nos condições favoraveis de entrada; outra, maxima, para as que, como hontem succedeu com a Allemanha e hoje com a França, nos fecharem os seus mercados.
Sem a approvação parlamentar d’estas duas bitolas, não ha negociações possiveis para tratados de commercio ou convenções commerciaes.
E porque, para que os nossos governos se movam e entrem n’um caminho de verdadeira e util administração, reputamos indispensaveis fortes correntes de opinião publica, não podemos deixar de nos felicitar com a attitude dos industriaes de Setubal, procurando a convocação de um congresso onde se estude o momentoso problema que affecta os industriaes de conservas de peixe.
(Do Guladiana).