Artes & ofícios em Sesimbra : 1925-1950

 Título: Artes & ofícios em Sesimbra : 1925-1950
Autor: Raul Pinto Rodrigues
Publicação: Câmara Municipal Sesimbra, cop. 2003
Descrição física: 247, [2] p. : muito il., fot. p&b; 21 cm
ISBN/ISSN: ISBN 972-9150-46-X

OWNER OF COLLECTION: conservasportugal.com

CREDIT: CÂMARA MUNICIPAL DE SESIMBRA

IMAGES: Imagens cedidas por Divisão de  Arquivo e Documentação – CÂMARA MUNICIPAL DE SESIMBRA

IMAGES Páginas Fábrica do Gelo: conservasportugal.com

Embora se tivesse começado a implantar na vila nos finais do século XIX, a indústria de conservas de peixe atingiu a sua maior atividade na primeira metade do século XX, mais concretamente durante o período que englobou as duas grandes guerras mundiais.
Durante essa época, Sesimbra chegou a ter em laboração catorze fábricas de conserva de peixe que empregavam cerca de um milhar de pessoas. Em 1931, havia a funcionar sete fábricas que davam um contributo decisivo para o desenvolvimento laboral e económico sesimbrense.
Depois de, no período da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), ter passado por uma fase de bons ganhos, relativamente fáceis, a atividade entrou em crise. No caso da nossa terra, mais por falta de competitividade do que da qualidade dos produtos fabricados.
Sobredimensionadas em espaço e pessoal, e subdimensionadas em maquinaria tecnicamente evoluída, como a que já existia, ao tempo, noutros países produtores, como a Noruega e Alemanha; a braços com a irregularidade do fornecimento de peixe, aliada à falta de estruturas frigoríficas para conservação dos excedentes, nas épocas de fartura; confrontadas com um excesso de oferta e uma concorrência desregrada entre os próprios industriais, as empresas portuguesas, na sua grande maioria, tornaram-se obsoletas, incapazes de competir no mercado externo.
O declínio da indústria conserveira em Sesimbra acompanhou a evolução negativa do setor que se verificou em quase todo o país.
Nos anos cinquenta já não havia em Sesimbra mais que três fábricas em laboração: Belavista, Persistente ou “do Burro”, Primorosa ou “da Caveira”.

Em meados de 1950, a fábrica Persistente foi transferida para Matosinhos, onde o dono possuía outras unidades fabris. Em janeiro de 1961, a atividade terminou, definitivamente, com o encerramento da fábrica Primorosa que, entretanto, se havia fundido com a Belavista. Apesar de ter diversificado o seu fabrico, produzindo, para além das conservas em óleo, sardinha em tomate, lulas de caldeirada, ovas de sardinha e outras especialidades, não conseguiu vencer a crise.

A massa operária de uma fábrica bem apetrechada da indústria conserveira era constituída, em média, por 56 operários não especializados (50 mulheres e 6 homens), 14 soldadores, pessoal administrativo e mestrança.
Só cerca de 15% do pessoal, na sua generalidade homens, mão de obra mais qualificada e indispensável, fazia parte do quadro de efetivos. Eram eles que durante os meses de defeso (fevereiro, março, abril e maio, depois da desova, quando a sardinha estava magra e não tinha qualidade para conserva) mantinham as fábricas em laboração, trabalhando os biqueirões que estavam conservados em sal, transformando-os nas famosas conservas de anchovas.

Os restantes 85% dos operários não tinham salários fixos porque só trabalhavam quando havia peixe para preparar. Assim, na época, enquanto que um afinador de máquinas ganhava 1$20/hora, uma operária não auferia mais que $60 e um soldador fazia depender o seu salário da quantidade de latas que soldava durante o dia, isto é, trabalhava à empreitada.

Em 1934, por motivo da proibição do fabrico de conserva durante os meses de defeso da pesca da sardinha, os trabalhadores efetivos desempregados recebiam do C.P.C.S. (Consórcio Português de Conservas de Sardinhas) subsídios de 12$00/homem, 7$00/mulher, 5$00/rapaz menor de 16 anos.

A indústria conserveira de Sesimbra sempre baseou a sua atividade, por um lado, no baixo pagamento da mão de obra, que constituía um encargo de pouca influência no custo do produto final; por outro, na excecional qualidade do peixe da nossa costa e do azeite proveniente do Alentejo, com uma acidez inferior a um grau, utilizados pelas nossas fábricas. A qualidade e o baixo preço contribuíam para que a sua produção fosse exportada para a Alemanha e Bélgica.

Não obstante se conservar em azeite o atum, a albacora (peixes aos quais os conserveiros designavam, por graça, respetivamente, por “vaca” e “vitela”), a cavala, a xaputa (conhecida comercialmente por “bramaray”) e até carapaus pequenos, a sardinha era a chave-mestra da indústria das conservas de peixe. Logo que ela “falhava”, toda a atividade se ressentia.

O fabrico da conserva de sardinha processava-se do seguinte modo: os estridentes apitos que os sistemas sonoros das fábricas emitiam, ouvidos em toda a vila, anunciavam que na lota, junto à praia da fortaleza, havia barcas carregadas de sardinhas já compradas pelas empresas conserveiras para serem transformadas em conserva.

Logo que este sinal era escutado, os trabalhadores dirigiam-se rapidamente para os seus locais de trabalho, para iniciarem a laboração. O peixe chegado à fábrica, direto da lota, era deitado nas bancas e salpicado. Terminada esta operação, as mulheres descabeçavam as sardinhas e colocavam-nas nuns cestos que, uma vez cheios, eram colocados uns em cima dos outros. Estes cestos eram depois metidos nos tanques da “moura” onde permaneciam o tempo que o mestre determinava e que dependia do tamanho e da quantidade de escama do peixe. Este tempo era rigorosamente controlado através de um relógio próprio para o efeito.

A “moura”, água com sal marinho em dissolução, devia ter uma densidade aproximada dos 25°, verificada por um densímetro. Curioso é o modo como era obtida. Havia um depósito grande contendo sal sobre o qual um chuveiro deitava água. Esta atravessava o sal e, quando saía pelo fundo do depósito para cair no tanque da “moura”, tinha, regra geral, a densidade desejada.

Assim que retiravam o peixe do tanque, colocavam-no numas grelhas feitas de arame estanhado, resistentes à oxidação, que eram colocadas em carros especiais, com capacidade para acomodar quarenta e quatro peças. Estes carros seguiam depois diretamente para a estufa onde o peixe era cozido em vapor, durante o tempo que o mestre considerasse suficiente. Entre 5 a 6 minutos, e 10 a 11 minutos, respetivamente, para sardinhas de 50 a 75, e de 14 a 20 /Kg.

O vapor era produzido em caldeiras e daí canalizado para as estufas, sendo regulado por meio de torneiras próprias, muito resistentes.
Terminada a operação, os carros eram retirados e ficavam a arrefecer em locais com grande circulação de ar.


Quando o peixe estava a uma temperatura que permitia o seu manuseamento, iniciava-se o enlatamento, isto é, as operárias arrumavam as sardinhas nas latas. De notar que esta arrumação se fazia de cima para baixo, ou seja, a parte da lata que funciona como tampa quando a embalagem está pronta, nesta fase exercia a função de fundo.

As latas eram, de seguida, mergulhadas, manual ou mecanicamente, num depósito de azeite onde eram cheias por imersão. Procedia-se então ao seu fechamento, soldando o fundo, a estanho, na fase mais antiga, e por cravagem, mais modernamente. Durante esta operação, para que o ar fosse totalmente extraído do interior da embalagem, o soldador, à medida que ia soldando, fazia simultaneamente pressão com o dedo, de modo a que o fundo ficasse em contacto total com o azeite. Como processo de cravagem, a própria máquina continha, integrada, uma espécie de espiral que atuava numa concavidade existente no fundo da lata, pressionando-a e obrigando o ar a sair.


A utilização das máquinas rotativas, cravadeiras com sistema de roletes, que cravavam as tampas, ou melhor dizendo, apertavam e enrolavam os rebordos da tampa e da lata, simultaneamente, acabaram praticamente com a profissão de soldador. Fechavam cerca de 1200 latas/hora.


Depois de fechadas, as latas eram metidas no autoclave, aparelho de esterilização em que a água atinge temperaturas superiores a 100 °C sem ferver, por estar impedida a saída do vapor. Aí permaneciam cerca de 1 hora e 45 minutos, dependendo, no entanto, este período da sua dimensão e feitio.


Saídas da esterilização e arrefecidas totalmente, as latas de conserva passavam pelas mãos de operárias especializadas, muito experientes, denominadas “batedeiras”, que as batiam umas nas outras, detetando, pelo som e peso, as que não estavam em perfeitas condições, por conterem ar no seu interior.
Estas latas “ocadas” eram simplesmente rejeitadas ou era-lhes extraído o ar, abrindo-as no “bico” ou fazendo-lhes no fundo dois furinhos que eram soldados, após terem sido cheias com azeite. Na segunda hipótese, estas embalagens, depois de passarem novamente pela esterilização, durante cerca de 15 minutos, eram postas à venda como produto de 2.ª qualidade.


Chegadas ao fim da linha, as latas de conserva eram empapeladas ou cartonadas, não sem que antes tivessem sido limpas com serradura e passadas com uma escova, o que lhes dava um brilho muito especial.
Era nos invólucros, de papel ou cartão, adquiridos em Setúbal, que vinham especificados a marca, a qualidade e outros elementos do fabrico.


As cabeças, vísceras e desperdícios do peixe eram secos em estufas a vapor e posteriormente vendidos para o fabrico de guano ou farinha de peixe.


Em 1929, havia em Argéis uma fábrica de guano de peixe de que era proprietário José Manuel Rapaz Júnior, e, nos anos 30, uma outra em Santana, perto dos terrenos de António José Marques (antes, José da Costa).


De algumas das treze fábricas de conserva, acima citadas, que laboraram no concelho de Sesimbra, passamos a descrever as suas características:

FÁBRICA “A PERSISTENTE”

Vulgarmente conhecida por “Fábrica do Burro“, localizava-se na Rua Dr. Manuel de Arriaga, frente à residência de Plínio Mesquita. Em 1932, a firma era designada por Nero & Comp. a Sucr. Lda., e tinha como sócios Amadeu Henrique Nero (gerente), Milton Albuquerque Freire da Cruz, Caetano Joaquim dos Reis e João Lobato Dinis.
Os seus produtos foram premiados com uma medalha de prata na Exposição Regional de Setúbal de 1933. A conserva de atum do seu fabrico, marca Catraio, era muito apreciada e de grande qualidade.

Nos inícios dos anos cinquenta, o seu proprietário, Amadeu Henrique Nero, que possuía outras unidades fabris congéneres no litoral norte do país, designadamente em Matosinhos, transferiu-a para lá.

Esta fábrica, tal como as pertencentes à firma francesa Salpiquet, eram as únicas que tinham “secção de vazio”, isto é, adquiriam a folha-de-flandres e o estanho, e produziam as próprias embalagens.

As outras empresas só tinham “secção de cheio”, o que quer dizer que compravam as latas já feitas.

Operariado: Guilhermina Pulquério e Elvira da Conceição “Matuta”.

FÁBRICA “A PRIMOROSA”

Também designada por “Fábrica da Caveira“, devido à sua localização junto ao cemitério, na Rua D. Sancho I.
Foi fundada em 1916 e pertencia à firma Pereira, Netto & C.ª, propriedade de Manuel José Pereira, Abel Silva Neto e Faustino Simplício.

Em 1935, era uma grande exportadora para a Europa de conserva de atum em embalagens (latas) de 5 quilos.

Foi a fábrica mais bem equipada do concelho, a que maior diversidade de produtos fabricou e a que mais tarde encerrou a sua atividade (janeiro de 1961).

Operariado:
Emílio Zegre da Silva Neto (encarregado e afinador de máquinas); Abel Zegre da Silva Neto, Júlio da Silva, João Pedro Lameiro, José Silvestre Farinha e Manuel Carvalho Páscoa (soldadores); Francisco Páscoa e José “das Caldeiras” (caldeiras); José Ribeiro (fogueiro); Manuel e Francisco Pitata Dias, Adelaide, Maria e Rosa Pitata Dias, Isabel Viegas Fuzeta, Maria Emília Pereira “Paninhas”, Quitéria e Angelina Gregório, Idalina Cebola, Emília Cagica, Maria Rosário Faria, Cremilde Farinha, Amélia “Calha-calha”, Maria “Setubalona”, Açucena, Maria da Luz Cascais e Dulvina Aguiar.

FÁBRICA BELAVISTA

Ficava situada junto ao antigo matadouro municipal, onde hoje existe o Edifício Atlântico. Era propriedade de Artur Duarte Borges e, mais tarde, da firma Artur Duarte Borges (Filhos) Lda., de que faziam parte Artur Cândido Borges e seus irmãos, José, Deodoro e Isolino Cândido Borges.

Em 1923, as suas conservas foram premiadas com a medalha de ouro na Exposição Internacional do Rio de Janeiro.

Quando a atividade conserveira entrou na sua crise mais marcante, houve uma junção desta unidade fabril com a sua congénere A Primorosa.

Operariado: Joaquim Augusto Farinha (soldador/cravador); Sofia e Manuela Borges dos Santos, Lucrécia Capítulo, Mariana Paulo da Cruz, Margarida Aldeia, Matilde Carapinha, Maria Angélica Neto, Cândida Veríssimo, Maria do Carmo Vidal, Rosalina Carapinha, Ema Cardim, Inês Baeta e Amélia Cascais.

FÁBRICA DO CHORA

A sua denominação resultava de ser esse o nome do seu proprietário. Tinha as instalações na Rua Dr. Manuel de Arriaga, no local dos antigos armazéns da Câmara Municipal. Era uma fábrica pouco apetrechada, que nunca chegou a possuir máquina de cravagem.

FÁBRICA FRANCESA

Assim chamada, vulgarmente, por ser propriedade da firma francesa Société Arsène Saupiquet.
Localizava-se nos terrenos fronteiros à conhecida “Praia Velha”, onde existem hoje algumas lojas de campanha. O seu gerente era João Pais da Silva Loureiro.
Embora já há muito estivesse desativada (1935), sofreu grande destruição aquando do ciclone de 1941.

FÁBRICA DOS GATOS

O nome por que popularmente era conhecida advinha do facto de, em determinada ocasião, cinco gatos se terem metido dentro do autoclave, quando este se encontrava desligado, só tendo sido descobertos quando os operários, ao abrirem o aparelho, acabado de trabalhar, lhes deu o cheiro, pouco agradável, a gatos escaldados.

Ficava situada perto da Calçada do Cemitério. Eram seus donos José Ferreira de Almeida (antigo fiscal da “praça”), José Maria Valada (pai) e José “da Josefina” (natural da freguesia do Castelo).

FÁBRICA LUSITANA

Era propriedade da Sociedade Lusitana de Comércio de Peixe, Lda.
Tinha duas dependências: uma onde foi a antiga “praça”, atual mercado municipal; outra em Santana, perto da casa de Joaquim de Sousa. Foram ambas penhoradas em 1933.
Nos anos vinte, Francisco Marques Pereira era o seu sócio gerente.

FÁBRICA NACIONAL DE CONSERVAS

Localizava-se na antiga Rua de Santo António, no edifício onde, mais tarde, no tempo da fome, se distribuía a sopa dos pobres e onde foi também a sede da Legião Portuguesa.
Para os mais novos, diremos que ocupava o espaço do Hotel Espadarte, hoje Hotel Sana Park, e respetivas traseiras.
Pertencia à firma francesa  Société Arsène Saupiquet, foi instalada nos finais do século XIX e terminou a sua atividade no início dos anos trinta.

Um dos gerentes, no início do século XX, foi Joaquim António Pinto.

Num inquérito industrial realizado em 1889 é referido que esta unidade fabril estava equipada com uma máquina a vapor fixa, com três cavalos de força.

No dia 11 de junho de 1902, a fábrica foi alvo de um violento incêndio, dos maiores registados em Sesimbra.
Em 1933, as suas instalações foram postas à venda, vindo a ser adquiridas pela Câmara Municipal.

FÁBRICA PINTO

Propriedade de Joaquim António Pinto, também comerciante na vila, tinha as suas instalações na conhecida “Vila Pinto”.
Era uma fábrica pouco mecanizada, não chegando a ter máquina de cravagem.

CONSERVAS DE SARDINHAS POR SALMOURA

Constituída em 1934. Pertencia a João Baptista Mota, Manuel Pinto Soares e Adriano Paiva Baptista.

SOCIEDADE UNIDA DOS TRÊS IRMÃOS

Constituída em 1929. Pertencia a António Leão Soromenho, Luiz Leão Soromenho e Victor Costa.

MOTA PINTO & BATISTA LIMITADA

Ficava situada na Rua Heliodoro Salgado. Penhorada em 1934.

5.2. Fábricas de gelo

Em 1926, foi instalada em Sesimbra a primeira fábrica de gelo, cujo mecanismo responsável pelo processo de arrefecimento era accionado por um motor de explosão.
Pertencia à sociedade Viúva de Joaquim Gomes Covas & Filhos, de Abel e António Gomes Covas, e estava localizada na Avenida da Liberdade, frente à Escola de Santa Joana. Ali trabalharam, entre outros, Armando Embaixador Ferreira, José Inácio Elisão, Manuel Agostinho Encarnação Reis e José Manuel Santana Dias.

Em Setembro de 1938, um ano após a inauguração da energia eléctrica em Sesimbra, entram em funcionamento as primeiras câmaras de congelação e de conservação de peixe e carne. A instalação desta unidade fabril trouxe um grande desenvolvimento ao comércio do peixe, que, até aí, se conservava seco e salgado.

Mais tarde, em 1946, António Marques Chanoca instalou uma outra fábrica na Via Mar e Sol, 192, que tinha uma capacidade de fabrico de 1.200 Kg/dia. Aí trabalharam: Manuel Santana Gomes, Natalino “Azoia”, “Barrote” e Sebastião Pitórra (escriturário).

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