O Elmano - 2 de Junho de 1897 - Número 329

O ELMANO

2 de Junho de 1897

Número 329

Artigo sobre a indústria de conservas

colecção da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal

A industria de conservas

Agora que pode considerar-se finda a gréve dos soldadores, que tão prejudicial se ia tornando para o commercio setubalense, seja-nos licito dizer alguma cousa com referencia á industria de conservas.

Setubal deve, incontestavelmente, a sua prosperidade nos ultimos annos ao enorme movimento industrial resultante do funccionamento de trinta e duas ou trinta e tres fabricas de conservas de sardinha, que dão trabalho a milhares de pessoas de ambos os sexos e alargam extraordinariamente o exercicio da pesca na costa da Galé e Cezimbra. Sem receio de commetter um erro, podemos affirmar que mais de metade da sua população vive das conservas.

Posto isto, convém dizer, francamente, que a primeira industria setubalense corre perigo de extinguir-se se os fabricantes não olharem com attenção para as verdadeiras selvagerias que por ahi se praticam em descredito da conserva portugueza e mui especialmente da manufacturada em Setubal.

Ainda não ha muito tempo o nosso consul em Pretoria, n’um relatorio ou cousa que o valha, fazia sensatissimas considerações sobre a conserva que nos mercados do Transwaal apparecia importada d’esta cidade, e classificava-a de vergonhosa em comparação com a importada de França e Hespanha.

E’ certo que em Setubal ha fabricantes meticulosos e conhecedores do genero, que capricham em apresentar nos diversos mercados estrangeiros productos que rivalisam com os melhores de outras nações, mas tambem não soffre duvida que outros ha, menos cuidadosos e só com mira no ganho de occasião, que fabricam pessimamente não se importando com o descredito que, por desventura sua e de Setubal, possa recahir sobre a conserva de origem portugueza.

Attentem os proprietarios das fabricas de conservas, emquanto é tempo n’este momentoso assumpto.

Se a gréve dos soldadores podia actuar profundamente e com desvantagem no commercio setubalense, o desleixo, a negligencia e quiçá a má comprehensão dos productores sobre a conveniencia de acreditarem lá fora os seus productos, podem trazer-lhe a completa ruina, e, por consequencia, collocar Setubal em plano inferior, como cidade industrial, a Covilhã ou Portalegre, que tão distinctamente lhe disputam a primasia.

A’manhã é tarde.

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