Revista CONSERVAS - Ano III - 1938 - nº32 Agosto
Terei Razão?
Não sou eu que tenho dúvidas mas, quem escreve para o público ler e apreciar, sujeita-se a que lha dêem ou não e por isso faço a pergunta:
Partiu há dias para os Estados Unidos do Brazil uma Missão Comercial presidida pelo antigo Ministro do Comércio, Ex.mo Snr. Engenheiro Sebastião Ramirez. É realmente interessante êste movimento procurando o contacto pessoal com os mercados externos e principiando por aquêle onde uma grande colónia portuguesa exerce a sua actividade. Alegra-nos sobretudo que dessas missões sejam encarregadas pessoas do prestígio daquelas que compõem a missão de que falamos. Estamos portanto de parabens por essa manifestação de actividade diplomatica e comercial.
O facto, porém, de dela fazer parte o Ex.mo Snr. Engenheiro Sebastião Ramirez precisa de comentário simples embora de amigo e respeitoso, pela forma como o facto se reflecte na vida da indústria de conservas.
Todos nós sabemos que devemos a sua Ex.ª o início da Organização da Indústria de Conservas, organização essa que acompanhou e orientou como Ministro nos primeiros três anos. Os benefícios daí auferidos são bem conhecidos e ninguém pode esquivar-se à obrigação de lhos agradecer. Encontrou sempre da parte dos industriais a melhor boa vontade em cooperarem com sua Ex.ª. Dos que quiserem contrariar a organização não vale a pena falar. Não quero portanto deixar de acentuar que todos os industriais de conservas contraíram para com ele e, na pessoa dêle como Ministro, para com o Govêrno Português, deveres de gratidão.
Há porém uma reciprocidade a que nos julgamos com direitos. Tendo sua Ex.ª a responsabilidade da orientação nos primeiros três anos, parece-nos lógico que ficou para connosco obrigado a não se desinteressar dela no futuro. Não abundam na indústria conserveira pessoas que possam conscientemente dirigir e orientar em momentos graves de crise, como é infelizmente a situação actual.
Não são passados ainda tantos anos para nos deshabituarmos de o ver presidir às reuniões de industriais e não têm aparecido novos elementos que tomassem o seu lugar. Não é demais lembrar que sua Ex.ª em 1927 no Congresso de Setubal marcou brilhantemente a sua posição de industrial provando que conhecia os problemas das indústrias ali reunidas: pesca e conservas.
A seguir foi presidente alguns anos da Secção de Conservas da Associação Industrial de Lisboa, onde sob a sua orientação foram tratados e resolvidos vários problemas que então incomodavam a indústria. Conseguiu que sua Ex.ª o Snr. Ministro das Finanças, Dr. Oliveira Salazar, fizesse o seu inquérito à mesma indústria em visita pessoal aos diferentes centros conserveiros, até que foi chamado a desempenhar o espinhoso cargo de Ministro do Comércio. Nessa qualidade organizou várias actividades principiando pela indústria de conservas. Há portanto durante vários anos uma sequência de actividade orientadora que lhe deu direitos e deveres.
Deixou de ser Ministro há já dois anos e tal, retomou a direcção da sua casa e nada impedindo que voltasse ao seio da família conserveira hoje organizada nos Grémios que sua Ex.ª creou, aí onde podia orientar o estudo dos problemas que a cada passo surgem, creando dificuldades à indústria e sobretudo ao comércio das conservas, daí vemos que desapareceu. Encontramo-lo no seu escritório da Rua Augusta, recebendo sempre os amigos com aquela amabilidade e atenção que lhe são peculiares, mas neste momento de crise onde a sua inteligência, prestígio e absoluto conhecimento da situação poderiam dar aos Grémios como industrial, que o é em três centros conserveiros, uma cooperação com certeza muito útil, aí nós não o encontramos. Isolou-se. Porquê? Terá êsse direito?
Todos os que se habituaram a estimá-lo e a considerá-lo como merece, que sempre encontrou prontos a cooperar consigo quando os chamou, não lhe merecem êsse abandono. Eu não sei se toda a gente tem o direito de dar por findos os seus trabalhos a favor da grei, e nada diríamos se víssemos a actividade de sua Ex.ª limitada aos seus afazeres particulares.
Porém, sua Ex.ª foi para o Brazil numa missão importante, é facto, mas com a consciencia de que a indústria de conservas se vê a braços com graves problemas a resolver.
Nós temos um organismo de Coordenação Económica, mas êste não pode prescindir da colaboração das Direcções dos Grémios e estas dos seus agremiados. O Snr. Engenheiro Sebastião Ramirez era quem naturalmente estava indicado para dar unidade a esta cooperação. Quem se julga com coragem para arcar com a responsabilidade de o substituir?
Soube que sua Ex.ª tinha sido indicado para seguir para a América do Norte onde o problema da importação de conservas naquele grande mercado necessitava estudo e acção. Não sei se o convite lhe foi feito ou não; sei que ele não foi para a América do Norte. Para se isolar? Não, para ir de preferência ao Brazil numa missão diferente.
Como amigo, como conserveiro e como seu velho e modesto cooperador, protesto.
Suponho que estou cheio de razão.
Matozinhos, 10 de Agosto de 1938.
Affonso Barbosa