O Elmano - 4 de Dezembro de 1901 - Número 771
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Machinas de soldar
Como adiante se noticia, está convocada a assembleia geral da Associação Commercial de Setubal, para se reunir hoje, a fim de resolver a maneira de representar ao governo pedindo-lhe protecção para a classe dos soldadores.
Encarando o problema da grande crise de trabalho que ameaça esta classe, quando a machina de soldar seja introduzida no paiz, fizemos já notar ser bastante difficil a sua solução ou antes que elle não podia ser resolvido de um modo completamente satisfactorio.
E de facto assim é. Prohibir a importação d’aquella machina, ou tributa-la fortemente, o que daria o mesmo resultado, além de outros inconvenientes, apresenta o grave defeito de nada resolver. Apenas a questão ficaria adiada por algum tempo, para surgir mais ou menos inopinadamente quando se chegasse a este dilemma: ou acabar com a industria de conservas no nosso paiz, ou importar livremente a machina de soldar.
E comprehende-se facilmente que assim teria fatalmente de succeder, desde que se pondere que n’um grande numero de fabricas de conservas da visinha Hespanha aquella machina já funcciona, que nas restantes fabricas não tardará a succeder o mesmo, e que a França pouco se demorará a seguir-lhes o exemplo.
D’ahi um extraordinario barateamento de productos com que as nossas fabricas não poderiam competir e a necessidade inadiavel de introduzir desde logo a machina na industria portugueza.
Posta pois de parte, por improficua, uma medida governativa que tendesse a prohibir directa ou indirectamente o emprego das machinas de soldar, só fica um recurso. E’ regulamentar essa importação de modo que a substituição dos braços humanos por essas invenções da mecanica se faça lentamente, gradualmente, tão lenta e gradualmente quanto possivel.
Parece-nos ser este o expediente a adoptar em face das circumstancias, e aquelle que melhores resultados praticos dará.
Assim não se lançarão repentinamente na miseria muitos centenares de homens, e quasi se poderia dizer, muitos centenares de familias.
Mas satisfará elle completamente? Por certo que não. E’ uma attenuante, não é um remedio radical, e por isso dizíamos no principio que a solução d’este problema era deveras difficil ou antes, que não havia maneira de o resolver satisfactoriamente.
Porque a verdade é esta. A solução que se nos apresenta como sendo a preferivel, nem por isso evita que uma classe hoje tão numerosa, como é a dos soldadores, veja n’um praso mais ou menos longo dispersos os seus membros e em lucta com a difficuldade de obterem emprego onde ganhem o pão quotidiano.
E accresce ainda que a introducção da machina de soldar na industria conserveira não prejudicará apenas os soldadores.
Soffrerá com isso, e muito, o pequeno commercio. Soffrerão os proprios industriaes que não disponham de capital bastante para adquirirem os novos apparelhos, e que serão obrigados, por isso, a fazerem cessar a laboração das suas fabricas. Tambem para estes a machina de soldar representará a ruina, o aniquilamento de muita esperança risonhamente entretida.
De modo que estamos em presença d’uma verdadeira calamidade, d’uma calamidade terrivel, se não para todos, pelo menos para muita gente. Mas se o mal não pode ter uma cura completa, que, quando mais não seja, se procure suavisar-lhe os effeitos, e n’este proposito apresentamos estas ligeiras considerações que são como que o complemento das que n’outro artigo e sobre o mesmo assumpto não ha muito fizemos.